Troféu Tristan Tzara de Composição: Da arte de distorcer

Eles são barbudos. Eles são esquisitos. Eles acham que são poetas. Eles mal conseguiram manter uma bandinha mixuruca de pé. Ainda assim, o ex-grupo do “pedófilo” levou milhares de fãs “excêntricos” ao delírio com proezas musicais equivalentes a um tiro no ouvido. Sim, meus caros leitores, eu estou falando (e mal) de Los Hermanos. Ou melhor, como bem definiu uma galera do orkut, “Loser Manos”.

A banda até começou bem, emplacando “Anna Julia”, aquele hit meloso que incendiou corações. Eles, que se clama independentes, sucumbiram à regra mais básica do mainstream brasileiro: música com nome de mulher faz sucesso. Já tivemos “Camila, Camila” (Nenhum de Nós), a desinência “Mila” (Netinho), “Carla” (LS Jack), “Janaína” (Biquní Cavadão), “Renata” (Latino), “Sandra Rosa Madalena” (Sidney Magal) e, eu acho, “Inaraí”, do Katinguelê, mas essa última não tenho certeza se era nome de mulher. Já o Los Hermanos, sozinho, emplacou duas além do único sucesso decente da banda: “Aline” e “Lisbela”. Um belo protesto contra o mainstream opressor.

É por esse tipo de comportamento que, de certa forma, até entendo a lógica por trás de “O Vencedor”, música tema de nossa seção dessa vez. Comecemos.

“Olha lá quem vem do lado oposto
E vem sem gosto de viver
Olha lá que os bravos são escravos
Sãos e salvos de sofrer”

Faz sentido? Talvez dividindo. A única coisa que me lembra “o lado oposto” é aquela piada do porquê a galinha atravessar a rua. Se eu fosse uma galinha, também viria do lado oposto sem gosto de viver. Ainda mais depois de ouvir tantas vezes a piadinha. Já a segunda parte não significa absolutamente nada, nem dividindo, nem com boa vontade. Se os bravos são escravos, eles estão exatamente na situação oposta a sãos e salvos de sofrer.

“Olha lá quem acha que perder
É ser menor na vida
Olha lá quem sempre quer vitória
E perde a glória de chorar”

Que glória há em chorar? Não vou nem defender aquela coisa de pai antigo, que briga com o filho chorão. Só não vejo sentido em gostar da derrota e valorizar. “Não ganhamos o campeonato, ficamos só com a medalha de prata, mas está ótimo, é isso mesmo que a gente queria. Ganhar não estava nos planos. Você tem um lenço de papel aí?” Esse tipo de gente me chamaria de competitivo. Eu prefiro que classifiquem meu gosto pela vitória de bom senso.

“Eu que já não quero mais ser um vencedor,
Levo a vida devagar pra não faltar amor”

Como é mesmo o nome de disso? Conveniência? Essa música podia se chamar “A Raposa e as Uvas”. Coisa de criança mesmo, quando depois da derrota, ainda com o bico armado, declaramos “Eu não queria ganhar mesmo”. Nada como uma derrota para deixar todo mundo menos ambicioso. E isso não tem nada a ver com o amor. Não na nossa sociedade contemporânea, de celebridades instantâneas, que conseguem amor facilmente após o sucesso de suas músicas com nomes de mulher.

“Olha você e diz que não
Vive a esconder o coração.”

Não, eu não vivo a esconder o coração. Podemos seguir adiante?

“Não faz isso, amigo
Já se sabe que você
Só procura abrigo
Mas não deixa ninguém ver
Por que será?”

Por que alguém procura abrigo? Por que está em perigo, normalmente. Se estou em perigo, faz sentido eu querer me esconder, certo? E o “Não faz isso” leva a crer que em algum momento antes eles falaram de algo. Que eles não falaram. Se alguém pega a música nessa parte, não vai entender lhufas. Não que ter lido desde o começo torne as coisas muito diferentes.

“Eu que já não sou assim
Muito de ganhar
Junto às mãos ao meu redor
Faço o melhor que sou capaz
Só pra viver em paz”

Lá vem o conveniente de novo. “Sabe como é, eu não sou muito de ganhar. Não é tão legal quanto parece. Snif”. E esse negócio de juntar as mãos ao redor, fazer o melhor que se é capaz para viver em paz… Não sei não, mas soa a simpatia indígena barata. Um círculo de proteção mágica contra homens brancos ou algo do gênero. Ou bobagem hippie, como seria de se esperar dos barbudos mais perdedores e adoradores da derrota na história recente da música brasileira.

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2 Comentários

Arquivado em Troféu Tristan Tzara

2 Respostas para “Troféu Tristan Tzara de Composição: Da arte de distorcer

  1. Se não fosse por Anna Julia, eles não cairiam no mainstream, logo, os indies não os conheceriam (pq indie que é indie assiste MTV). E eu acho que o nome da moça do Katinguelê é só Inara, o título se refere à garota que todo mundo passa a mão, então quando ela ta no recinto a galera já diz, “olha a Inara aí, olha Inaraí.”, que por sinal renderia um troféu a eles também (Inara é o mar por onde quero navegar?! WTF?!).

    Mas voltando ao grupo que desde seu nascimento já queria ser linchado, se entitulando Hermanos (coisa de argentino).

    1a. Os bravos estão são e salvos por que não sao mais escravos, pois são bravos, entendeu? Eles fugiram, ou algo assim.

    2a. O importante é competir. E a situação deles é assim tipo do ACG, como só ganha, fica sem graça comemorar, não teve uma briga ferrenha para no final falar “Lutei, foi dificil, mas ganhei…”

    3a. Síndromes de atores que caem no esquecimento, tipo, ganhei uns 5 oscars, cansei de atuar, vou comprar uma fazenda e criar abelhas.

    4a. Vive, sabemos que sim. Já o Marcelo Camelo não, assumiu que curte uma loli, ainda mais aquelas com Pedobear Seal of Approval. Quem somos nós para recriminar?

    5a. Diferente dum amigo nosso que agora é figura pública e não pode ser mencionado em episódios como esse, mas que na sua época áurea bradava aos 7 ventos que era frequentador de puteiro, algumas pessoas não deixam ninguém saber.

    6a. O ato de juntar as mãos ao redor traduz-se em, vou abrir as mãos aqui onde estão distribuíndo balinha, o que cair na minha mão é lucro.

    Como pode ver, não há nada nessa obra-prima da poesia contemporânea brasileira que não pode ser destrinchado em lindos versos de amor.

  2. reinodalira

    VIDA ETERNA AOS GRANDES MESTRES DO DADAÍSMO!!!(http://baixoreinodalira.wordpress.com)

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