Terrorismo

Situação hipotética: sequestraram o presidente da República. Em pleno domingo, logo após o jogo do Timão.

Na segunda-feira, o vice-presidente assume o cargo e convoca uma coletiva. Ele se empolga criticando os juros e esquece de contar sobre o sequestro. Convoca outra coletiva para falar que a Polícia Federal já está no caso, decidindo se vão chamar a busca de Operação Mindinho ou Operação Pescaria (já que eles têm que encontrar um tipo de lula). A oposição critica, diz que isso deve ser coisa da Abin, e cogita entrar no TSE para questionar campanha fora de hora para Dilma. A bolsa de valores cai.

Na terça, a busca começa a emperrar. O PMDB quer cargos no comando da investigação, mas esbarra no orgulho do PT. A PF vaza informações sobre um possível cativeiro, e quando chegam lá, os sequestradores fugiram com o presidente. A oposição começa a juntar assinaturas para criar a CPI do Sequestro. Gilmar Mendes comenta o caso, e diz que é muito perigoso para a democracia colocar nomes em operações da Polícia Federal. Por algum motivo acham pertinente consultar FHC, que acusa Zé Dirceu de envolvimento. O ex-ministro devolve a denúncia. A bolsa de valores sobe.

Na quarta, chega o pedido de resgate dos sequestradores, com um dedo mínimo como prova (obviamente falso). Eles querem a redução do IPI para o setor de armas de fogo e narcotráfico. Com medo de perder mercado, o lobby das bebidas e cigarros pressiona, e oposição e base aliada avisam que são contra. Finalmente é criada a CPI do Sequestro. A bolsa de valores cai, e analistas do mercado criticam os sequestradores.

Quinta-feira, o governo anuncia que vai editar uma medida provisória para pagar o resgate, mas o DEM avisa que vai questionar no Supremo porque não considera o assunto nem urgente nem relevante. O baixo clero na Câmara diz que até concorda com a MP, mas quer que venha com proposta de criação de novos cargos de terceiro escalão. O PMDB condiciona o apoio à manutenção de apadrinhados na Infraero. O PT convoca uma plenária para discutir o assunto, e concluem que devem lançar mesmo Antônio Palloci para o governo de São Paulo. A bolsa de valores sobe.

Na sexta, sai o texto da MP. Bombardeado. Miriam Leitão diz que o governo mais uma vez faz bobagem, porque a redução do IPI só beneficia alguns setores e vai provocar um desequilíbrio nas contas públicas. Defende que se desonere também, por exemplo, a linha de armas brancas. A CNI fala que deviam aproveitar para reduzir novamente a taxa de juros. Na Câmara, alguém lembra do passado guerrilheiro de Fernando Gabeira e ele parte para cima. A oposição fala em quebra de decoro parlamentar, porque ele usava uma tanguinha imoral na hora da briga. A CPI do Sequestro emperra na definição de quem vai ser o relator. Gilmar Mendes sai à mídia para comentar mais uma vez o sequestro, fala que ele mostra um Estado policialesco e ninguém discorda, por algum motivo. A bolsa de valores cai.

No sábado, a bolsa não cai, porque o mercado está fechado, mas as perspectivas não são boas. O presidente em exercício José Alencar se licencia para uma viagem de última hora. Michel Temer assume o cargo e cria o Ministério do PMDB (mais um) por medida provisória, em edição extra do Diário Oficial. A Polícia Federal vaza que Lula está em algum lugar do estado de São Paulo, mas é só o que eles sabem. Saem as primeiras capas de revistas semanais: a Veja diz que tem dedo do PT na história e que a PF fez escutas ilegais, Carta Capital fala que a captura foi a mando de Daniel Dantas e Istoé solta uma capa interessantíssima sobre um robô-professora criado no Japão.

No domingo ninguém faz nada, porque tem jogo do Mengão. Mas no começo da noite o presidente da República é abandonado perto da granja da Granja do Torto. Nos bastidores, parlamentares comemoram que, por uma semana, os escândalos do Senado e da Câmara foram esquecidos. A Polícia Federal ainda procura os sequestradores, que suspeita serem especuladores da Bolsa. Mas, observando os efeitos práticos da semana, ninguém duvida que possam ser terroristas.

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Crônicas do Opinioso

3 Respostas para “Terrorismo

  1. Taborda

    Nesse ínterim, entreouve-se no cafezinho da Câmara: “Sequestro é o c…”

  2. Este é digno de sair em todos jornais, revistas e outros periódicos. Circular em “emails-amigos-conhecidos” e afixar nos murais de todas as empresas privadas e repartições públicas do Brasil.
    Espetacular! Sem corujismo, evidentemente.

  3. Ahaha…. e eu tinha comentado sobre as capas sem noção da Instoé ontem com você.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s