A Voz do Elevador

Um dia a Lurdinha deu para cantar nos corredores do prédio. O que encheu de espanto os vizinhos, acostumados àquela pessoa fininha e normalmente calada. Não se falava de outra coisa na guarita.

– Você não vai acreditar.

– O que foi?

– Encontrei a dona Lurdinha, do 405, no elevador. Cantando.

– Eu também! Esquisito, né?

– Demais. O que será que ele andou tomando?

Ferreira, o marido, já não sabia onde esconder a cara. Passou a descer do elevador no primeiro andar e seguir o resto pela escada. Até óculos escuros começou a usar, o que provocava problemas com os degraus. Não que se envergonhasse – nunca percebera que a mulher era tão afinada – mas… que diabos tinha acontecido com a Lurdinha? Sempre tão calada, mesmo no dia a dia da casa, de repente deu para aquilo. E sempre que ele perguntava o motivo, ela só respondia:

– Estou feliz, oras? Por que, não pode? Agora isso também é proibido pelo regulamento do condomínio?

E seguia cantarolando alguma coisa do Toquinho. O repertório, aliás, era um capítulo à parte. Às segundas e terças, bossa-nova. Às quartas, samba-canção, com MPB na quinta e algum pagode eventual. Mas o espetáculo mesmo ficava para as sextas, quando ela chegava às músicas internacionais – às vezes, até arriscava um Sinatra ou Elvis Presley! Com uma voz estranhamente próxima e grave.

Depois de um tempo, o Ferreira começou a se preocupar com outro problema: os homens do prédio. Porque a Lurdinha já não só cantava, mas também ensaiava seus passinhos de dança. A primeira vez foi com um tango do Gardel – e meia dúzia de rodopios pelo saguão. Os aplausos do porteiro viraram estímulo – na semana seguinte, a coreografia para Luiz Melodia estava ensaiadinha, e foi feita à risca. A platéia também já era maior: além do porteiro, o seu Osvaldo do 1002 e até o Geraldo, que nem morava no prédio, mas tinha uma lanchonete ao lado e vivia por lá, estavam sentados de prontidão para acompanhar a performance.

O Ferreira resolveu que tinha de dar um fim àquilo. Lembrou dos agora saudosos momentos de timidez da mulher (ela precisou beber duas taças de vinho antes do casamento), e arquitetou um plano. Um dia, durante o tradicional almoço de domingo, fez o anúncio.

– Como todos sabem, a Lurdinha agora resolveu cantar. Por isso, conversei com o síndico e organizamos um show, lá no térreo, para ela.

Todos olharam para a Lurdinha – a timidez era famosa – esperando uma expressão de espanto e vermelhidão. O que viram foi um sorriso e olhos brilhantes, que logo adquiriram um tom um tanto blasé:

– Lurdinha não. De agora em diante sou a senhora Lurdes Ferreira, a Voz do Elevador.

Que aliás, foi o título colocado no pôster. Sucesso total, carreira em ascensão, descoberta na imprensa. O Ferreira acabou pedindo o divórcio – não aguentou o assédio à esposa – mas ela nem ligou. A Voz do Elevador está acima dessas bobagens de gente normal, como casamentos.

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1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “A Voz do Elevador

  1. Eu acho q ela começou a cantar pq tornou-se amante do cara do 1002…

    Ele tinha muita cara de quem não era lá muito ético….

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