Marcelinho, o Opinioso, comenta: No Equador é mais forte

Dizem os antigos que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Normalmente essa expressão é usada para convencermos as crianças a serem persistentes, determinadas, e não desistirem diante da primeira dificuldade que surgir. Aquela coisa de moldar a rocha gota após gota. O problema é que nós nos identificamos, e fica muito bonito pensar assim, com a água, com aquela coisa da força do esforço contínuo. Ninguém pensa do lado da coitada da rocha. Nos coloquemos no lugar dela por um minuto.

Imagine uma daquelas formações pontudas de caverna. Nunca lembro qual é a que fica pendurada e qual fica no chão, então vamos chamar a do teto de “ponta pendurada”. Digamos que eu sou uma ponta pendurada (não soou muito legal isso, meio ruim para minha reputação) em uma dessas caverna à beira-mar, que volta e meia aparecem em filmes. Há muito tempo eu era grosso e resistente, mas com água escorrendo o tempo inteiro fui ficando fino e fraco (nota mental: lembrar de não me incluir mais nessas personificações). Talvez eu nem fosse exatamente pontudo antes: podia ser uma espécie de platô invertido, sei lá. Com a água, passei a ser algo perigoso para visitantes da caverna, eventualmente sendo xingado por alguém que passa e se machuca.

Agora pensemos na ponta do chão. Antes de ser daquele jeito, ela provavelmente era uma pequena formação plana, que foi vítima constante de gotas e mais gotas. Pense o prezado leitor em uma goteira sobre a cama. Exatamente sobre o travesseiro. Nada seria mais incômodo do que acordar com gotas caindo em sua testa, correto? Mas você tem a opção de se levantar, mudar de lugar, colocar um balde algo do gênero. E se você estivesse amarrado, completamente imobilizado e incapaz de sequer desviar o rosto? Terrível, não? E são apenas míseras gotas…

Toda essa enrolação para dizer que acho correta a decisão de Lula em engrossar o caldo para cima do Equador no episódio da Odebrecht. Histórico: a empresa brasileira construiu por lá, entre um monte de outras coisas, uma hidrelétrica, e para isso contraiu, junto com o governo equatoriano, um empréstimo aqui, com o BNDES. Só que a usina deu problema, o presidente Rafael Correa subiu nas tamancas e resolveu expulsar a empresa do país. Ameaçou até prender funcionários. Agora, como último ato da peça, disse que o contrato era ilegal e contestou em um órgão internacional o empréstimo, coisa de uns 240 milhões de dólares.

Há muito tempo o governo brasileiro tem aguentado arroubos histéricos de países vizinhos. O principal deles é o boliviano Evo Morales, que já chegou até a invadir e tomar posse de prédios da Petrobrás por lá. Daquela vez não fizemos nada, porque existe uma preocupação do presidente em manter uma relação de amizade com os países vizinhos. É o que nos leva, também, a ignorar a ameaça iminente do paraguaio Fernando Lugo e a crise dos brasiguaios. Mas tudo tem limite, né? Vamos concordar.

Correa é cria de Chávez e Morales. Chegou ao governo posando de líder índio anti-americano, e já caçou briga com metade do continente, inclusive um quase conflito militar com a Colômbia. Agora encrencou com uma empresa brasileira, que não tem nada de imperialista e é responsável por uma grande quantidade das obras de infra-estrutura fundamentais para o Equador. Não sei se a Odebcrecht tem culpa no cartório, mas expulsar a empresa, tentar prender estrangeiros e querer dar o calote em um banco estrangeiro em época de crise não me parece a resposta mais sensata.

Lula foi o nosso platô. Aguentou, gota após gota, provocações, bravatas e histerias de nossos colegas sul-americanos. Mas se cansou, e resolveu chamar o nosso embaixador lá, demonstrando que não ficou nem um pouco satisfeito com a ameaça de calote. Parece que só agora ele percebeu que bancar o irmão maior não é só aguentar calado as bobagens que ouve e passar a mão na cabeça. É dar cascudos também, e mostrar que quem é maior manda. Mesmo que seja como uma quase homenagem a Che Guevara, um dos heróis da esquerda latino-americana (da qual faz parte Correa): endurecer, mas sem perder a ternura.

Em tempo: Lula não deixou de seguir o que falava. Ele sempre defendeu a amizade com os países vizinhos, e o Equador não faz fronteira, portanto é menos vizinho que os outros. Rá!

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2 Comentários

Arquivado em O Opinioso comenta

2 Respostas para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: No Equador é mais forte

  1. hahaha

    Vc se esqueceu das pedras?! Elas sumiram no final…

    Gostei do texto! não que minha opinião tenha muito peso…. mas….

    ^^

  2. Pois é, eu fiquei puto quando vi essa notícia do calote do Equador. Caralho, se o cara não tem cojones para pagar, não pega a porra do empréstimo. Agora a gente vai na maior “boa vontade”, empresta uma grana pro cara que a gente “confia” e o filho da puta dá o cano.

    Boto fé que quem atrasa o progresso do Brasil é o resto da América do Sul, só tem coisa escrota aqui pro lado, o único que tá mais de boa no seu canto é o Chile, que se faz de esguio (gostou do trocadilho com a cartografia do país?) e tenta se passar despercebido, quando é uma das maiores potências Sulamericanas.

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