Louis C.K. é um dos comediantes americanos em maior evidência nos últimos tempos. Além do sucesso nos palcos com seu show de stand-up comedy, é protagonista, redator e produtor de um seriado sobre si mesmo, chamado Louie. Abaixo, um trecho do seu show Shameless, de 2007. Peço, se possível, que leiam também alguns dos comentários feitos por espectadores ao conteúdo do vídeo.
Outro comediante famoso nos Estados Unidos é o já falecido (e citado algumas vezes aqui no blog) George Carlin. Abaixo, um trecho de um show dele.
Agora, uma imagem de dezembro de 2009 publicada no Kibeloco, um dos mais populares blogs de humor do país. O autor, Antônio Tabet, salvo engano, é um dos professores da escola de redação em humor da TV Globo.
Não é difícil notar que os três conteúdos acima tratam de temas polêmicos. O primeiro trata da questão racial, o segundo é uma crítica direta aos dogmas religiosos e a última faz piada das acusações de pedofilia que permearam a vida do falecido antor Michael Jackson. Isto posto, peço atenção ao vídeo abaixo.
Sim, este é o vídeo da maior polêmica dos últimos tempos da última semana no Brasil, que carinhosamente apelidei de Rafinhagate. Por causa da piada acima, o humorista Rafinha Bastos foi suspenso por tempo indeterminado da bancada do programa CQC. Acredite se quiser, mas a sigla significa “Custe o que custar”.
Não faltaram críticas à piada. A compreensão geral foi de uma insinuação de pedofilia, algo que seria ofensivo não só à cantora Wanessa (pode chamar de Camargo?) e seu marido como à sociedade como um todo. No aspecto macro, Bastos foi massacrado pela imprensa – a Veja, na verdade, e alguns colunistas. No micro, o marido da cantora, um empresário razoavelmente influente, puxou algumas cordas até chegar à suspensão do rapaz.
Não gosto de me repetir – já tratei do assunto em texto recente, também envolvendo o Rafinha Bastos – mas achei que a situação merecia novos comentários, talvez porque tenha sentido uma reação maior agora. Por todos os lados, mulheres ofendidas com o que entenderam da piada se queixam. “Como alguém pode achar engraçada uma piada sobre fazer sexo com um feto? Que absurdo é esse? Piada sem noção e sem graça, nem pode ser considerada piada!”
Pode sim. Piada não depende só do entendedor, depende da intenção. Assim como ofensa. E eu, por exemplo, não entendi essa insinuação de pedofilia que todo mundo viu não. Se tivesse visto, talvez ficasse tão ofendido quanto alguns, mas não fiquei. Não achei graça também, mas ei! Vida que segue. Não existe humorista à prova de erros. Às vezes alguém vai pegar pesado e fazer uma piada com algo que lhe é valioso. Você tem o direito de não rir, e ninguém vai tirá-lo de você. Mas daí a exigir perfeição do humorista…
Entender humor como humor não é aprovar uma conjuntura social que reforça e perpetua estereótipos. É simplesmente aceitar que eles existem, que são parte da psicologia humana e que estarão sempre presentes em nossas vidas. Se são negativos e precisam ser mudados pelo bem da maioria, isso deve ser feito com discussão e educação, não com a restrição pura e simples. E me arrisco até em teorizar na psicologia (será um erro, eu sei): a percepção de uma ofensa na piada diz muito mais sobre nós mesmos do que sobre o comediante. O resto é raciocínio de manada.
O que me incomoda é a hipocrisia. O brasileiro que tão afoitamente condena o comediante é o mesmo que, na festa de família, ri ou até mesmo faz uma piada racista. Ou que define um amigo como homossexual como uma forma de zombaria. Ou que secretamente olha com malícia para a filha do vizinho, de apenas 15 anos. É esse brasileiro médio que se esconde atrás de uma máscara de sofisticação e pudor para condenar o comediante da piada errada mas que, dentro de casa, ri da situação. Essa hipocrisia cerca a nossa sociedade, e não só na hora de rir. Não são poucos os que reclamam da corrupção nas redes sociais, mas furam fila no banco sob o argumento da pressa e têm carteirinha de estudante falsa “porque o cinema está muito caro”. Você certamente conhece uma meia dúzia.
O Brasil leva suas piadas mais a sério do que os assuntos sérios. Querem se emputecer com algo? Se irritem com isso aqui, ó. 75 escândalos no Congresso, dos quais uma parte ínfima foi resolvida. Esqueçam a piada que não foi engraçada e que pode ter ofendido a famosa quem? Deixe que ela tome as próprias dores e reaja conforme o que lhe permite a lei, se for o caso. Leve a sério o que precisa ser levado a sério e é tratado como piada – Tiririca, me ajude aqui -, não o que é uma piada e deveria ser tratado como tal. Não procuremos chifres em cabeças de cavalo, ou correremos o risco de encontrá-los. E acreditem, eles não estão lá.
