Troféu Tristan Tzara de Composição: Das relações entre bardos e fadas

Diz um amigo meu que o Brasil padece de uma grave mal: faltam poetas ao país. Discordo. Acho que poetas eram importantes até, no máximo, no começo desse século, quando a tuberculose ainda era uma forma romântica de morrer. Hoje, a doença só mata gente pobre e/ou burra, portanto não há motivo para lirismo.

O único problema que vejo realmente na nossa pequena quantidade de bardos é o excesso de pseudo-poetas. Eles estão por aí aos montes, rimando por dinheiro em mesas de bares, inventando sarais que não passam de desculpa par orgias homoeróticas. Ou fazendo músicas non-sense, como “Bandolins”, do eterno chato Oswaldo Montenegro.

“Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos bandolins…”

Se tem uma coisa que eu não suporto é mania de inversão. Sabe o hino nacional, quando o começo da frase na verdade está lá pela quarta ou quinta linha? É isso aqui. Esse “como” era para demonstrar uma comparação, mas não tem nada para comparar. Isso sem falar no uso esdrúxulo de um bandolim, instrumento muito bonito e medieval que poderia tranquilamente ficar naquela época. Só falsos poetas ainda admiram bandolins, principalmente para tocar valsas.

“E como não?
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim…”

Até parece que ele me ouviu questionar a comparação bizarra e mandou o “e como não?”. Só que continua a inversão, e até agora nada do começo da frase. Fora a história de ir dividindo a frase entre as estrofes da música. É estratégia: o objetivo é te obrigar a aguentar toda essa bobagem até o final se quiser fazer algum sentido.

“Seu colo como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim
Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins…”

Momento “vamos fazer uma imagem mental”. Tá lá a moça, apertando o colo (seios, ou peitos, em linguagem “poética”) por aí e rodopiando ao som de bandolins. Para variar, tem aquele ranço de rebeldia que sempre toma melodias da tal “MPB”: se ela roda de forma sensual é porque está enfrentando o mundo, dançando de maneira imprópria. Mas é agora que chegam as informações que mostram o real motivo para sua atuação.

“Como fosse um lar
Seu corpo a valsa triste
Iluminava e a noite
Caminhava assim
E como um par
O vento e a madrugada
Iluminavam a fada
Do meu botequim…”

Só as duas últimas frases dessa estrofe fazem sentido, e explicam praticamente o texto inteiro. O que é, o que é? Aperta o colo, dança de maneira imprópria e pode ser chamada de fada de botequim. Ganha uma pole dance quem respondeu que é messalina, cortesã, biscate, garota de programa. Em síntese, prostituta. Também conhecida nos últimos dias como “mãe de deputado’.

“Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim
Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos bandolins…”

Eu poderia forçar a barra e ver no “valsando como valsa uma criança” uma certa apologia à prostituição infantil, mas não é necessário. A mim basta perceber a sutil ironia de “se julgando amada” ao falar do ofício mais velho do mundo, e perceber que o velho Oswaldo não passa de um pseudo-poeta de buteco que continua escrevendo em troca de dinheiro. Ou “serviços”.

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1 comentário

Arquivado em Troféu Tristan Tzara

Uma resposta para “Troféu Tristan Tzara de Composição: Das relações entre bardos e fadas

  1. Eu ia comentar algo quando li isso, na casa da Júlia.

    Só que estava logado no blog dela, e fiquei com preguiça de deslogar. Agora não sei mais o que ia comentar.

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