Verde, amarelo, azul e branco

Por muito, muito tempo (ou pelo menos desde que eu me lembre) ouvi ufanistas, falsos e verdadeiros, bradarem contra os símbolos adquiridos pelo Brasil no exterior. Não estou falando do infantil conjunto matas-riqueza-águas-paz, sobre o qual cansei de ouvir na minha época de escola como os motivos para as cores da nossa bandeira. Aliás, faço um parêntese, a revelia de tratar-se aqui do primeiro parágrafo: se fôssemos pensar nestes elementos como origens para os matizes de nossa bandeira, deveríamos procurar as fictícias cores que representem o fogo das queimadas e a miséria, para que possam se juntar ao preto da poluição e ao vermelho de nossas guerras urbanas. Isto posto, finalizo meu parêntese e volto ao texto.

Falava eu do que lembra o Brasil ao nosso caro turista estrangeiro, aqui carinhosamente tachado de gringo ou alemão, independentemente de sua cor de pele ou país de origem. A despeito de toda a propaganda negativa gratuita feita pelos jornais internacionais, ano após ano pisam em nossas praias milhares e milhares de… vá lá, gringos. Segundo os patriotas de boteco, atrás da tríade futebol-carnaval-mulher. Também conhecida em outras versões: Ronaldinho-samba-mulata, Ronaldo-funk-popozuda ou, mais recentemente, Ronaldo-Copacabana-travestis. Mas isso são apenas conjecturas.

O fato é que, pelo menos para mim, um pobre nativo que mal pisou em uma praia, esse conjunto de elementos representa não o Brasil, mas o Rio de Janeiro. Pergunte a um curitibano sobre o carnaval, ou a um acreano sobre futebol, e será fácil ver que não sou só eu que não me sinto representado. Tudo bem, posso ter exagerado com o acreano, povo sobre o qual não sei muito mais do que li em livros e assisti no Arquivo X. O que não invalida meu argumento: até mesmo o paulista, que timidamente tenta incorporar o funk e o Carnaval ao seu tradicional trabalho-trabalho-engarrafamento deve queixar-se de ser lembrado lá fora como o bronzeado malandro dos morros fluminenses. Logo ele, que só pega sol na Marginal Pinheiros enquanto o trânsito não anda.

Proponho, por isso, uma revolução. Que nossas propagandas oficiais, e nossa imprensa (quase oficial) juntem-se a uma campanha por verdadeiros símbolos que representem a nação. Não mais o turismo sexual, ritmado e esportivo, mas o turismo aventureiro dos tiroteios, a viagem para ver o espetáculo de nossos escândalos políticos e a visita histórica àqueles que já foram os nossos recursos naturais. Porque patriotismo não é só a lembraça ufanista dos nossos valores, mas o reconhecimento do espírito brasileiro nas nossas tragédias diárias. E se é para ser patriótico, por que não ganhar um dinheirinho com isso?

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “Verde, amarelo, azul e branco

  1. Por R$60 vc faz um “Favela Tour” guiado pela Rocinha. A noite rola “Funk Party” por mais uns R$40 e todo fds tem ensaio de escola de samba por mais uns R$50.

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