Anônimos

Um dos maiores orgulhos brasileiros é o chulé. Não que gostemos de ter pés fedidos, com aquelas nuvenzinhas que saem das meias nos desenhos. Quer dizer, alguns gostam, mas não vou discutir fetiches aqui. Refiro-me à palavra chulé, que adquiriu fama quando alguém reconheceu que não existe equivalente ao chulé nos Estados Unidos, por exemplo, ou na Alemanha (desconfio que haja na França). Lá, se você quer falar que alguém carrega ovos podres no sapato, precisa de pelo menos duas ou três palavras para isso. Aqui não. Chulé é fruto da inventividade, da criatividade, da originalidade do brasileiro. E do calor tropical também, é claro.

Saudade é outra palavra alegadamente brasileira. Não existe por aí um correspondente à altura do sentimento de perda que não é perda, de espera que às vezes não chega. A saudade é exclusiva da poesia brasileira, apesar de não ser única. Italianos sentem saudade, espanhóis sentem saudade. Suíços não, mas suíços são exceções em quase tudo. Não interessa quem for, se não for de terras tupiniquins vai precisar de toda uma frase para falar “sentimento que se tem em relação a pessoa querida há muito tempo ida”. Nós não. Talvez por isso banalizemos tanto a saudade. Falamos de saudade como se falássemos de futebol. Brasileiro sente saudade de tudo, da mãe morta a um boné roubado na infância. .

Não me espanta que os estrangeiros tenham tanto problemas em entender o português. Não falo nem da dificuldade em compreender gêneros, que torna “a carro” e “o menina” onipresentes em piadas que incluem imitações de gringo. Falo é do nosso vocabulário mesmo, extenso e complexo. Desconfio que a maioria dos brasileiros nunca chegue a usar mais do que quarenta por cento de todas as palavras existentes na língua portuguesa. Demorei anos para descobrir o que é ignaro, e depois que descobri continuo sem usar, mas foi minha referência para imaginar quanta coisa existe por aí das quais eu não faça a menor idéia. Não estou criticando a estrutura lexical, pelo contrário. Tenho orgulho de dizer que, ao contrário da “underwear” inglesa, por aqui temos a masculina e até meio asquerosa “cueca”, em oposição direta à feminina e suave “calcinha”. O problema é que tanta opção às vezes rebaixa quem usa sempre as mesmas, e a língua não foi feita para humilhar ninguém.

Talvez por isso eu seja tão revoltado com o fato de os dedos do pé não terem nomes. Não tem. Na mão sobram: indicador é fura-bolo, mínimo é mindinho. Existe até o anular, que desconfio ser derivado direto do latim. Os dedos do pé não. São anônimos, desconhecidos. Um dedo do pé amputado e abandonado pela rua provavelmente seria enterrado em uma cova rasa, como um indigente. A única honrosa exceção é o dedão, corruptela improvisada de um dos nomes do polegar. Como diabos conseguimos, em uma língua que se preocupou até em como nomear o fedor dos pés, esquecer seus dedos? Como ignorar os oito responsáveis por não termos redondos pés de elefante?

Se um dia morar na Europa, não sentirei saudade dessa vergonha nacional.

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “Anônimos

  1. Na verdade o dedão do pé se chama Halux… o resto não tem nome mesmo.

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