Marcelinho, o Opinioso, comenta: Eloá, Lindemberg e a longa novela das 8

Houve ou não houve tiro antes da invasão? A polícia errou ao devolver uma refém para o sequestrador? Era preciso esperar tanto tempo para desistir da negociação? Por que não se usou equipamento de ponta para vigilância? E o mais importante, o que diabos eu tenho a ver com isso?

Nada mais apropriado para dar o início propriamente dito a um blog de opiniões do que o assunto que mais criou especialistas nos últimos tempos. Depois do reverso pinnado do acidente da Tam, da cratera do metrô de São Paulo, entre outros, agora temos praticamente 190 milhões de especialistas em situações de seqüestro com refém. Experts de mesa de bar, que bancam os técnicos da SWAT e analisam passo a passo de operações policiais.

É claro que estou falando do caso Eloá. Todo mundo está falando do caso Eloá. Cheguei a cogitar, por algum tempo, que Eloá fosse o nome de alguma empresa gigantesca que estava falindo. Um Lehman Brothers à brasileira. “O ministro da Fazenda anunciou hoje que o governo brasileiro vai comprar todos os ativos podres da Eloá” (o que parece mais mórbido agora do que quando estava em minha cabeça). Era a única explicação que minha mente conseguia elaborar para tanta atenção ao episódio em um momento como esse.

É um caso lamentável? É. Todo sequestro é deplorável, e demonstra a total falta de racionalidade do criminoso. Isso não o torna mais importante para mim, que não sou parente ou amigo próximo dos envolvidos. Sequer moro na mesma cidade para me preocupar com a forma como o bloqueio ao bairro onde se desenrola a cena vai prejudicar o tráfego. Certamente serei acusado de insensível por isso, mas não dou a mínima para o assunto, pelo simples motivo de tratar-se de questão de foro íntimo e pessoal. Aliás, se aquilo ocorresse com minha família eu certamente ficaria irritadíssimo com tanta atenção. 

É óbvio que houve uma superexposição do tema. Ainda há. São horas e horas ao longo do dia de cobertura do assunto pela imprensa, como se fosse um episódio estendido de uma novela (das 8, a julgar pela violência). Ademais, tenho quase certeza que todo o circo montado em torno do episódio interferiu em seu encaminhamento. Lindermberg viu o próprio rosto na televisão, deu entrevistas ao vivo pelo telefone, acompanhou a movimentação e as estratégias da polícia. Deram informação sem controle ao bandido, quando é tudo que ele não deveria ter.

Existe um consenso na imprensa de que não se noticia suicídio. Por que? Porque segundo psicólogos, um maluco que vê outro maluco tentando voar por aí fica com mais vontade de bater asas também.  Quem garante que o efeito em seqüestros passionais não seja semelhante? No mesmo dia um rapaz em São Paulo prendeu a namorada e quase a matou com uma faca. Ele gritava que faria como Lindemberg. Não acho que ele estivesse se referindo a algum amigo imaginário. 

A última discussão agora é se a polícia invadiu o apartamento antes ou depois de um disparo. Dane-se! A polícia agiu errado, não sabia que a porta estava bloqueada e acabou dando tempo para três tiros, um deles fatal. Isso não tem nada a ver com se isso ocorreu antes ou depois do sequestrador atirar. As pessoas (e a imprensa) esquecem o foco para discutir detalhes e picuinhas que saem do nada e chegam a lugar nenhum. O que não chega a ser novidade, já que a criação do assunto vem do mesmo processo. E se tudo continuar assim sempre teremos novas Eloás e novos Lindermbergs estrelando outras novelas no horário do jornal.

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2 Comentários

Arquivado em O Opinioso comenta

2 Respostas para “Marcelinho, o Opinioso, comenta: Eloá, Lindemberg e a longa novela das 8

  1. Na minho opinião, essa superexposição desnecessária ocorreu para que fosse desviado o foco da crise americana (e possivelmente mundial) que se arrasta por aí. Não queremos ninguém desesperado tirando seu dinheiro dos bancos e colocando-o dentro de seus colchões, aumentando ainda mais a crise.

    Por isso é preciso despistar o povo com algo que eles sempre gostaram de ver, a desgraça alheia. Isso é comum na mídia (e não me venha falar que não é), superestimar um assunto banal em detrimento de outro de grande importância, simplesmente por que interfere nos planos de alguém, ou denigre a imagem de outrém.

    O último assunto superestimado assim que me lembro foi a do surto de febre amarela, que os entendidos do assunto sabiam que estava longe de acontecer, em compensação, nada mais se falou dos escândalos políticos que estavam em voga na época.

    Sequestros seguidos de morte acontecem todos os dias no Brasil e no mundo, e ninguém da a mínima pra isso, ou pelo menos não ficam sabendo do caso.

    Agora quem se estrepou mesmo nessa história foi o pai da Eloá, que além de ter perdido a filha, agora é sabido nacionalmente que é um foragido da justiça por assassinato, entre outros…

  2. Na verdade foi super exposto para daqui alguns poucos meses virar algum filme com expectativa de ganhar o Oscar de filme estrangeiro…. Algo que nunca se tornará realidade, diga-se de passagem…

    Dizem que Freud explica essas coisas…. Mas dizem tanta coisa por ae! hehe

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