Se você frequentou alguma rede social nos últimos dois anos, você provavelmente já assistiu ao vídeo abaixo. E provavelmente riu. Se não viu, aproveite para ver agora.
Como dá para notar pelo número de visualizações, a “Bed Intruder Song” foi um dos memes mais famosos de 2010. Chegou a ser eleito por um entendedor do assunto (o Cid, do nãosalvo) o melhor meme do ano passado. Para quem não entende muito de inglês, explico a história: alguns adolescentes remixaram e fizeram uma música a partir da entrevista de um rapaz, que fazia ameaças ao homem que invadiu sua casa e tentou estuprar sua irmã.
Agora, peço atenção às seguintes frases, extraídas da reportagem feita pela revista Rolling Stones sobre o humorista, apresentador do CQC e “homem mais influente do Twitter” segundo o NYT, Rafinha Bastos (recomendo a leitura da mesma na íntegra, disponível no link acima). É uma citação de uma piada contada por ele em um de seus shows.
Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço.
Minha pergunta é: que diferença existe entre rir de uma piada fictícia sobre estupro e um vídeo fazendo graça de uma pessoa próxima a alguém que passou por uma situação real de quase estupro? Quantas das pessoas que crucificaram Rafinha pela insensibilidade (foram muitas) desde a publicação da reportagem não riram e até compartilharam com amigos a Bed Intruder Song?
Não é de agora que manifestações de humor se tornam alvos de polêmica. Moliére não era exatamente um cara querido pela alta sociedade francesa da época. Juca Chaves foi exilado pelo regime militar para Portugal, e de lá foi parar na Itália após incomodar Salazar. E, só para ficar mais fácil para a geração Y se identificar, o humorista Danilo Gentilli já foi acusado de racismo e, mais recentemente, de anti-semitismo. A lista de polêmicas semelhantes provavelmente beira o infinito, e não só com os citados. Tive, até agora, a mesma posição em relação a todas as polêmicas: são exageros, frutos de um misto de ignorância com hipocrisia. Explico.
O humor é subjetivo. Não existe uma regra escrita sobre o que pode ou não ser alvo de piada. E por um motivo muito simples: a única obrigação do humor é ser engraçado, e não dá para definir, de forma absoluta, o que é engraçado. Isso porque o riso é fruto de um conjunto de ideologias e idiossincrasias formadas ao longo da vida, de forma completamente individual. Irmãos gêmeos criados pelos mesmos pais na mesma casa podem discordar completamente sobre o que é engraçado, assim como podem ter opiniões diferentes sobre música, arte, dramas, filmes e literatura.
Muita gente vai à Internet todos os dias se queixar de alguma piada que ofendeu o reclamante ou que ele acreditar ter ofendido um determinado segmento da sociedade (ao qual ele pode pertencer ou não). O interessante é notar que as pessoas que fazem as reclamações dificilmente percebem o detalhe da subjetividade. Por isso, proponho um exercício: peço que se identifique nos comentários deste post o indivíduo que não tenha rido na última semana de nenhuma piada ou gracejo feito com os seguintes segmentos da sociedade: gays, negros, mulheres (incluindo loiras), carecas, gordos, baixinhos, anões, nerds, daltônicos, deficientes físicos, cristãos, judeus (religião), evangélicos, muçulmanos, nordestinos, gaúchos, asiáticos, alemães, judeus (etnia), engenheiros, jornalistas, universitários, pobres e ricos. Admito que espero que ninguém o faça. Seria uma aberração estatística, um super-homem da moral e cívica absolutamente improvável. Um Seu Lunga da vida moderna.
Vejam que listei minorias, grupos caracterizados por condições físicas, nacionalidades, origens regionais, profissões, religiões e condições sociais, de forma a tentar abranger todo tipo de origem de estereótipos. Isso porque me arrisco a dizer: rir de um desses elementos e condenar piadas feitas com o outro é pura e simples hipocrisia. É aceitar que seus valores de humor e riso são superiores aos de outros, e que você está certo em achar algo engraçado, mas que algo que lhe seja ofensivo não pode, em nenhuma instância, ter graça. Que razão teria um blogueiro goiano como eu que risse de piadas de nordestinos e anões, mas se ofendesse com humor feito sobre goianos gordos e nerds?
