A Cartilagem Primordial

A vida noturna revela algumas surpresas para quem não é um habitué. Certa vez, em um pub, flertes e xavecos (quem ainda fala xaveco, meu Deus?) rolando soltos, uma moça pediu a um amigo que ele me comunicasse a admiração dela pelo meu… nariz. Segundo ela, o meu nariz era o mais bonito que ela já havia visto. E eu, que nunca tinha percebido esse detalhe, resolvi prestar mais atenção, cuidar mais do meu nariz. Aparentemente ele era meu charme, meu ponto de atenção. Alguns têm um peitoral avantajado, outros uma roupa de marca. Eu tenho o meu nariz. Voltei para casa sozinho aquele dia (infelizmente não rolou, o nariz dela estava um nível abaixo do meu), mas com uma nova percepção da vida.

A primeia dúvida que surgiu foi: e se eu tiver outras partes igualmente atrativas, mas negligenciadas? Minha bochecha, por exemplo. Eu poderia ter uma bochecha atraente. Não necessariamente aquela coisa rósea de Papai Noel da Coca-Cola, mas igualmente chamativa. Eu sei que ela fofinha, pelo menos. Também poderia ter um lóbulo da orelha que se destacasse. Não dizem que a orelha é uma zona erógina? Talvez o meu lóbulo fosse um atributo aproveitável para a paquera. As sobrancelhas naturalmente separadas sempre foram notadas, mas o resto…

A outra consequência foi a percepção de que muitas vezes também negligenciamos nos outros esses pequenos elementos que formam a gestalt, o pacote completo. Quantas vezes não deixamos de notar um belo queixo, ou as moças (não o Ronaldo) deixaram de notar o pomo-de-adão estrategicamente posicionado? Não é o caso, por exemplo, da covinha, alvo habitual junto com cabelo, peitos, coxas e bumbum. Covinha é o bônus dos anjos, que dá às moçoilas a devida aparência de ingenuidade e inocência tentadoras.

Dando mais atenção a esses elementos, percebi o que me atraiu em uma menina certa vez. Eu sabia que ela era bonita, mas tinha algo diferente. Foi quando eu vi: ela tinha, assim como eu, um nariz especial. Digno da imortal Narizinho, de Monteiro Lobato. Era como se fosse, não sei, uma pequena jujuba (porque uma jujuba, meu Deus?), moldada por mãos divinas naquele rosto. As proporções estavam corretas, as narinas nem muito pequenas e nem muito largas, a pontinha adequadamente levantada (o que não deve durar toda a vida, infelizmente).

Era um belo exemplar de nariz, e reconhecer isso é uma arte. Só é preciso sempre tomar cuidado para não virar uma obsessão. Eu, por exemplo, virei uma espécie de narizaholic, sempre procurando aquilo que acostumei chamar de a Cartilagem Primordial, o nariz perfeito, profetizado pelos antigos. Pois está escrito em pedra que ele seria único, e tão belo que não vai inspirar ar, mas poetas. E estes poetas escreverão odes em sua homenagem, com menções a suas narinas como buracos negros que sugam as almas dos incautos que por ele se apaixonarem.

Ou isso ou aquela moça no pub simplesmente era muito ruim no xaveco.

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “A Cartilagem Primordial

  1. Há quem diz que o nariz da Nicole Kidman é o ápice da beleza nasal.

    Eu gosto de pés, não para chupá-los ou beijá-los… mas apenas gosto de perceber se um pé é bem feito ou não.

    O meu por exemplo não é…

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