Corruptos do bem

Não lembro quem foi o colunista que disse recentemente que o PT criou a corrupção do bem. Que uma coisa é a corrupção do mal, em que o dinheiro desviado vai para o bolso do corrupto, e outra é a corrupção bacana, legal, que serve a um bem maior, para beneficiar a população. No primeiro caso, estariam os casos da Petrobrás. No segundo, o mensalão, que permitiu ao governo aprovar questões importantes no Congresso. E que a queda em desgraça de José Dirceu dentro do partido estaria relacionada à migração do primeiro para o segundo caso.

Faz quase todo o sentido. Só se peca em dizer que foi uma criação do PT. O partido se esbaldou nisso, e com gosto. Institucionalizou o discurso e abraçou a prática. Mas não criou, porque todo mundo tem sua versão de corrupção do bem.

Pegue-se o caso do presidente da Câmara dos Deputados. O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) é apontado por um lobista que fez delação premiada como destinatário de R$ 5 milhões de propina. Antes, outro delator havia apontado que ele usara o mandato (por meio de aliados) para pressionar esta empresa a pagar a propina. Mas quem organiza os protestos do próximo dia 16, que vão pedir o impeachment da presidente como um caminho para o fim da corrupção, acha que Cunha está fazendo um bom trabalho ao se opôr ao Planalto. E tudo bem se o Supremo Tribunal Federal está investigando ele, porque o demônio principal é outro. Toda ajuda é bem-vinda.

Do outro lado, o Planalto confia na ajuda do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para sobreviver à crise. A maioria parece não lembrar mas, em 2007, Calheiros renunciou à presidência do Senado após vir à tona que um lobista de empreiteira (ah, empreiteiras! essas danadas!) pagava sua pensão por uma filha com uma ex-amante. Ele manteve o mandato de senador, voltou à presidência do Senado nos braços dos colegas e hoje está aí… sendo investigado pelo STF na mesma operação que investiga o partido da presidente da República e o presidente da Câmara. Mas tudo bem, porque ele pode ajudar o governo a sobreviver ao “golpe”.

Aproveitando a onda, a oposição pede novas eleições. Na coletiva em que se questionava a ética do governo e a corrupção envolvendo as eleições, quem falava era o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), que teve um mandato de governador cassado por usar um programa social para se beneficiar nas eleições. Mas tudo bem, porque ele está querendo ajudar a moralizar o país.

A corrupção é generalizada e institucionalizada no país há muito, muito tempo. A operação Lava-Jato vai ajudar a combater isso porque, diferente da maioria das operações anteriores, está pegando não só os corruptos, mas os corruptores – os grandes empresários, que lucram com os desvios e eram considerados inalcançáveis. Mas nosso problema é maior do que isso. É cultural. É a relativização de tudo pelo viés ideológico. É essa mania de achar que qualquer comentário é “porque é petralha” ou “porque é coxinha”.

É aí que surge a diferença entre o aliado que “desmente” e o adversário que “alega”. Entre o aliado que “se defende” e do adversário que “tenta se defender”. Entre o “obviamente culpado” e o “inocente até ser condenado”. Entre o nosso corrupto e o corrupto dos outros – ainda que o dinheiro público e o prejuízo para todos seja o mesmo.

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O pastor do baixo clero

Eu acho que vocês ainda não entenderam direito o tamanho do problema em que a gente se meteu. Ou entenderam, mas estão se fazendo de mortos, como se tivessem encontrado um urso (li em algum lugar que o melhor a fazer ao encontrar um urso é se fingir de morto). Ou são hipsters da política, não se impressionando com nada e fingindo que não ligam para a eleição de Eduardo Cunha, o novo presidente da Câmara dos Deputados. Pois deveriam: a ascensão de Cunha é um pequeno passo para o baixo clero, mas um gigantesco passo em direção à incerteza.