Não é raro que alguém defenda o que se convencionou classificar de “politicamente correto” no humor como forma de garantir que grupos que tiveram seus direitos historicamente desrespeitados o sejam agora. Besteira. O humor baseado no exagero é isso: exagero. É colocar uma lente de aumento sobre uma característica, real ou não, até torná-la cômica. Não significa a realidade. Impedir que isso seja feito não vai corrigir omissões históricas. A consciência de que esse humor é exagerado e que a realidade é diferente vai. E isso não é feito com censura, formal ou não, mas com educação. Educação que, aliás, pode ser obtida em conjunto com o efeito cômico do humor.
A intenção por trás do exagero da comédia de estereótipos é o riso, puro e simples. E esse riso, como já disse, é baseado em experiências individuais. Eu ri do Bed Intruder e não ri especificamente dessa piada do Rafinha, mas não acho que ele precisaria ser preso, pagar multa e ser impedido de fazer novos shows. Condenar às fogueiras alguém que ri de algo que você não ri é querer ter atribuições sobre algo que você não pode definir. Você pode sentir-se ofendido, é verdade, mas querer impedir que a piada que diverte outros grupos seja feita é um contrassenso.
Aliás, até a lei tem dificuldade nesse sentido. Procure por processos de injúria, o crime mais comumente acusado em relação a ofensas da honra. Você vai descobrir que resultados de processos muitas vezes semelhantes terão consequências diametralmente opostas. E isso acontece por um motivo muito simples: a justiça pode ser cega, mas os juízes não são. Todos têm concepções e valores formados individualmente, não de forma objetiva. E a lei depende da interpretação. O que um magistrado pode considerar um exagero de liberdade de expressão que afronte a dignidade alheia, outro pode considerar mera piada que não teria maiores consequências. Qual está certo?
Em síntese: ria ou não ria das piadas, de acordo com seus valores, mas respeite a liberdade alheia em fazê-las. Sentir-se ofendido é um aspecto individual, não uma regra. Eu dou meu exemplo: passei minha infância escolar sendo gordo, baixo, usando óculos, tendo um cabelo ridículo e sendo mais novo que o resto. Agora estou ficando careca. E tudo que faço quando ouço piadas sobre alguns desses temas é rir e às vezes revidar com uma piada depreciativa sobre alguma característica estereotipada alheia. Não parece justo?

Eu ri sim do vídeo ali em cima, mas não da situação de quase estupro narrado, ri do personagem principal do vídeo, ele é cômico por si só. Toda piada tem um “lapso” – como eles mesmo dizem – de verdade do pensamento do humorista, e nós rimos de uma piada porque identificamos essa verdade exposta de uma maneira cômica e sutil, no caso da piada do Rafael Bastos eu simplesmente não achei graça alguma porque não concordo com a piada. Estupro é um episódio traumático para qualquer pessoa, não se vê pessoas reclamando por aí que foram estupradas, ao meu ver são poucas as pessoas que tem a coragem de enfrentar uma delegacia, prestar queixa e depoimentos, é difícil expor uma situação dessas que fere imensuravelmente a moral e a intimidade profundamente.
Eu sou nordestino e rio com muitas piadas de nordestinos, assim como rio de piadas de nerds, gordinhos, gays, anões, negros… se quiserem responder com uma piada depreciativa contra mim, beleza, não vou ser hipócrita. Mas as vezes alguns de nós – acredito que muitos – em algum momento já fez uma piada infeliz, ou como dizíamos quando crianças: “pegou pesado”. Eu realmente entende que ele quis “trabalhar” a piada em cima do estereótipo da “feiura”, mas penso que abordar a situação de estupro daquela forma foi muito precipitado. Vi outro dia desses uma piada até antiga que achei engraçada, “Jesus te Ama, mas ninguém te come”, sério, achei infinitamente mais engraçada. E se você um dia desses tentar convencer insistentemente uma pessoa que não gostou da piada, e depois esta te confessa que já teve a irmã ou a namorada estuprada? Como você prosseguiria seus argumentos diante dela? Indo além, como Rafinha Bastos prosseguiria com seu show se uma pessoa da platéia se sentisse imensamente agredida pelos mesmos motivos que citei aqui? Pode acontecer.
Nem quero imaginar Rafinha Bastos preso tentando explicar o humor da piada dele para os detentos. Abraços!
(…) Perdi o fio da meada, tive que sair correndo do trabalho. Mas voltando ao assunto Marcelinho, como será que Rafinha Bastos prosseguiria se uma pessoa da platéia se sentisse imensamente agredida ao ponto de protestar – até com lágrimas de revolta nos olhos – e interromper o show? Não crucificarei ele por isto, também não acho que deva ser preso, mas como eu disse, acredito que foi precipitado, quem sabe não seria melhor reescrever o texto e trabalhar uma nova piada “insultando” a “feiura” sem ter que precisar abraçar e agradecer um estuprador.
