Aderbal, o Tal

Chamava-se Aderbal, e não podia ser diferente. Já na escola apresentou-se aos coleguinhas não por um nome, mas por uma alcunha: Aderbal,  o Tal. A primeira reação foi de óbvia estranheza. Era um rapaz de aparência tímida, introvertida até, que não combinava com aquele título. O que provavelmente ajudou para que todos vissem no franzino Aderbal um certo quê de mistério, como se o figurino humilde ocultasse uma riqueza esplendorosa, talvez até uma ilha no mediterrâneo! Aderbal, o Tal, logo ficou famoso na escola.

Se ele tinha coragem para se intitular daquela forma, algo ele tinha de diferente. Aos poucos Aderbal tornou-se o centro da roda, atraindo os olhares femininos e a admiração misturada com inveja dos garotos. Na faculdade, a briga era constante para que Aderbal, o Tal, fizesse parte dos grupos de trabalho, estivesse presente nas festas. Ele mesmo nunca entendia o motivo de tanto desejo pela sua presença, era até um rapaz caseiro, mas como não gostava de reclamar…

Aderbal formou-se, foi o orador da turma – houve aplausos em pé quando o reitor chamou para a tribuna Aderbal, o Tal – e evoluiu na carreira sem muita dificuldade, posto que todos os antigos colegas abriam-lhe as portas. Colaboravam até mesmo as ex-namoradas, que não eram poucas: se tinha algo que ajudava a espalhar o nome do Tal eram sua fama de garanhão, de homem que não se apegava a uma mulher só.

Nem tudo vem sem preço, contudo. Ser o Tal era complicado: exigia noites inteiras de farra, sempre com muita bebida. Aderbal, o Tal, era quieto, até meio calado para quem carregava um título como esse, mas não recusava uma dança ou um drink com um colega. Talvez por isso a cirrose tenha vindo rápida, cobrando cedo seu preço. Morreu novo, com pouco menos de quarenta, quando certamente começaria a se tornar grisalho. Faria bem à imagem do Tal ter madeixas como as de Richard Gere.

O velório foi disputado, um dos mais cheios da cidade. Gente que o conhecia de longa data, gente que bebeu como Tal uma vez só na vida, mas lembrava-se claramente do bom humor e das piadas sempre engraçadíssimas. Todos choravam copiosamente a morte daquele que fora certamente o maior homem que aquela cidade já conhecera. Talvez por isso não tenha sido maior a surpresa quando o padre leu o nome do falecido: Aderbal Otávio Tal, também conhecido como Aderbal O. Tal, e não podia ser diferente.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Crônicas do Opinioso

Uma resposta para “Aderbal, o Tal

  1. Viu o que um nome pode fazer com uma pessoa?! ^^

    Vc deveria escrever mais crônicas tb….

    =*

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s