Não me entendam mal, eu gosto como qualquer um de ver um bom arranca-rabo – e todo mundo sabe que Cunha à frente da Câmara com Dilma na Presidência é garantia de arranca-rabo. O problema é que a economia não anda com muita margem de manobra, a instabilidade institucional está elevada e qualquer rabo arrancado errado pode só piorar a situação. Ok, chega desta metáfora. A vitória do peemedebista foi uma derrota para o governo, sim, mas não estou aqui pra defender o governo, tem um monte de blogueiros por aí pagos para isso. Foda-se o governo! (o que, aliás, era provavelmente o slogan informal de campanha do deputado) Estou mais preocupado é com o resto do país mesmo. Dois anos de Eduardo Cunha à frente da Câmara, terceiro homem na linha sucessória, têm potencial para tornar qualquer retomada muito mais perigosa e delicada.

Eduardo Cunha

Inspira uma confiança, né? É a foto do Twitter dele.

Eduardo Cunha carrega (metaforicamente) “O Príncipe” debaixo de um dos braços. É considerado por quem entende do assunto um gênio da articulação política. Chamá-lo de Frank Underwood, o inescrupuloso senador de “House of Cards”, como fez a Istoé, é uma sacanagem: Underwood pelo menos é ficcional. Cunha é o que é porque entendeu como poucos (talvez por influência do primeiro professor, PC Farias) a força do baixo clero, o grupo de deputados que ninguém nunca ouviu falar, que anda pelas sombras do Congresso e que têm sua força no número. Gente que chama o ministro da Casa Civil de “Freddy Mercury” (ok, eu ri). Ele sabe que o que esse povo quer é dinheiro. É por isso que transformou em sua principal bandeira o Orçamento impositivo. Que intermediou contatos com doadores. Que comprou brigas com o governo. Eduardo Cunha é uma mãe para esse povo.

E como mãe, ele dá carinho e biscoitos, mas manda arrumar o quarto. Ou, como dizia o miliciano de Tropa de Elite 2, “quem quer rir tem que fazer rir”. Cunha exige fidelidade, e balança seu portfólio de aliados na cara de quem quiser. Faz valer sua vontade colocando os aliados para votarem em peso na bandeira que ele escolher. Foi o que garantiu as traições que lhe deram o mandato. Foi o que lhe permitiu assumir a liderança da bancada do maior partido do país, peitar a presidente algumas vezes e não ter de ouvir um “meu querido” sequer. Eduardo Cunha é um Severino Cavalcanti mais esperto, e eu não sei como as pessoas não percebem o quanto isso é perigoso. Pesquisem Severino Cavalcanti no Google, novinhos.

Pra comandar o clero, é preciso de um homem de fé, alguém carregue a Bíblia embaixo do braço (o outro, no caso). Evangélico há alguns anos, Cunha faz valer a vontade da categoria, uma bancada maior do que a de qualquer partido ou estado. Dane-se a separação entre igreja e Estado, isso é coisa de ativistas afeminados! Como o resto da bancada, Cunha faz o possível para usar a força da administração pública a favor do que suas convicções religiosas mandam. Já eleito, anunciou que não quer nem pensar em discutir questões como aborto e legalização da maconha, por exemplo. Deve ser parte do esforço de combate à “república gay” que o deputado acredita existir.

Não estou questionando a fé do candidato, mas Cunha certamente percebeu que ser evangélico é bom para os negócios. Dá votos, traz aliados. A frente evangélica tem alguns campeões de votos, gente que sai do anonimato para a casa dos milhares de votos – e que vota de bom grado com Cunha em assuntos como anistia de multas dos planos de saúde se ele garantir uma vaguinha na Comissão de Constituição e Justiça para barrar qualquer coisa que envolva direitos dos homossexuais. É o colchão de emergência de Cunha se o baixo clero ficar confuso (acontece muito). Sim, o cara é bom (pra si mesmo).

Ah, e ainda há quem ache que a autodeclarada “independência” de Cunha em relação ao Executivo é vantajosa para a democracia. Estes eu parabenizo pela inocência. Ele já mostrou mais de uma vez que sua autonomia vai até onde seus interesses pessoais chegam (dá um Google em “Eduardo Cunha furnas” aí, mas sem as aspas pra não zoar o algoritmo de busca). Independência condicional não é independência, é mecanismo de negociação. É sobre isso que se trata: Cunha será independente se ganhar mais com isso do que com a a adesão, e irá aderir se valer a pena. E sem trair em momento algum o próprio discurso: fique à vontade para procurar uma declaração clara de rompimento com o governo.

