Um soneto começo em vosso gabo

Sempre que me sinto pouco inspirado, como hoje, recordo-me daquele que sem dúvida foi o escritor mais impressionante da literatura brasileira: o poeta barroco e baiano (vai entender…) Gregório de Mat(t)os. Quem me conhece sabe de minha adoração pela prosa, de modo que tal revelação torna-se ainda mais surpreendente. Bobagem. Não é nenhuma habilidade nas rimas ou na expressão de sentimentos que me impressiona no homem que ficou conhecido como “Boca do Inferno”, mas a qualidade de sua sátira. Em seus gracejos uniformes, em sua pouca preocupação com pegar pesado ou o politicamente correto, que naquela época não valia pouco. Obstáculos que às vezes me seguram, e me fazer sentir, no máximo, um “Boca do Limbo”. Com alguma boa bontade, um “Boca do Purgatório”, mas ainda assim distante.

À época em que estudei a vida do poeta, o texto que mais me atraiu foi um soneto assim chamado (só “Soneto” mesmo), que começava com a frase que nomeia este texto. Naquela época, era comum que homens ricos pagassem a poetas famosos localmente para que fossem escritos textos que os elogiassem. Não sei como cresceu na vida o fidalgo que pediu a Gregório de Mat(t)os um texto em sua homenagem, mas tenho certeza de que não foi baseado em seu intelecto. O que ele esperava? É como se pedir que um Chico Anysio não faça humor de alguém. Ou a um argentino que seja humilde, ao Robinho que não drible. É claro que o Boca do Inferno, como Robinho, não perdoou.

É, de fato, um soneto. Atende a todas as regras que prendem a mais livre das expressões: doze versos, decassílabos, rimas alternadas. Bobito e previsível como manda a lei. Mas nada diz. Simplesmente relata os procedimentos padrões da escrita de um soneto, faz uma pequena zombaria do homem que o requisitou e encerra. É só isso, mesmo, mas ainda assim soa a mim, sempre que o leio, como uma obra-prima. Sei que Mat(t)os tem outras tantas obras de igual qualidade, mas “Soneto” marcou-me pelo resto da vida, a ponto de às vezes assaltar meus pensamentos na madrugada.

Pergunta agora o persistente leitor que até aqui chegou porque esse texto me vem à mente quando falta a inspiração. Simples: ele é para mim a prova de que o esforço por um texto satírico para zombar alguém sem nenhum objetivo maior vale a pena. De que a simples vontade de ridicularizar aquilo que é naturalmente ridículo, de reforçar o caráter bizarro daquilo diante das pessoas vale o trabalho. Que a futilidade é válida na literatura, e que até o texto que parece uma enrolação pode ter um significado maior. Talvez pense logo o leitor que todo este texto tenha sido de alguma forma semelhante. Não nego a intenção, mas não é o caso. Comparado ao poeta, nenhum esforço me levará além de um mero Boca do Purgatório.

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “Um soneto começo em vosso gabo

  1. Podia ter colocado o Soneto aqui né infeliz, para que não o precisasse Gogglear.

    De fato o Soneto não diz nada com nada, e se não soubesse o histórico por trás de seu feito, diria que era apenas um bem feito bonitinho.

    É a situação que o faz genial.

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