Marcelinho, o Opinioso, comenta: Tem, mas não há

Começo com senhores parênteses: dizem que parte da história dos portugueses serem pouco inteligentes (lenda velha aqui no Brasil) tem a ver com a literalidade. Se um português te fala algo, ele quer dizer aquilo, oras. Não fala “sim” quando quer dizer “não” e nem vice-versa (como fazem algumas mulheres). Já o sentido figurado tem tudo a ver com o brasileiro: nós, os eternos malandros, é que gostamos de um sarcasmo, de uma ironia, de um eufemismo. Se a metáfora fosse uma pessoa, seria brasileira e morreria de fome tentando ser poeta.

Um dos maiores símbolos desse apego lusitano pelo significado real é “tem, mas não há”. Para nós, que facilmente misturamos alhos com bugalhos e ter com haver, a expressão faz pouco sentido. Chegamos a um bar, por exemplo, perguntamos “Tem tal cerveja?” e o garçom já traz logo a garrafa. Em Lisboa, por exemplo, essa pergunta poderia resultar em um “Tem, mas não há” e um garçom com cara de tédio parado à sua frente. Seria algo do tipo “Sim, eu confirmo a existência de cerveja no mundo, mas não há nenhum exemplar disponível aqui no momento. Mais alguma coisa?”. E assim encerro o parênteses.

Existe algo d’além mar na nossa equipe econômica, principalmente no que tange à tão falada crise internacional. Não que exista muita certeza sobre o assunto em qualquer esfera, mas pelo menos no governo federal a coisa atinge níveis de esquizofrenia. Basta olhar a cronologia.

Quando o pau estava quebrando nos Estados Unidos, com a falência dos irmãos Lehman, o discurso aqui era do “tem, mas não há”. Uma coisa meio “ouvimos falar de uma certa crise no mundo, mas por aqui não dá nem para esquiar”.

Aos poucos o discurso foi mudando. Quando não dava mais para negar, negavam – o papo passou a ser de que é, ia chegar, mas bem devagarinho, fraquinho, e seríamos o primeiro a sair. Caiu tudo: emprego, produção, indústria. Mas tudo bem, isso passa. Não é nenhuma pereba gigante, está mais para um machucadinho, só beijar que sara. Pode ser que seja recessão, mas se isso ocorrer, já é no passado.

E aí, agora, vem a novidade: segundo nossa excelentíssima equipe econômica, a crise passou. Que crise, cara pálida?! Que crise?! Não teve crise. Ela ia chegar, ia chegar, e passou. Ou, como disse certa vez o jogador Paulo Nunes, ela “ia, ia, ia e iu”. A crise iu, meus caros. Deu aquele susto geral, como era de esperar de uma crise, mas foi embora incomodar outro, pelo menos é o que dizem por aqui.

Os economistas devem odiar essa incerteza. Ninguém consegue acertar um indicador, o palpite de analistas (que, cá entre nós, sempre foi um palpite) virou puro chute. Se a idéia é entender o futuro, anda valendo mais ler o horóscopo do que as colunas de economia dos jornais. A lusitana “tem, mas não há” também vale para a coerência de toda essa situação, mas uma outra expressão, bem brasileira, provavelmente se aplique melhor: a economia virou mesmo foi um samba do crioulo doido.

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2 Comentários

Arquivado em O Opinioso comenta

2 Respostas para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: Tem, mas não há

  1. Eu não sabia do “Tem, mas não há” eu entendo mais o “Tem, mas acabou” do tipo “Vendemos aqui, mas agora ta em falta”.

    E eu não lembro de nenhum momento desde que eu vivo, em que o Brasil não estivesse em alguma crise.

  2. Marcelo (O Pai)

    Resumindo…
    Economista??? – Tem, mas não há!

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