Essa permanente negociação não será o bom debate da democracia. Não há ideologia envolvida aqui, só realpolitik irônica. Aprovar as medidas de austeridade vai exigir liberação de emendas. Aumentar a eficiência vai implicar em cargos comissionados para amigos de amigos que não necessariamente entendam do assunto (oi, Eduardo Braga, tudo bem?) Sim, ideias toscas que vierem do Executivo terão uma vida mais difícil, mas as boas e necessárias também. O balcão de negócio permanente será ampliado. Renovação da DRU? Duas secretarias, alguns milhões em emendas talvez. Recriar a CPMF? Vamos reavaliar o Refis pros bróders empresários. Pedido de impeachment? É, esse aqui a gente vai ter que jantar no Piantella pra conversar com calma.

Tudo isso, é claro, enquanto processa jornalistas – 66 vezes até agora, e contando. Parece bom pra vocês?

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Noite sem estrelas

Não votarei domingo, assim como não votei dia 5. Não transferi meu título e trabalho no dia da eleição, de modo que resta justificar ou voto em trânsito. Esqueci de fazer o cadastro do voto em trânsito. O que, como alguns vêm me dizer, me tiraria o direito de cobrar o eleito. Discordo: é o que me dá o direito de cobrar quem quer que seja o eleito, sem que eu tenha fingir cegueira para os problemas do meu candidato caso seja ele o escolhido.

Se fosse votar, no entanto, não votaria baseado na questão da corrupção. Ela não é partidária, mas estrutural e endêmica. O partido A não é mais ou menos corrupto do que o partido B: todos eles tiveram, têm e terão adeptos dispostos a aproveitar brechas da legislação, acesso ao poder e a sensação de impunidade para cometer crimes. A postura do partido em relação a seus corruptos também não é definitiva: se o partido A defende seus corruptos, o partido B também. Intensidade de defesa não é ética, é marketing. Ninguém quer “cortar na própria carne”, ninguém vai agir “doa a quem doer”. Acreditar nisso é ingenuidade ou paixão partidária, e se você se enquadra em uma das duas situações, este texto não é para você.

Tampouco votaria baseado em promessas de combater a corrupção ou usar o dinheiro que hoje vai para a corrupção para fazer isto ou aquilo. Corrupção não é rubrica de orçamento, para a qual você deixa de destinar recursos e encaminha para a Saúde e a Educação. E a nossa recuperação de recursos perdidos para corrupção é historicamente baixa. É o tipo de coisa que ou você previne ou meio que já era. E quem combate isso é estrutura de Estado, não de governo. Polícia Federal, Ministério Público. Estruturas do governo, não deste ou daquele governante. Engavetadores da República e legislações que causem rachas na Polícia Federal são excrescências que estão naturalmente desaparecendo pelo amadurecimento natural das instituições. Presidente pode fazer isto acontecer mais rápido ou mais devagar, mas não pode interromper este processo.

Urna Eletrônica

A luz de uma noite sem estrelas.

Não votaria baseado em promessas que não serão cumpridas, em acordos partidários criticados na campanha e defendidos no governo. Não votaria de acordo com nada do que é dito durante as campanhas, na verdade, porque candidato não é governante, assim como turismo não é imigração. Propagandas eleitorais deveriam vir com “imagens meramente ilustrativas” no canto da tela, para nos lembrar que, na realpolitik, o bagulho é mais embaixo. Não votaria baseado em programas de governo, em entrevistas convocadas, em debates feitos de monólogos mal disfarçados e, definitivamente, não votaria baseado no que um tem a dizer sobre a vida pessoal do outro. Não votaria baseado nem mesmo em governos anteriores dos partidos, ou no que os candidatos falam sobre estes governos, confiando em memórias afetivas (ou na falta delas).

O que determinaria meu voto – e eu acredito humildemente ser um bom caminho – é uma pergunta simples: “dos candidatos disponíveis, qual tem o maior potencial de fazer o maior bem possível ao maior número de pessoas?” E é aqui que a porca torce o rabo, porque é aqui que as ideologias afloram.

