Joãozinho

Não tem figura mais endiabrada do que o Joãozinho. O garoto é o mal encarnado, a personificação da traquinagem. Para quem acredita no panteão nórdico, Joãozinho seria um avatar de Loki. Ou um leprechaun humano para os escoceses. Tanto faz. O que interessa é saber que Joãozinho apronta muito, sempre, com todo mundo. Já sacaneou padres, professores (e principalmente professoras), pai, mãe, carteiros. Não é à toa que o garoto protagoniza todo tipo de piada.

As vizinhas fofoqueiras de Joãozinho têm certeza de que existem dois futuros possíveis para o garoto: cadeia ou cemitério. E isso apesar dele não morar nem no morro e nem na rua. O pequeno João vive com seus pais, tem uma cama quentinha, e só tem que tolerar os boatos maldosos sobre a vida sexual/financeira de sua mãe. Mas, ignorando todas as perspectivas, o garoto sonha, e insiste em seu projeto de vida.

Joãozinho quer ser político. Todos os dias, depois de passar dois ou três trotes na polícia e roubar balas da velha padaria da rua, ele assiste deslumbrado ao noticiário sobre o Congresso. O menino fica impressionado com a habilidade dos deputados de fazer cara de paisagem diante da maioria das denúncias. Ele sabe, da experiência de vidraças quebradas, que dar uma de desentendido quando se é culpado é coisa de profissional. Por isso seu encantamento com deputados e senadores que só faltam falar “O que? Passagem aérea? Que passagem?”.

Joãozinho tem vocação para aquilo, e ele sabe. Por hora, ainda treina sua lábia, convencendo a mãe de que suas notas ruins resultam de perseguição da professora. Também se dedica a perder o que resta de bom senso, para poder responder às acusações mais pesadas com “Pode até ser imoral, mas não é ilegal, é?” ou “O regimento é omisso, portanto posso fazer”. O garoto, por mais terrível que seja, ainda tem nesgas de caráter, provavelmente herdados do pai.

Joãozinho só está com medo da última etapa do processo de transformação político. Ele não se sente suficientemente preparado para a proeza física de perder os braços e, mesmo assim, dar de ombros pro resto do mundo.

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2 Comentários

Arquivado em Crônicas do Opinioso

2 Respostas para “Joãozinho

  1. Somente uma palavra: adorei!

    =]

  2. Teve ainda um que falou que o Senado quer que ele se separe da esposa dele se nao derem o direito às passagens, ou que ele deveria mudar pra Brasilia.

    Po, se ele trabalha em Brasilia, ele ganha um apartamento do senado, que leve entao a familia dele para morar la. Se ainda assim ele preferir morar na cidade dele, que pague do bolso dele as passagens semanais para visitar a familia, não do meu.

    Ele recebe R$13 mil por mes, da pra pagar e ainda participa do plano de milhas da empresa aerea.

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