Abaddon de Sousa

Poucas coisas me intrigam tanto quanto o ato de dar um nome a um filho. Ainda não estou nem próximo desse momento, pelo menos espero, mas já sinto a agonia, a pressão, a responsabilidade do ato futuro. Um dia terei meu próprio rebento, e terei de escolher como ele será conhecido pelo mundo, pelos familiares e pelos coleguinhas de escola. E incomoda um pouco saber que não entendo um décimo da metodologia necessária para esse momento solene. Talvez recorra a um daqueles onipresentes livros gigantescos com sugestões.

Não sei muita coisa, mas sei que algumas não fazem sentido algum. Volta e meia vejo, por exemplo, alguém que olha para um amigo e fala: “Você não tem cara de Diogo. Você tem cara de… Raul”. O que determina de que alguém tem cara? Uma sombrancelha mais espessa, um nariz mais extenso, talvez um bigode de amante latino? Eu mesmo temo por passar por uma situação dessas. E se o critério for a proximidade de alguém famoso com aquela cara? Uma barba mais farta e eu passo a ter cara de Fidel, Marx, Papai Noel? Um bigodinho fino e sou Adolfinho? Como é que eu faço para ter cara de Marcelo?

Existem também os nomes transitivos, ou seja, que exigem complemento. João para homens, Maria e Ana para mulheres. Há muito, muito tempo, não vejo um João sozinho (não um João Sozinho, que deve existir por aí) – é sempre um João Alguma Coisa. Também não conheço muitas Anas “puras”, com o perdão do trocadilho. Ana Teresa, Ana Luisa, até Ana Maria, que resolve dois problemas de uma vez. A questão é que às vezes as pessoas resolvem simplesmente ignorar o pobre coitado do primeiro nome. Quantas Socorros não são Maria do Socorro, quantas das Dores não são Maria das Dores? Deve doer muito mesmo ter um primeiro nome desprezível. Ou no mínimo ignorável.

Também existe a mania do nome de anjo. O que deseja um pai que chama o filho do mais-que-comum Gabriel? Será que ele esquece que as divinas criaturas não tem livre arbítrio algum, nem iniciativa? Sem falar da famosa androginia, a falta de sexo que permite atenção ao serviço, e cala a boca e balança essas asas. Ou a mania de nomes de apóstolos de Cristo. É a crença na força de um nome na vida do indivíduo? Se for, e bom lembrar que a maioria dos doze passou por maus bocados para morrer. Por que não nomes de demônios, famosos ao longo da história? Deixando o fanatismo religioso de lado, um nome forte, como Abaddon, por exemplo, daria ao garoto algum respeito na escola e historinha para novas amizades. Faria o maior sucesso em um inferninho, por exemplo.

Não podemos nos esquecer das homenagens, ah, as homenagens! Bonitas e válidas, claro, desde que os pais saibam escolher o homenageado. O que esperam de dois indivíduos que resolvam chamar o filho de Gengis Khan de Sousa? Ou pior, Genjiscan de Sousa, coisa muito mais comum por essas terras tupiniquins?Lembro que tivemos uma época de adoração à natureza, um movimento neohippie que resultou em alguns Chuva, Sol, Brisa e Nuvem pelo mundo. Que descansem, junto com a Paz.

Mas a última moda agora são mesmo os sufixos. Depois de um período ibérico, de Sebastiãos e Pedros, é o escandinavo “-son” que começa a estrelar em cartórios, sem a mínima preocupação histórica. São Joelsons que não tem um Joel sequer na família, Watsons que nunca sequer ouviram falar de algum Watt. Lá pelas bandas da Noruega, “-son” indica filho, ascendência. Mas o brasileiro, esse povo que criativo, apaixonado e fonético, achou que valia a pena usar de qualquer forma, desde que soasse bonito. Ou não – não dá para entender o que leva alguém a achar que Waliskleysson possa ser bonito, muito menos que o “-son” vá salvar o que vem antes. De qualquer modo, entrei na onda: agora é só esperar que na minha época os eslavos “-ov” já tenham chegado. Marcelov certamente vai impor algum respeito.E se for pouco, coloco um João antes, ou um Abaddon depois.

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “Abaddon de Sousa

  1. Eu sou da época dos compostos.

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