Você pode acreditar que políticas de distribuição de renda diretas devem ser priorizadas, enquanto investimentos para melhorias de longo prazo são executadas. Que o Estado deve ser direcionador de investimentos, interferindo de forma mais veemente na economia, e não somente na regulação, porque o mercado e os empresários têm prioridades que não necessariamente batem com as da maioria das pessoas. E seu voto se basear nisso.

Ou você pode acreditar que a melhor forma de melhorar a vida da maior parte da população é crescimento econômico consistente, e que isso só pode ser obtido por meio de um Estado eficiente, mas que prefira a regulação. Que, sem a interferência baseada em valores políticos não necessariamente republicanos, o mercado gera mais riqueza, e que isso afeta a economia como um todo de maneira positiva. Que economia crescendo significa, sim, mais lucro para os mais ricos, mas ao mesmo tempo significa mais emprego, mais renda e melhores salários como um todo. E que o mercado gerencia tudo de forma melhor, a um custo aceitável, permitindo que mesmo os mais pobres usufruam de serviços de qualidade. E isso pode ser a lógica do seu voto.

Pode até ser um híbrido. Você pode acreditar que a iniciativa privada efetivamente gerencia melhor serviços do que o poder público, mas que, sem uma regulação próxima do mercado, a população que não consegue pagar pelos serviços é prejudicada demais. Que, sem o adequado equilíbrio entre interesse público no bem estar social e a lógica de lucro do mercado, ou a população mais pobre continuará às margens do bem estar criado ou o mercado reagirá para minimizar as próprias perdas, causando impacto negativo na população (de novo, com a parcela pobre mais prejudicada). Você pode acreditar que o segredo é equacionar justiça e igualdade com liberdade, e que se esse equilíbrio fosse fácil e existisse consenso sobre a melhor forma de atingí-lo, eleição era resolvida que nem votação do Big Brother, em algumas horas de votação passional (e não é?).

Independente do que você acredite, lembre-se que não há regra, não importa o que te digam. Que não tem fórmula certa para nada disso, e que o outro lado – que pode ser o estranho na Internet, o vizinho, o colega de trabalho, um primo e até sua mãe – não é necessariamente composto por genocidas satanistas sanguinolentos. Que política é debate, e que a radicalização mata o debate. Que extremar as próprias ideias diante de ideias extremas não resolve o problema, só o amplia. E que Martin Luther King Jr, que viveu em uma época de crenças, adesões e atitudes muito mais extremas do que as que vivemos hoje, deixou uma lição extremamente valiosa sobre a violência, simbólica ou não (em tradução livre, da minha lavra):

“A maior fraqueza da violência é que ela é uma espiral descendente, ampliando o que ela mais busca destruir.
Ao invés de reduzir o mal, ela o multiplica.
Por meio da violência, você pode acabar com o mentiroso, mas não pode acabar com a mentira, nem recriar a verdade.
Por meio da violência, você pode matar quem odeia, mas não matar o ódio.
Na verdade, violência apenas aumenta o ódio. E assim segue.
Responder a violência com violência multiplica a violência, aumentando a escuridão profunda em uma noite já sem estrelas.
Escuridão não pode acabar com a escuridão, apenas a luz pode fazer isso.
Ódio não pode acabar com o ódio, apenas o amor pode fazer isso.”

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Delenda Marina!

Normalmente não voto por causa do trabalho, que me impede de estar na minha terra na eleição (e me recuso a mudar meu voto para Brasília. Aqui sou só eu, é pouca gente demais para meu voto interferir. Em Goiás, meu voto pode ajudar a dar uma condição melhor para minha família, e é o que importa), mas este ano não foi nenhum sofrimento. Isto porque sigo uma regra muito própria, de voto por convicção no primeiro turno, voto útil no segundo. E este ano não tinha um candidato sequer, em qualquer dos cinco cargos disponíveis, que tivesse me feito achar que eu deveria atuar ativamente pela eleição

Tomaz Silva/Agência Brasil)

Tomaz Silva/Agência Brasil)

Já pro segundo turno, já tinha me decidido. Acreditava que teríamos Dilma e Marina, e estava disposto a votar na Marina, apesar de todas as minhas ressalvas a ela – e acreditem, não eram poucas. Por que? Porque o petismo que conheci quando garoto, que defendi na adolescência e no começo da juventude, desapareceu. As bandeiras progressistas foram abandonadas, as alianças espúrias elogiadas, e a política econômica virou algo lovecraftiano, que tornaria uma mente insana só de tentar entender para explicar.

