Rotina

Como todos os dias, acordou, beijou a esposa, colocou o terno e saiu para o trabalho. Dirigiu tranquilamente, parou nos engarrafamentos rotineiros, e assobiou algo do Chopin (ou seria Vivaldi?) enquanto ouvia na rádio mais uma notícia sobre como a crise chegara de vez ao país. Ele não estava preocupado, seu trabalho era seguro e estava além dessas oscilações macroeconômicas que faziam os economistas chorarem no ar.

Era um ladrão profissional, mas profissional de fato: um alvo por mês, furtos seguros, nunca mais do que cinco mil reais (não precisava de mais do que isso para sobreviver). A mulher sabia do ofício, e apoiava. O dinheiro era bom, o marido era experiente, e apesar da rotina, estavam conseguindo guardar algum dinheiro para a escola do filho, que acabara de completar um ano de idade.

Estacionou do outro lado da rua, em frente ao alvo daquele mês: uma lavanderia. Sacou o binóculo e, enquanto comia a maçã das nove horas, observou tranquilamente a movimentação, tomando notas. Viu a dona do estabelecimento chegar, sorridente como sempre, cumprimentar o velho dono da banca de revistas e entrar. Anotou o horário, aguardando a ronda padrão das dez, quando uma viatura da polícia passava pelo local. Assim transcorreu o dia, até voltar para casa, por volta das seis da tarde, quando a lavanderia fechou.

No dia seguinte voltou, mas logo no primeiro engarrafamento começou a pensar. Estava cansado daquela rotina. A dona da lavanderia estava sempre com o mesmo sorriso, os policiais passavam sempre à mesma hora, com cara de sono. O procedimento também era sempre o mesmo: observar, anotar, planejar, executar, comemorar. Rápido e seguro. Seguro demais. Como se a emoção daquela vida proibida de crimes tivesse escorrido junto com a água suja da lavanderia pelo esgoto (aliás, a entrada mais fácil e sem vigilância).

Pensou em sua vida pessoal. O filho que viera para tapar o buraco deixado pela rotina no casamento. Antes do garoto nascer, as brigas eram diárias. A mulher reclamando dele ter deixado de lado o romantismo – nunca mais levara para ela uma jóia roubada, um anel de ouro subtraído da mão de alguma madame. A mãe dela, sempre reclamando do genro vagabundo, que tinha de roubar trabalhadores de verdade para viver. E não adiantavam os argumentos que de que sempre pesquisava antes, e eram pessoas com seguro. A cobra cuspia o veneno e saía, reclamando.

Lembrou de um amigo, com quem às vezes bebia uma cerveja no fim-de-semana. Era taquígrafo de uma repartição pública, dessas milhares que se espalham pelo país. Estava sempre com ar cansado, como se tivesse passado horas ouvindo asneiras e mais asneiras. Apesar disso, sempre tinha uma história nova para contar com um sorriso no rosto. Um dia era a secretária que tinha sido vista no almoxarifado com o supervisor, no outro alguém que fora demitido por pedir propina. E o salário era razoável.

Era isso: o que ele precisava era de um emprego público. Para fugir daquela rotina massante, que o matava aos poucos de tédio. Deixaria as eternas correrias e o rádio no ouvido, sempre ligado na frequência da polícia, para trás. Seria um daqueles chatos que diriam “O sistema está fora do ar” assim que começasse o atendimento ao público. Enviaria toneladas de memorando inúteis. E, acima de tudo, frequentaria reuniões e mais reuniões. Para ouvir todo tipo de asneira qu conseguisse dos chefes.

Era uma grande mudança, ele sabia. O salário inclusive seria menor, mas a mulher entenderia. Ela também estava cansada da rotina.

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2 Comentários

Arquivado em Crônicas do Opinioso

2 Respostas para “Rotina

  1. Entrou primeiro pra carreira pública, depois cansou-se da rotina de repartições, e percebeu que sentia falta da rotina de roubos, e percebeu que poderia usufruir da antiga e atual posição trabalhista, e decidiu participar da política…. E assim, ele tornou-se realmente, um ladrão….

    ¬¬´

  2. ahahhaha
    ótimo, ótimo!

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