Troféu Tristan Tzara de Composição: O horror, o horror

Quem me conhece sabe da minha birra com os anos 60 no Brasil. Sim, tivemos o problema da ditadura (e não vou entrar em mais detalhes porque esse assunto sempre dá problema), mas não é a minha maior fonte de irritação. O maior problema daquela década, na verdade, foi o impacto no desenvolvimento da cultura do país.

Se nos Estados Unidos, o movimento hippie surgia em justíssima oposição às guerras em que os ianques haviam se metido, por aqui nossos ripongas preferiam se reunir em desorganizados e barulhentos festivais. Ali surgiram aberrações musicais, pseudo-heróis da cultura popular brasileira e uma tal de Tropicália, que se dizia inovadora mas não fazia nada mais do que trazer de volta as idéias do modernismo brasileiro.

Um desses “monstros sagrados” surgido do maldito teatro Record foi o homem dos caracóis, o baiano mais baiano da história, Caetano Veloso. Envolvido com outros indivíduos de estirpe semelhante, como Gilberto Gil e sua irmã Maria Bethania, ele foi o responsável por um dos hinos daquela época que, se ouvirmos hoje, soa no mínimo esquisito. Nem queira saber no máximo. Com vocês, “Alegria, alegria”.

“Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou…”

Vá lá, auge do movimento hippie. Até imagino aqueles caracóis enrolados em alguma faixinha multicolorida, esvoaçantes enquanto ele caminha por alguma praia baiana sob o sol de verão. Se tomarmos o lenço como uma metáfora para vestes, veremos que a sensação total de liberdade só surgiu para o jovem Caetano quando ele resolveu caminhar nu por aí, balançando ao vento.  Vai, filho, vai. Pra bem longe.

“O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou…”

Se tem uma coisa onipresente em músicas de festival é a mania de enfiar assuntos relacionados à ditadura – e sim, eu não aguento mais ouvir falar da genialidade de Chico Buarque por causa da metáfora de “Cálice”. Daí a enumeração de crimes, espaçonaves (???) e guerrilhas. Imaginemos, portanto, o jovem e nu Caetano vagando por Ilhéus enquanto o sol se transformava em um quadro de Dalí no céu. E mesmo assim ele vai.

“Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot…”

E o sol continua se dividindo. Caras de presidentes, naquela época, sempre tinham bigode, charuto e um quepe, daí o protesto. Dentes e pernas é divagação fetichista. Bandeiras, bombas e Brigitte Bardot foi só para fazer gracinha pela aliteração (que grande poeta!). Sem desprezo ao jovem e nu andarilho de caracóis nos cabelos, se aparece a Brigitte Bardot na praia, naquela época, eu parava de ir. Mas ele vai:

“O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou…”

É aqui que surge a explicação para eu ter falado que o nudista vagava por uma praia baiana: lá o sol sempre enche as pessoas de alegria e preguiça. Sem preconceito algum. Se eu morasse na Bahia, nem beberia água para não ter de levantar e ir ao banheiro. O que não combina com alguém que se dispõe a andar por aí. Nu. No sol de quase dezembro.

“Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não…”

Essa coisa de cores e amores é muito, muito hippie. Assim como a noção de que liberdade é andar nu por aí, ao vento. Mas nada é mais tonto do que a idéia de ir simplesmente porque não há um motivo contrário. Isso me lembra uma velha definição sobre a diferença entre inteligência e sabedoria: uma pessoa inteligente sabe como fazer algo, mas é sabedoria é que diz o porquê de fazer. Não é só porque eu posso chutar cachorros por aí que vou fazer isso. Por que andar nu seria diferente?

“Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou…”

Gente burra e/ou pobre não casa? Preconceito puro e simples.

“Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou…”

Aí ofendeu. Eu tomo uma coca-cola, mas nem por isso deixo de pensar em casamento. E fica parecendo que quem quer casar só bebe guaraná. Ou Fanta, sei lá. Se for fanta (e uva), faz sentido buscar consolo em uma canção qualquer.

“Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil…”

Se você está nu, não faz sentido carregar um livro. E um fuzil, só e você estiver no “Predador” ou em algum filme de Chuck Norris. Só não aceito essa história de sem fome – para sair correndo por aí, nu, sob o sol escaldante, algo ele fumou. E aí vem larica. Sem telefone tudo bem, não havia celular naquela época. E mesmo se tivesse, ele ia colocar aonde?

“Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou…”

Que sol, rapaz? Ele se dividiu em um monte de porcarias e na Brigitte Bardot. Já a parte da moça casamenteira não saber que ele já quis cantar na televisão faz sentido. Não existiam muitos homens (na concepção biológica da coisa) que quisessem estar na televisão naquela época. Ou que achassem qualquer tipo de sol bonito.

“Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou…”

Como sabemos, ele não leva lenço ou documento porque está nu. E estando nu, não há nada nos bolsos porque não há bolso (a despeito do que diria o Ultraje a Rigor). E não dá para ser completamente livre carregando algo nas mãos. Pelo menos na concepção do nudista baiano.

“Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…”

Bem, eu diria que não porque… não. Porque não há motivo. Porque não há vantagem. Porque é inútil. Porque o mundo não é uma praia da Bahia, as pessoas precisam enfrentar a ditadura. E de uma forma séria, não sentados imaginando um mundo melhor ao som de uma baladinha qualquer. Lugar de sonho é na padaria.

Uma última coisa: ter a imagem de Caetano Veloso correndo nu em uma praia baiana, com as semi-longas madeixas esvoaçantes sem nada nas mãos pensando na Brigitte Bardot está bem longe de “alegria, alegria”. Está mais para Apocalypse Now: o horror, o horror.

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2 Comentários

Arquivado em Troféu Tristan Tzara

2 Respostas para “Troféu Tristan Tzara de Composição: O horror, o horror

  1. E eu nunca reparei o tanto que a letra dessa música é grande…. Vai ver que é porque sempre prestei atenção só na primeira estrofe, e imaginava que o resto fosse repetição da primeira….

    Lennon disse que quando conheceu a Brigitte Bardot nenhum dos dois impressionou o outro: ‘Eu estava numa viagem de ácido e ela estava de saída’…

    Pensando nela, e na música… Saída, imaginei aquelas tanguinhas que a mulherada usa para ficar semi-nú na psicina, praia, etc…. XD

    (voltando a ativa??)

  2. Eu já ouvi um boato de que Sem…

    Lenço
    Sem
    Documento

    era uma metáfora, como Lucy in the Sky with Diamonds.

    Talvez isso explique toda a “Tzarice” da letra.

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