Eugênio

O meu novo herói se chama Eugênio. É ele o acusado por algumas crianças de uma escola de Brasília de ser o responsável por uma traquinagem daquelas: pulverizou algumas frutas de uma planta conhecida como rabo-de-peixe, que provoca irritação na pele e coceira. Um pó de mico natural. Jogou em um colega de escola, motivado sabe lá porque, e do garoto aquilo se espalhou pelo colégio inteiro. Deu choradeira, polícia, bombeiro e Jornal Nacional.

Não conheço Eugênio pessoalmente, mas o imagino o capeta em forma de criança. Daquelas que só faltam ter como hábito o clichê de amarrar latas no rabo de um gato. Eugênio deve ser ruivo, para que falem que o cabelo cor-de-fogo mostra a mente criminosa dele funcionando. Eugênio tem mais transferências na ficha escolar do que o Maluf tem contas no exterior.

Ele é meu herói porque mostra que ainda existem crianças que “pintam o sete” na vida real. Que não se restringem a aprontar pela internet, aplicando pegadinhas virtuais em seus amigos ou mandando um vírus digital para um primo. Ele teve o conhecimento necessário para saber que uma certa fruta comum nos jardins da cidade pode fazer qualquer um se coçar como se tivesse alergia a oxigênio. E esse tipo de conhecimento não se adquire no Google: é coisa ensinada pelos antigos, que faziam guerras de mamona no interior. Eugênio certamente ouve fascinado as histórias de seu avô, que até hoje tem cicatrizes de guerras com feijões, canos e bexigas.

Vivemos em uma era em que, se estivesse nos Estados Unidos, Eugênio seria acusado de terrorismo. Com o agravante de utilizar arma biológica. E tudo o que ele fez foi aprontar, como uma criança normal. Como as crianças faziam antigamente, e hoje cresceram para serem adultos chatos, satisfeitos com seus filhos trancados nos quartos cercados de parafernálias tecnológicas.

O mundo não precisa de mais dinheiro ou contenção de gastos para passar por essa crise. Precisa é de mais Eugênios, gênios da poesia moderna cotidiana, jogando pó de mico natural em banqueiros travessos.

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4 Comentários

Arquivado em Crônicas do Opinioso

4 Respostas para “Eugênio

  1. Hahaha

    Sinceramente eu também achava que as crianças de hoje eram muito diferentes das da minha época…. Mas sabe, trabalhando em colégio percebo que a diferença é muito pouca, o que mudou foram os pais… Eles não moram em casa com grandes quintais, não tem tempo de levar o filho num clube, e nem $$ para ter uma chácara….

    Mas as crianças…. Continuam correndo de um lado para o outro. Brincando de pique-pega, caindo, se machucando, brigando…. Brincando de super-heróis… Cantando as mesmas músicas de minha infância….

    Talvez, então, a diferença esteja na nossa infância… A gente mudou o aspecto infantil…. Nossos pais subiam em árvores, soltavam pipa, nadavam em rio, corriam atrás de galinhas…

    Já nós, fomos criados com Cavaleiros do zodíaco, Caverna do dragão, super nintendo, a maioria cresceu no tapete da casa da vó! Aposto que nossos pais também queríamos que fossemos mais Eugênios….

    Mas não há mais espaço (físico mesmo) para muitos Eugênios…. E o que sobram são os Meninos Maluquinhos, que “restringem” a imaginação para aprontar…. Não que um seja melhor que o outro…. Apenas diferentes…..

  2. excelente crônica! posso te linkar?

  3. Isso me lembrou na hora daquela música d’Os Incríveis: Capeta em forma de Guri.

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