Marcelinho, o Opinioso, comenta: Tremeliques

Tem palavras que fazem certas pessoas tremerem. Os adversários do Timão, por exemplo, não podem ouvir “Ronaldo” que caem em lágrimas. O Fenômeno, por outro lado, não deve poder ouvir “travesti” que fecha a cara (eu sei que a piada é velha, mas o episódio entrou para a história). Isso também vale para décadas. Nos anos 70 era “ditadura”, em 80 era “Aids”. Para a maior parte dos brasileiros que já eram adultos nos anos 90, a palavra maldita foi “confisco”.

Collor deixou para o brasileiros o medo de perder a poupança (o investimento, sem trocadilhos). Não interessam as garantias institucionais, nem as mudanças na nossa estrutura de poder, a idéia de um confisco continua aterrorizando o cidadão comum. O brasileiro que passou pelo episódio criou uma espécie de fobia a alterações na poupança, independente do motivo que as torne necessárias. Como agora.

Em síntese: nosso modelo de rendimento fixo da poupança está ultrapassado. Era muito adequado e útil na época da inflação galopante, mas não cabe mais em um período de prolongado crescimento econômico e quedas de juros graduais. Hoje, o que era para ser apenas uma maneira segura do trabalhador guardar dinheiro está prestes a se tornar uma aplicação com potencial de rendimento maior até do que os chamados fundos de investimento.

O ideal, consenso entre economistas, seria vincular o rendimento da caderneta à taxa básica de juros. O problema é que a idéia não é nenhum pouco atrativa do ponto de vista político. Somos um país emocional demais: o povo tem medo de ser “roubado” novamente, e os nossos governantes eleitos tê medo de não continuar no poder. Não tinha como funcionar isso, e de fato não funcionou. O governo acabou optando por um meio-termo temporário, de tributar quem não tinha mesmo de estar na poupança e se render aos bancos, que reclamam da fuga de investidores mas se recusam a diminuir o lucro em prol da concorrência de mercado.

Estão os dois errados: o temor do presidente de que a oposição transformasse as necessárias mudanças em plataforma política de críticas não é justificativa aceitável. Toda e qualquer medida com um mínimo de viés impopular tem esse caminho, em qualquer área. Era a hora de levantar a cabeça e mostrar os benefícios de uma mudança mais séria e definitiva, apesar da primeira impressão negativa. Empurrar com a barriga, como fez, é governar pelas ruas e não para as ruas. Por outro lado, a oposição deflagrou uma campanha de desinformação e terrorismo que não ajuda ninguém, e tenta ganhar espaço bombardeando uma medida que, se não é ideal, resolve pelo menos por hora o problema.

Nesse ritmo, o brasileiro da primeira década do século XXI vai tremer quando ouvir a palavra “políticos”.

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1 comentário

Arquivado em O Opinioso comenta

Uma resposta para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: Tremeliques

  1. Eu vi o Collor no programa do PTB hoje… nem sabia que ele tava no partido.

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