Marcelinho, o Opinioso, comenta: Inércia

Qualquer sociólogo de meia-tigela já percebeu que o Brasil é um país de dissimulados. Parece clichê, mas faz parte da personalidade tupiniquim uma versão psicológica daquele drible, de olhar para um lado e tocar para o outro. Não é que sejamos deliberadamente falsos – apenas gostamos de dar um certo tom de mistério a nossos pensamentos, muitas vezes falando algo só porque sabemos que vai agradar alguém. Ou desagradar alguém.

Um exemplo claro disso para mim são pessoas que se auto-proclamam de determinadas religões, mas que não agem de acordo com os ensinamentos que recebem. Somos o país dos credos por inércia, de pessoas que nasceram em famílias católicas, evangélicas ou espíritas e continuam seguindo a igreja por comodidade ou mesmo por pura preguiça de mudar. É a minha teoria para auto-proclamados católicos, por exemplo, discordarem da orientação da Igreja em questões como o uso de preservativos, divórcio e casamentos de indivíduos do mesmo sexo.

Um desses pontos polêmicos é o aborto, trazido novamente à baila com o episódio recente da excomunhão dos envolvidos com a interrupção da gravidez de uma garota de nove anos estuprada pelo padrasto em Pernambuco. Como sempre nessas questões polêmicas, rancor e ranger de dentes dominaram a opinião pública quando o arcebispo local, depois de expulsar a mãe da criança e os médicos da igreja, afirmou que o aborto fora mais grave do que o estupro.

Antes de mais nada, meu ponto: não questiono, em momento algum, a atitude do arcebispo. Seria racionalizar uma discussão que é qualquer coisa menos racional. Para a autoridade religiosa, o ato provocado na menina era pior do que o ato do padrasto, e não cabe a mim, um leigo em direito canônico, julgar a correção da decisão eclesiástica.Principalmente do ponto de vista do peso dos acontecimentos diante dos olhos de Deus.

Por isso minha estranheza e, em certa escala, irritação, diante da politização da questão, que chegou até ao presidente da República. Temos (felizmente) um Estado laico, razoavelmente separado do controle religioso. Até do ponto de vista informal nosso governo é menos influenciado se comparado, por exemplo, ao americano. Ainda temos alguns focos de resistência no Legislativo, é claro, mas são compreensíveis diante do peso da religiosidade na formação do brasileiro.

Excomunhão não é sentença judicial. Não tem recurso, não tem transitado em julgado. E, para feitos seculares, não tem pena. Para um ateu, por exemplo, ser excomungado não significa nada. Então, porque a revolta? Se a mãe da menina e os médicos são católicos, deveriam respeitar os valores da religião que seguem. Se não concordam, não deveriam seguir o catolicismo, o que transforma a excomunhão em praticamente um favor. E é isso, sem televisão, sem julgamentos em praça pública. Religião como questão de foro íntimo, e respeito às opções individuais.

Nada de bom vem de secularizar questões dogmáticas. Quando a religião domina a política, a radicalização moralista é um caminho possível, e aparecem as condições para o surgimento de coisas como a Inquisição. Por outro lado, o Estado completamente laico, que impeça qualquer nesga de influência religiosa em seus quadros, ganha o cinismo e a sisudez típica dos céticos, em um radicalismo que pode ser igualmente ruim.

Reforço: como ser humano, discordo plenamente do arcebispo: o aborto foi fundamental para a sobrevivência da garota, e nada justificaria a continuidade de uma gravidez de risco, ainda mais se levarmos em conta a origem do feto. Também não concordo que o ato tenha sido mais grave do que o estupro, um crime que indica claramente a patologia do padrasto. Isso não me impede, no entanto, de manter a neutralidade necessária diante da decisão católica – qualquer postura diferente da Igreja seria hipocrisia.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em O Opinioso comenta

2 Respostas para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: Inércia

  1. Antigamente quando se era excomungado, era como se fosse lançado abaixo da fossa da merda. Hoje ninguém nem comunga mais para ser excomungado. Acho que o Lula falou merda em tomar partido do acontecido. Igreja hoje em dia é igual aquele parente chato, você convive por que é necessário, mas sempre que pode o ignora e finge que nem o viu.

    Hail Satan!

  2. Mari

    Acho que a Igreja Católica encontra-se hoje em uma crise enorme. Não vejo como expulsar da igreja a mãe e os médicos que salvaram a vida dessa menina, e não falo só de morte física, falo de morte emocional, e ao mesmo tempo não expulsa o padrasto que praticou o crime que deveria ser considerado horrendo e inafiançavel. Não entendo também, como a igreja hoje pula tanto a favor da vida, quando a própria matou centenas de inocentes na inquisição, e nenhum da época foi expulso da Igreja (Até onde eu sei). Não entendo tampouco, como a igreja não cria essa polêmica toda, quando os seus sacerdotes são acusados de violentarem menores, de abusarem impunemente de crianças. Nessas horas a igreja se cala. Não entendo porque a Igreja pode julgar e condenar assim, sem se preocupar com o estado emocional dessa criança. Como ser humano também aprovo e aplaudo a atitude desses médicos e dessa mãe.
    E tenho certeza de que isso me fez ter mais fé na humanidade!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s