Somos cúmplices

Em abril de 2012, o Supremo Tribunal Federal considerou que aborto de anencéfalos não é aborto, portanto não é crime.Por um mecanismo jurídico, a decisão do Supremo vale para qualquer processo judicial semelhante ao originalmente analisado, em qualquer instância. Na prática, reduz o número de processos que chegam ao Supremo e que ficam tramitando por aí. É um recurso útil.

O problema é que isso nunca foi bem visto pelo Congresso. Para muitos parlamentares, o que o Supremo faz quando cria uma súmula vinculante é legislar, invadindo a seara do Parlamento. E quando trata-se de um assunto polêmico assim, como o aborto, o ódio só aumenta. Isso porque as bancadas religiosas têm força para barrar o tema no Congresso, mas não têm como impedir o STF de se decidir sobre o assunto de forma contrária às crenças que defendem.

O que fazer? Infernizar a vida do Supremo. Horas após o julgamento do Supremo, ouvi da boca de um deputado federal que eles atuariam para aprovar uma PEC que permitisse ao Parlamento suspender decisões do STF que invadissem a competência legislativa. “O que me indigna é o Supremo agir com ativismo judicial e ao mesmo tempo das principais lideranças do Parlamento não terem essa percepção. Eu acho que a nossa reação não é contra o Supremo, é a favor da democracia e do Estado de Direito. [Sobre a PEC] Achamos que ela é extremamente fundamental dentro deste princípio do equilíbrio entre os poderes.”

João Campos

Deputado João Campos (PSDB-GO), líder da Frente Parlamentar Evangélica, relator da PEC 33/11 e cavalgadura mor já exportada por Goiás para o Congresso. (foto por Luis Macedo/Câmara dos Deputados)

O deputado era João Campos (PSDB-GO), líder da Frente Parlamentar Evangélica. E ele não estava brincando: no fim daquele mês mesmo, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou a PEC 3/2011, de Nazareno Fonteles (PT-PI), que dava ao Congresso Nacional a possibilidade de sustar “atos normativos  de outros poderes que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de delegação legislativa”. Para o deputado, isso significaria que um decreto legislativo aprovado pelo Congresso poderia barrar o efeito, por exemplo, da decisão do Supremo que autorizou a união civil estável entre homossexuais. Talvez ele estivesse errado sobre o alcance, mas era algo a se acompanhar: que outras medidas estes senhores querem aprovar? Isso não ocorreu, sabe-se lá porque.

Os nomes lhe soaram familiares? É porque são. Fonteles é autor também da PEC 33/2011, recentemente aprovada na mesma CCJ. O texto cria dificuldades para declarações de inconstitucionalidade pela Suprema Corte de emendas à Constituição e submete súmulas vinculantes a apreciação do Congresso, que poderia derrubá-las. O relator da dita cuja? João Campos. A aprovação causou furor e uma crise institucional entre os Poderes Legislativo e Judiciário, com troca de farpas e reuniões secretas para acalmar os ânimos, num daqueles espetáculos que só Brasília sabe proporcionar.

Nazareno é um homem irritado com o Supremo. Na justifica da PEC, diz que “as decisões proferidas [em súmulas vinculantes] carecerão de legitimidade democrática porque não passaram pelo exame do Congresso Nacional. Estamos, de fato, diante de um risco para legitimidade democrática em nosso país. Há muito o STF deixou de ser um legislador negativo, e passou a ser um legislador positivo. E diga-se, sem legitimidade eleitoral. O certo é que o Supremo vem se tornando um superlegislativo”. Volta e meia ele aparece com um projeto ou discurso nesse sentido, de que a Suprema Corte é poderosa demais. (spoiler para o deputado: tem que ser, é a Suprema Corte) Mas Nazareno é insignificante. Em geral, fica nos subterrâneos com projetos sobre uma maluquice como Limite Máximo de Consumo, Poupança Fraterna ou a criação do Dia do Vaqueiro. É um suplente sem expressão no partido ou no Parlamento. Um nada político.

