Marcelinho, o Opinioso, comenta: A satiagraha contra Satiagraha

Diz um dos baluartes da ética no Senado brasileiro, o gaúcho Pedro Simon, que no Brasil só fica preso ladrão de galinha. Clichê? Clichê. Mas também é a mais absoluta verdade. Estão aí o banqueiro Daniel Dantas (conhecido aqui em Brasília como Sua Excelência ou, em algumas situações, Iminência), Naji Nahas e Celso Pitta que não me deixam mentir. Preso por crimes financeiros na Operação Satiagraha, da Polícia Federal, Dantas se livrou rapidinho, ficou coisa de um dia na cadeia. Preso de novo, dessa vez por tentativa de suborno contra um delegado da PF, passou outro dia na cadeia, mas logo estava livre de novo. Ambas as solturas por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Não vou aqui acusar ninguém ou julgar méritos das decisões judiciais relacionadas. Vou apenas elencar fatos. Com um nome derivado da expressão de Gandhi para “resistência pacífica e discreta”, a operação da PF jogou na mídia dois nomes: Protógenes Queiroz, delegado, e Fausto de Sanctis, juiz federal. O primeiro foi responsável por idealizar por muito tempo e realizar a operação, e o segundo responsável pelas ordens de prisão regulares da prisão e pela ousada segunda ordem de carceragem para o banqueiro.

Queiroz foi primeiro identificado como profissional brilhante. Chefe de várias atuações bem-sucedidas, o delegado era citado pela imprensa nos primeiros dias após a operação como equilibrado e competente. Aos poucos, no entanto, as visões foram mudando. Primeiro, surgiram críticas ao inquérito montado, que teria sido tendencioso e pouco instrutivo. Depois, começaram a circular denúncias de que agentes da ABIN teriam participado ilegalmente da operação, inclusive tendo grampeado o presidente do STF, Gilmar Mendes (o horror, o horror!).

Protógenes acabou afastado do comando da operação em uma situação estranha e ainda inexplicada, além de acusado de utilizar automóveis apreendidos de forma irregular. Viu sua operação resultar em uma das mais bizarras decisões da Suprema Corte dos últimos tempos, que proibiu a polícia de algemar bandidos. As últimas novidades foram uma investigação interna da PF que resultou na invasão com buscas de residências do delegado, a abertura de processo que pode até levá-lo à cadeia por algum tempo e a revisão do inquérito construído por ele a partir da operação.

Do outro lado, o juiz de Sanctis teve caminho parecido. Citado como especialista em crimes financeiros e lavagens de dinheiro, o magistrado foi considerado um verdadeiro caçador implacável de estelionatários. Aos poucos, no entanto, foi passando a rebelde vingativo, com a segunda ordem de prisão contra Dantas apesar do habeas corpus do STF, até ser citado indiretamente por um certo ministro como membro de grupo que se alia policiais e tenta fazer justiça a qualquer custo, uma espécie de milícia. Novamente, a última peça do quebra-cabeças vem com um pedido atualmente analisado pelo Tribunal Regional Federal de São Paulo para o afastamento de De Sanctis do caso.

Se eu contasse os fatos acima narrados a um estrangeiro, ele certamente levantaria a hipótese mais óbvia: Queiroz e Sanctis estão pagando pelo que fizeram. Foram servidores públicos impetuosos, que mais preocupados com o dever do que com a própria vida, mexeram com quem não deviam. Dantas é um gênio do mal, uma espécie de super-vilão brasileiro, e não espantaria a ninguém que tivesse um dedo dele nessa história inteira. Quem sabe repassando dossiês para jornalistas, ou fazendo ameaças veladas a políticos que estão sob sua esfera de influência do banqueiro para que agissem. Um movimento lento, como um contra-ataque discreto e aparentemente pacífico. Uma espécie de satiagraha contra a Satiagraha.

Protógenes deve ser preso, ou pelo menos perder o emprego. De Sanctis deve ir para a geladeira. Talvez fosse melhor para eles. Poderiam começar uma carreira nova, quem sabe como o delegado e o juiz de uma cidade pequena, no interior. Ali certamente seus trabalhos seriam mais produtivos, investigando e prendendo nos galinheiros quem realmente paga o que deve no Brasil.

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1 comentário

Arquivado em O Opinioso comenta

Uma resposta para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: A satiagraha contra Satiagraha

  1. Mas o poder paralelo sempre foi mais forte que o principal. Taí a Globo que não nos deixa mentir e o tráfico nas favelas.

    Pra quem pergunta se o Brasil tem jeito. Primeiro pergunte se os brasileiros têm.

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