Mas até aí eu aguentava, até aí eu defendia pontos dos 12 anos de governo. Só que a campanha jogou a pá de cal. O partido que me fez ouvir muito terrorismo quando garoto se entregou ao terrorismo de campanha. O partido que passou medo na Regina Duarte só faltou contratá-la para dizer que ela tinha medo da Marina. Foi como se o PT tivesse sido tomado pelo espírito de Catão, o Velho. “Delenda Marina!”. Marina deve ser destruída. Era a última frase, implícita ou não, em todo discurso petista. Se consideram “do jogo” ou “coisa de campanha”, como insistem alguns amigos, me é indiferente. A mim imediatamente lembrou uma frase do Ayres Britto no julgamento do caso Arruda: “Há quem chegue às maiores altura, só para cometer as maiores baixezas”. Delenda Marina! Atacar um quadro histórico do partido desta forma, alguém que teve de deixar o partido por perder espaço ao defender as bandeiras clássicas da legenda, da forma como se atacou… Minha tolerância acabou.

Mas aí… veio o Aécio. E o PSDB. E toda a memória do período entre 1995 e 2002: tudo pelo que minha família passou, as dificuldades de uma família de classe média baixa no interior do país, numa daquelas grandes cidades pequenas. As medidas fundamentais para recuperar a economia e combater a inflação – e que bagunçaram completamente nossas finanças pessoais. Depois, tudo a que o partido se opôs no governo seguinte enquanto não percebia que estava indo contra a população – e que passou a apoiar quando viu que dava voto. E tudo que eu vi e ouvi dos tucanos desde que comecei a trabalhar com política. E aí as coisa começaram a se confundir: eu vejo tucanos como petistas, eu vejo petistas como tucanos. Tão diferentes, tão iguais.

Não sei em quem votar no segundo turno. Nada que eu faça vai ajudar a combater o mal maior, porque eu não consigo mais dizer se o mal maior realmente é o que eu penso. É como se eu estivesse com a arma na mão em um daqueles filmes em que um gêmeo bom e um gêmeo mal se engalfinham até eu não saber quem é quem. E eu tenho minhas dúvidas de que perguntas resolvam, porque as respostas serão sempre destinadas a me fazer atirar no outro. Meu voto útil se tornou inútil na minha mão antes mesmo de tocar as teclas da urna eletrônica. Aos berros de “Delenda Marina”, o PT destruiu não só a ex-companheira. Destruiu meu resto de crença em algumas bandeiras do partido, minha esperança de que a política estivesse evoluindo no país, e um pouco da minha fé na humanidade. Parabéns a todos os envolvidos.

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Um conto eleitoral

A mãe de Ebenezer acreditava em numerologia, e era essa a explicação que o rapaz repetia, num suspiro de lamentação, quando perguntavam o motivo do nome exótico. Já Ovelha não era sobrenome, mas sacanagem mesmo: Ebenezer ganhou a alcunha de um desafeto na faculdade, que ria do garoto distraído que vivia seguindo os amigos onde quer que fossem. No começo foi um problema, mas quando o apelido pegou, ele desistiu de brigar – se todo mundo usava, alguma razão havia de ter.

Era nisso que o entediado Ovelha pensava na noite de 4 de outubro. Mentira, ele não pensava nisso. Sequer sabia se pensava. Distraído por algum vídeo de gatos no computador, evitava há três dias qualquer uma das infinitas páginas carregadas de debates políticos que dominavam a internet. Ebenezer odiava o período eleitoral: quanto mais perto do dia da votação, mais os ânimos se acirravam, mais debates surgiam e o pior, mais pediam sua opinião. Ebenezer odiava dar sua opinião. Ebenezer odiava ter uma opinião. Se pudesse, o jovem abriria mão do livre-arbítrio, mas quando foi questionado sobre um professor acerca do que pensava do livre-arbítrio, fingiu uma diarreia e saiu de sala.