Concordo em maioria com a sua opinião, e também entendo sua intenção em levantar a questão da hipocrisia em torno do politicamente correto, sei que isso realmente acontece, é aquela coisa que já acontece desde que somos ainda crianças, seu coleguinha de turma não cansa de tirar sarro, brincadeirinhas e piadinhas com sua cara mas quando você resolve devolver uma na mesma moeda ele se zanga. Eu gosto de seus textos, seus argumentos são realmente racionais e coerentes, é por isso que não hesito em entrar em um debate contigo. Divergência de idéias e opiniões sempre existirão, graças a ela um debate torna-se frutífero.
“Caramba! Meu a garrafa de cerveja secou que nem percebi, chama o garçom pra botar mais uma aqui na mesa Marcelinho!”
Agradeço os elogios, Tiago, é bom ver gente que gosta de debater, mesmo quando discorda.
Eu acho que ser humorista é correr riscos. A gente sabe disso, porque, como você mesmo disse, todo mundo já passou pela situação de contar uma piada e “pegar pesado”. É um risco que corremos ao eventualmente contar uma piada, e mesmo assim o fazemos. E quem faz isso profissionalmente?
Ser comediante profissional é se colocar constantemente à disposição da crítica. Pode acontecer de alguém interromper o show e se esvair em lágrimas ou agredir o humorista por causa da piada? Sim. Mas isso significa que o cara deva abdicar de fazer graça com assuntos que possam eventualmente ofender muitíssimo alguém? Melhor não fazer piada sobre nada.
Como eu disse, humor é algo absolutamente subjetivo e individual, assim como as reações. Conheço gays que riem de piadas homofóbicas e ao mesmo tempo adolescentes que quase matam por um gracejo sobre seu ator hollywoodiano preferido. Não faz sentido nenhum. Pense comigo: Rafinha Bastos não corre risco ao fazer piada do Ronaldo, por exemplo, e se deparar com um adorador fanático do jogador? Ou sobre padres e se deparar com um católico que não aceita esse tipo de coisa? Como julgar a reação?
O que me irrita é a mania que as pessoas têm de querer dizer “dá para fazer piada disso, não dá para fazer piada disso”, como se todo mundo tivesse a mesma opinião sobre os mesmos assuntos.
Abraços e volte sempre, cara!
Você tocou num assunto em evidência hoje, essa coisa toda de homofobia, homoafeição, felizmente você têm amigos gays que riem de piadas de homofóbicos, eu ao contrário pareço perceber a cada dia uma resistência maior ou medo das pessoas em manifestar a opinião em público, fico “puto” da vida também com isso. Um dia desses eu estava com 2 amigos num restaurante e comecei a debater sobre essa polêmica toda em torno da união homoafetiva – como agora preferem- , e um dos meus amigos me deu um tranco com o cotovelo e me “alertou” sussurrando para que eu falasse mais baixo porque havia um garçom perto que supostamente era homossexual, tudo bem que eu estava levantando pontos que poderiam ser prejudiciais nesse cenário que está por vir e expondo minha opinião adversa em algumas questões, e falava particularmente da adoção – veja bem, digo opinião contrária, não vão entender por preconceito -, mas e daí?! Não posso mais expor minha opinião contra determinados assuntos em público? Já há quem diga que estamos entrando numa “ditadura gay”. Sob esse ponto de vista, voltando ao humor, concordo que dá sim para fazer piada com tudo, mas não de qualquer forma, e há uma linha bastante tênue entre piada e insulto. Na geração atual de humoristas muito poucos tem a perspicácia e sutileza suficientes para conseguir andar sobre essa linha sem cair. Concluo concordando com você, ser humorista é correr riscos, mas os de hoje se “estrepam” pra “caralho”.
Pedrinho: “Professora, o Joãozinho não deixa eu passar a mão na bunda dele.”
Professora: “Joãozinho, você vai levar advertência por preconceito.”
Verdade, não se deve negar a esses homens “engraçados” o direito de fazer piadas babacas sobre atos de violência, afinal se eles não falarem essas merdas e elas não repercutirem por aí, como nós iremos saber quem é misógino, racista, homofóbico, anti-semita ou simplesmente escroto?
Mesmo que isso talvez implique, em alguns casos, na subjugação ideológica pelo riso.
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