Troféu Tristan Tzara de Composição: O Zé, o pó e o Jafar

Tem gente que eu preferia nem trazer a esse espaço. Por vários motivos. Alguns, eu prefiro presumir que são iluminados demais, muito além da inteligência terrena em que fui criado. É o caso, por exemplo, da Elba Ramalho, que já afirmou ter tido contato com criaturas extra-terrenas. Lamentavelmente não eram daqueles ETs que gostam de abduzir humanos e levá-los para seus planetas. Sabe como é, não se fazem mais alienígenas como antigamente.

Em outros casos eu preferia não trazer alguns compositores devido às suas extremas habilidades dadaístas de composição. Pense o prezado leitor no Oscar: seriam aqueles astros que estão sempre sendo lembrados pelo talento, mas nunca foram completados. Acabam recebendo (normalmente após a morte) um prêmio honorário, em homenagem ao conjunto da obra.

É o nosso caso de hoje. Ele ainda não morreu, mas pela sua extensa composição non-sense merece um espaço para sempre em nossos corações adoradores da falta de lógica. Com vocês, José Ramalho Neto, o Zé Ramalho,  e sua ultra-famosa “Chão de Giz”.

“Eu desço dessa solidão
Espalho coisas sobre
Um chão de giz
Há meros devaneios tolos
A me torturar
Fotografias recortadas
Em jornais de folhas
Amiúde!
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes…”

A música começa com a constante solidão. É o tipo de coisa que me motiva a tentar manter meus amigos sempre por perto. Solidão enlouquece. Solidão mata. Solidão faz a gente compor insanidades. E ganhar dinheiro com isso. Deve ser por isso que ele desceu da solidão e espalhou coisas sobre um chão de giz. O que ele não conta é que  o tal giz não é exatamente giz. Está mais para “giz”. Ou “talco”. Ou qualquer nome que disfarçe bem o pó branco mais famoso até o surgimento do antraz. Sim, estamos falando da madrasta cocaína, que dominou os loucos anos 80. Quando se é solitário, é ela que te faz descer. E subir. E descer. Até o chão.

A bem da verdade, não é seguro deixar alguém louco de pó carregar um tesoura. Principalmente se ele estiver paranóico, vendo torturadores até em fotografias de jornais. Também não é legal deixar com um pano de guardar confetes, o que quer que seja isso.

“Disparo balas de canhão
É inútil, pois existe
Um grão-vizir
Há tantas violetas velhas
Sem um colibri
Queria usar quem sabe
Uma camisa de força
Ou de vênus
Mas não vou gozar de nós
Apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom…”

Não sei como funciona um grão-vizir, mas me espanta que eles sejam suficientes para desprezar balas de canhão. Talvez se forem como o Jafar, o vizir mal do Aladin. Aí tudo bem, porque tem magia e tudo mais. Mas de resto, essa estrofe inteira não chega nem perto de fazer sentido. Nem perto! É como se não tivesse existido em momento alguma a intenção de interligar as frases. Eu não sabia que colibris queriam violetas velhas (fetiche bizarro número um), não estou preocupado no interesse dele de usar uma camisa de vênus (apesar de compreender o interesse do dito cujo por uma camisa de força) e muito menos na adoração a cigarros (fetiche bizarro número dois). Fora o momento avareza: ninguém condena alguém que se nega a gastar batom com outra pessoa, mas nunca para no primeiro cigarro.

“Agora pego um caminhão
Na lona vou a nocaute outra vez
Pra sempre fui acorrentado
No seu calcanhar
Meus vinte anos de “boy”
That’s over, baby!
Freud explica…”

Não, não explica. Nada explica. Nem Freud, que provavelmente entenderia a perversão com cigarros. De qualquer forma, pensemos brevemente na cronologia dessa estrofe. Nosso herói, doidão de pó, resolve pegar aquela carona bacana. Sabemos que ele está paranóico, o que provavelmente explica a briga na boléia e o nocaute na lona da caçamba. Ele é acorrentado, e aí “that’s over, baby” para os anos de “boy”. No inglês cru, boy é garoto, menino, homem em última escala. Ele foi acorrentado por um caminhoneiro chucro, e depois acabaram seus anos de homem. É, talvez Freud, o psiquiatra super-sexuado, explique o praticamente óbvio.

“Não vou me sujar
Fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom
Quanto ao pano dos confetes
Já passou meu carnaval
E isso explica porque o sexo
É assunto popular…”

É a volta do muquirana. Que não quer envolver nem o pano dos confetes agora. Também é o momento de uma das frases mais sem sentido da música (o que não é pouca coisa). Porque normalmente quando usamos a expressão “e isso explica”, presume-se que todo o conteúdo anterior formará uma razão lógica para o que se segue. Não é o que acontece. Um conjunto de afirmações ilógicas de um velho hippie não explicam porque o sexo é um assunto popular.

Sexo está na boca (e nas mãos) do povo porque é bom, porque o brasileiro é pervertido, porque Freud explica, algo nesse sentido. Nada parecido com tudo o que diz alguém que podia ter seguido a parente de mesmo sobrenome rumo às estrelas.

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1 comentário

Arquivado em Troféu Tristan Tzara

Uma resposta para “Troféu Tristan Tzara de Composição: O Zé, o pó e o Jafar

  1. Na verdade eu acho que aquele “Pano de confetes” é uma cartelinha de doces, ácido, papelzinho, entende? E outra coisa, se o cara é “boy”, por que diabos ele usa batom? Deve ter sido depois da experiência com o caminhoneiro, que o desvirtuou e deixou loucão assim.

    Malditos anos 80.

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