Era sobre isso, portanto, que não pensava Ebenezer quando a luz de seu quarto se apagou. Maldizendo mais uma vez a empresa de energia, começou a procurar por uma lanterna nas gavetas quando ouviu um assobio gelado vindo da janela. Enquanto os cabelos da nunca do rapaz se eriçavam, um festival de luzes pipocou por todo o quarto, até se juntarem em uma única imagem. Era seu tio, Roberto.

 

– Porra, tio, susto do cacete. Que que tu tá fazendo aqui?
– Te visitando, garoto. Mas você não está esquecendo de nada?
– Tipo o que?
– Que eu estou morto, por exemplo?

 

Era verdade. Ebenezer deu um pulo pra trás, com o susto de ver o tio morto há pouco menos de um ano, ali, na frente. Depois de improvisar um esconderijo medíocre atrás da cômoda, voltou a criar coragem de olhar em direção às luzes. Seu tio ainda estava lá, com cara de entediado.

 

– Acelera, garoto, não tenho todo o tempo do mundo. Vim aqui só pra te dar um aviso. Tu ainda é chamado de Ovelha pela molecada do teu colégio?
– Faculdade agora, tio. E sou.
– Pois isso muda hoje. Mexi uns pauzinhos lá em cima e consegui autorização para te darem uns toques. Chega dessa vida de seguidor. Se prepara que hoje a noite vai ser animada.

 

Ebenezer preferia não ter ouvido aquilo. O conceito de animação de Roberto sempre fora diferente do seu: o tio adorava desfiar um repertório de manifestações da qual tinha feito parte ao longo da vida. Diretas Já, caras pintadas, basicamente qualquer protesto que envolvesse gritaria e bate-boca. Até nos jantares de família, Roberto era conhecido por manifestar opiniões até contrariar alguém. Morrera justamente por conta de um infarto ao saber que uma manifestação no Rio havia levado 1 milhão de pessoas às ruas.

 

– Então, tio, não vai rolar. Tenho uns trabalhos de faculdade e…

 

As luzes ficaram mais fortes e a voz do tio se tornou um trovão.

 

– Não tente fugir, Ebenezer! Saiba que nenhum arrependimento está à altura de uma oportunidade perdida. E é disso que se trata tudo isso: oportunidades! Amanhã você terá uma oportunidade, e uma oportunidade à qual você tem renunciado há muito tempo. Não mais!

 

E sumiu como havia chegado, com a luz voltando a ocupar o quarto aos poucos e um assobio gelado saindo dos pêlos de Ebenezer em direção à janela entreaberta. O garoto esfregou os olhos, viu os gatinhos na tela do computador e concluiu que estava delirando. E tudo isso sem fumar nada! (ele não consumia nada ilegal, mas preferia evitar uma opinião sobre a legalização das coisas)

Ovelha lamentaria ter tirado uma conclusão sobre o delírio pouco depois. Quando mudava dos gatinhos para uma pornografia básica, sentu novo arrepio. A luz de seu quarto mudou aos poucos, assumindo um tom azul. Ouviu um farfalhar de asas, e por baixo da porta entrou um pó branco, que aos poucos assumiu uma forma éterea. Ebenezer tossiu, nervoso, ao ver diante de si uma criatura meio homem, meio pássaro, com um longo bico.

 

– Ebeneeeezer! – a criatura ecoou bem o meio do nome, para parecer mais profético- Eu sou o espírito do governo passado!
– Mas hein?
– Sim, o espírito do governo passado!
– E o que eu tenho com isso?
– Tuuuudo, Ebenezer! Pois eu estou querendo voltar! E dependo de você para isso!
– Mas pra que você quer voltar?
– Para desfazer os males do presente, Oveeeelha! Para retomar os Fundamentos da economia, defender a Honestidade e os valores do Capitalismo de mercado!
– Isso parece bom. Mas o Luizinho vive dizendo que vocês acabaram numa crise econômica, que seu partido tem pelo menos três escândalos recentes e a desigualdade de renda está caindo agora em comparação à sua época?
– Não se susteeeeenta, Ebenezer! É preciso mudar o que está aí! Lembre-se diiiiisso!