Nazareno Fonteles

Nazareno Fonteles (PT-PI), suplente de deputado e mal-intencionado de ocasião. (Foto de Luis Macedo/Câmara dos Deputados)

João Campos, não. O PSDB pode até não colocá-lo em sua vitrine, mas ele é nome forte no Parlamento pela frente evangélica que lidera, com um sétimo dos parlamentares e uma base eleitoral leal e ativa. E ele está tão irritado quanto Fonteles com o Supremo. Diz seu relatório sobre a iniciativa: “previne-se [...] a hipertrofia dos poderes do Supremo Tribunal Federal, evitando que atingissem, desmesuradamente, as instâncias que lhe são inferiores e, no limite, o cidadão e as pessoas jurídicas, haja vista o alcance da súmula e o seu efeito vinculante sobre as decisões administrativas e judiciárias”. Junte isso ao discurso lá em cima e você terá alguém que quer dar um sossega-leão no STF.

E é por isso que escrevo sobre o tema. Me incomoda a situação atual, de atirarmos no que estamos vendo e sermos baleados pelo que não vemos. Desde que a PEC 33 foi aprovada pela CCJ, todos que trataram do assunto transformaram o ato numa suposta vingança de mensaleiros contra o Supremo que os condenou, pela presença (que me parece ilegítima) de dois deles na comissão, tendo votado a favor do projeto. Besteira. O assunto tramita desde antes da condenação dos envolvidos no mensalão pelo Supremo, é bandeira de gente de governo e oposição há anos e teve o apoio de partidos de todas as esferas. Como pode ser algo novo, aprovado em resposta? E a PEC 3/11, era uma retaliação prévia? Ataque preventivo?

Pode a aprovação da excrescência ter contado com uma ajuda vingativa do PT, que quer o couro da moçada da toga? Pode. Mas não seria suficiente, se fosse bandeira particular de meia dúzia de safados. É uma retaliação, sim, planejada, sim, mas de quem se organiza para ter força no Congresso e acaba se sentindo atropelado pelo Supremo. Com ênfase notória na bancada evangélica, que espertamente se aproveitou do palhaço-suplente à disposição. Isso está claro, transparente a quem quiser ver. Não parece óbvio?

Quando nos dispomos a transformar tudo em mais um episódio do vale-tudo mensaleiros x mundo civilizado, jogamos a luz no que queremos ver e ignoramos o que acontece no subterrâneo. É assim que projetos como esse são aprovados: na maciota, no subterfúgio, com a culpa sendo jogada em quem convém. E se não buscamos os verdadeiros responsáveis, não somos vítimas – somos cúmplices.

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Mártires

Jair Bolsonaro é eleito e reeleito deputado federal desde 1990. Começou como um militar defendendo os direitos dos militares e a “Revolução” de 64. Representava uma bandeira minoritária, mas com força para eleger um representante. Tinha lá suas polêmicas, mas pouca força, apesar de muitos votos. Tanto que foi perdendo votos: de mais de 110 mil em 94, caiu para cerca de 100 mil em 98 e menos de 90 mil em 2002.

Daí em diante, voltou às vitrines do sucesso. Sucessivas guinadas à direita o colocaram na mira dos defensores dos direitos humanos: qualquer declaração mais agressiva respaldada na imunidade parlamentar lhe rendia semanas de exposição gratuita. Se a “classe média instruída” o condenava como um troglodita racista e homófobo, as pessoas que concordavam mesmo que parcialmente com suas ideias e não o conheciam tinham acesso ao que ele defendia. Em 2006, ele voltou à casa dos 100 mil votos, até bater recorde em 2010, com 120 mil votos.

Bolsonaro é suplente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Já foi titular em outras legislaturas. Já criticou e ajudou a embarreirar muitos projetos considerados importantes por defensores dos direitos humanos. Faz isso porque defende uma bandeira que lhe rende apoio popular e votos. É um representante democraticamente eleito de uma parcela da população que concorda com seus valores e que tem tanto direito a voz e voto quanto todo o resto. Democracia é pra todo mundo.