 

Enquanto ainda ecoava a última frase, o espírito voltou a se desfazer em pó e se dissipou pelo quarto num vento que sibilava baixinho “Armíiiiniiiio”. Ovelha sentiu um frio na espinha, mas já estava sentindo frio na espinha desde o começo de toda aquela palhaçada. Nem se incomodou.
Após todo o espetáculo, as coisas nem chegaram a voltar ao normal. No quarto escuro, ainda atordoado pelo que acontecia, o rapaz ouviu batidas na porta. Uma. Duas. Ebenezer não queria abrir. Quatro. Sete. Na décima terceira, Ovelha não aguentou e abriu.

A figura que entrou era, por falta de definição melhor, exótica. Meio curvada, coberta por um manto escarlate, se arrastou lentamente para dentro do quarto. Arrastava pesadas correntes, na qual o garoto leria “Material genuinamente brasileiro” se não estivesse num breu completo, como se faltasse energia. Ao fim das mesmas, um poste impedia a criatura de se mover mais rapidamente. Até que ela desistiu. Sem levantar a cabeça, começou a falar. A voz soava hesitante e levemente irritada.

 

– Ebenezer, você sabe quem sou eu?
– O fantasma do governo presente?
– Como é que você sabe?
– Eu li Dickens na escola. O que você quer?
– O que todo mundo quer. Seu voto.
– Mas por que eu votaria em você?
– Olha, no que se refere a governo, o meu foi o melhor. Bom, juntando o meu e o do meu antecessor. Eu segurei a economia na crise. Bem, eu e meu antecessor. Cuidei do social. Bem, eu e meu antecessor. Tirei milhões da miséria, botei médico nos hospitais do país todo. Esses fui só eu!
– Mas se você cuidou da economia, porque todo dia meu pai reclama que a comida está mais cara? E olha que meu pai votou em você e no seu antecessor! Fora que o Zé me contou que vocês tiraram da miséria mudando o critério de miséria. Pô, aí, até eu. Posso passar de ano reduzindo a nota mínima?
– Meu filho, olha aqui. O IPCZB-2 de junho caiu zero vírgula dezoito pontos percentuais. Isso prova que a economia está se recuperando da crise internacional causada pela seca de gols na Copa. Agora larga de ser pessimista e vota na gente, tá bem?
– Sei não, sabe? O Fernando estava mó revoltado ontem, falando que vocês estão aí há muito tempo, abraçados com todo mundo das antigas, que talvez seja hora de mudança…

 

A aparição soltou um grito medonho. O vizinho da direita diria no seguinte ter sido “João”, mas o da esquerda garantia ser “Santana”. Enfim, para que servem os vizinhos?

 

– Não diga isso, meu querido! Você não sabe o risco de aparecer alguém sem experiên…

 

E antes que acabasse a frase, um fio entrou pela janela e começou a rodear a aparição. Depois outro, e mais um. Parecia algo reciclado, meio orgânico, mas estava escuro e nem a aparição nem Ebenezer quiseram arriscar o que era exatamente aquilo. Por fim, os fios começaram a chegar às centenas, lentamente enredando o fantasma do governo presente. Que resolveu ir embora antes que começassem a surgir perguntas.

Aos poucos, a rede começou a tomar forma. Era uma figura humanóide fininha, com voz de balão hélio. Sua coloração oscilava entre o vermelho e o azul, dependendo da luz que batesse. Às vezes amarelava. Ovelha achou que tivesse ouvido música gospel enquanto tudo acontecia, mas poderia ser o vizinho da esquerda. O que tinha ouvido Santana.

 

– Ebenezer! Você me chamou?
– Eu não chamei ninguém, vocês que insistem em vir aqui. Por mim, nem votava. Você é…
– O fantasma do governo futuro!
– Eu ia chutar o fantasma das manifestações passadas.
– Quase! Eu fui invocada pelo desejo de mudança geral! Foi providência divina!
– Acuma?
– E então, tenho seu voto?
– Não sei. O que você defende pra economia?
– Um pouco de liberalismo, um pouco de intervencionismo. Onde for preciso.
– O Giba disse que essa conta não fecha, os dois são muito diferentes. E nas alianças?
– Governar com os melhores de ambos os lados.
– Credo, mas é tudo nessas ideia de opostos?
– Não é polarização. Eu só acho que precisamos esquecer a velha política.
– Mas aí quem vai governar com você?
– Os melhores dos partidos.
– Dos partidos da velha política?
– Sim.
– Dos mesmos caciques?
– Isso.
– Hum.
– E então, tenho o seu voto?
– Quase. Só me diz mais uma coisa, e eu vou formar minha opinião sozinho, pela primeira vez na vida. O Timóteo, que trabalhava pro meu tio, é um gato. Estou pensando em dar uma ligada pra ele e tal. Se rolar, no futuro, eu e ele poderemos nos casar e ter dois filhos e um cachorro?
– Errr…
– Poderemos?
– Peraí, deixa eu puxar minha Bíblia aqui. Vamos ver… (folheando ao acaso). Aqui, Levítico, 20:13. Hum. Hummm. Então. Acho que tô com um problema de revisão aqui no meu exemplar. Posso te retornar em janeiro?

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Experimento

Em um experimento científico, colocaram cinco macacos em uma jaula. Dentro dela, penduraram um cacho de banana numa corda e colocaram uma escada debaixo dele. Pouco depois, um macaco foi até a escada e começou a subir em direção às bananas. Assim que ele tocou na escada, todos os outros macacos foram pulverizados com água gelada. Após um tempo, outro macaco fez uma tentativa com o mesmo resultado, e todos os outros macacos foram pulverizados com água gelada. Em pouco tempo os macacos tentaram impedir que isso aconteça.

Macacos experimentais.

Macacos experimentais.

Aí deixaram a água gelada de lado. Removeram um macaco da jaula e substituíram por um outro. O novo macaco viu a banana e tentou subir na escada. Para sua surpresa, todos os outros macacos o atacaram. Após outra tentativa e ataque, ele descobriu que, se tentasse subir na escada, seria atacado.

Em seguida, removeram outro dos cinco macacos originais e colocaram um novo. O recém-chegado foi à escada e foi atacado. O novato anterior participou da punição com entusiasmo! Da mesma forma, trocaram o terceiro macaco, e o quarto, e o quinto – sempre com os ataques. Ao fim, mesmo com nenhum dos macacos originais na jaula, ninguém tentava pegar a banana.

Moral da história: ser macaco é uma merda.

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Bonde do Braço

Tem protesto previsto para este sábado em São Paulo. Até aí, nenhuma novidade bombástica. De novo mesmo, só temos black blocs intimados para estarem na delegacia na hora do protesto e a Tropa do Braço, certo? Errado. Tropa do Braço é o nome formal. Na verdade, o nome interno na corporação é Bonde do Braço, e os caras vêm com trilha sonora própria para motivar a galera. É claro que você vê aqui, antes, com exclusividade, a letra do que vai bombar nas caixas de som de todos os blindados paulistas neste sábado. E se você é um alienígena que não frequentou a Internet nas últimas semanas e por isso não reconhece a melodia, aqui a música pra cantar junto.

Bonde do Braço

Flagrante de treinamento da Tropa do Braço

“Mais um protesto vai fazer minha tarde longa
Tá demorando pra que percebam nossa vitória
Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba
Se black bloc chegar perto vai virar história

Pego dois deles, faço eles de escudo
Chora mais alto que daqui eu não escuto
Do camarote o secretário nem vai ver
Tá virando a cara, tá falando pra TV

Sou meio covarde, mas tô pronto pro combate
Olha minha farda e segura o seu recalque
O meu sensor de fefeleche explodiu
Pega seus direitos e vai pra (rala aí, ô seus mandado)

Eu dou no ombro pro protesto ficar longe
Eu dou de ombro pra imprensa que tá de plantão
Eu dou no ombro se não há arrego pro bonde
Eu dou no ombro pra mostrar disposição…”

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