Marco Feliciano foi eleito deputado federal em 2010 com mais de 220 mil votos. Representa principalmente os evangélicos, que compõem uma parcela pequena da população brasileira, em termos proporcionais, mas com um lobby muito organizado. Tanto que elegeram 1 em cada 7 dos atuais deputados federais, que se distribuem nas comissões com mais influência nos assuntos por que se interessam: políticas para drogas, aborto, minorias. Eles são praticamente maioria na Comissão de Direitos Humanos, tanto que elegeram o presidente. Estão também na Comissão de Seguridade Social e Família e na CCJ, onde podem no mínimo atrasar e no máximo barrar basicamente qualquer projeto aos qual sejam contrários.

A pressão pela saída do deputado da presidência da CDH é legítima? É. É catártica? É. Mas é ineficaz, por um lado, e perigosa, do outro. Ineficaz porque, mesmo que ele saia, o grupo que o elegeu já tem força suficiente para barrar o que quiser na comissão. Fora que, obrigatoriamente, o novo presidente viria do mesmo grupo: talvez alguém que fale menos, mas que pensa igual. Fica bonito na foto, mas o resultado é mesmo. E perigosa porque transforma o pastor numa vítima. Observe as imagens recentes envolvendo o caso. São sempre de um homem sereno, que tem a palavra cassada por manifestantes que gritam e empunham faixas. É essa a imagem que ficará na cabeça de quem o apoia, e que ele soube usar muito bem em um vídeo: a de que estão perseguindo o defensor da família e dos bons costumes. Isso cola, amigos, e cola bonito.

Se Feliciano sair, não teremos ganhado uma guerra. Não teremos ganhado sequer uma batalha. Só teremos criado um mártir. E, Deus, nós sabemos como as pessoas gostam de um bom mártir. Eu esperaria no mínimo 300 mil votos em 2014. Talvez um senador?

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Testemunho

Não sei se isso realmente ajuda. O terapeuta diz que sim, mas eu acho que ele só quer meu dinheiro. Ele diz que contar nossas histórias para as pessoas, ajudá-las a não cometer os mesmos erros que cometemos, é bom para o carma. Pessoalmente, acho esse papo de carma uma tremenda viadagem, mas enfim, por algum motivo eu estou pagando o cara, então é melhor fazer pelo menos alguma coisa que ele diz, certo? Só que eu não sei como começar. Acho que a gente nunca sabe exatamente porque essas coisas acontecem. Tem gente que diz que é em casa, quando os pais se descuidam e deixam a gente sozinho. Pode ser. Se não tem ninguém pra criar a gente, o mundo cria, né?

A primeira vez foi quando eu tinha uns 14, 15 anos, sei lá, uma dessas idades em que a gente faz de tudo para ser aceito na galera, sabe? Era uma rodinha do lado de fora da escola, numa pracinha que tinha perto do colégio. A gente tava falando de vestibular, eu acho, quando a Marcinha – que tinha pai militar, linha dura e tal – sacou do nada um “racismo às avessas”. Ficou todo mundo meio assustado e tal, ninguém ali nunca tinha ouvido nada assim, em público, no meio da rua. Mas ela estava nem-te-ligo, passando a bola pra quem quisesse. Acabou sendo o Freitas, que era afim dela. Ele emendou um “não sei porque eu tenho que sofrer, não escravizei ninguém” tão fundo que eu achei que fosse passar mal. A galera calou na hora, mas dali a pouco entrou todo mundo na onda, um pouco com medo de ser considerado covarde, um pouco porque, sei lá, fazia sentido. Acho que foi a primeira vez que eu perguntei quando iam criar cotas para brancos.

Não deu um mês e já tinha virado hábito. A galera marcava de ir tomar um sorvete no parque, pegar um sol , e aproveitava para falar dos viadinhos que se beijavam na beira do lago. A Marcinha, que tinha apresentado o esquema pra gente, era sempre quem trazia a parada pra galera: lei anti-homofobia, feminismo, Bolsa-Família. Eu lembro que o dia do aborto foi pesado, porque a galera entrou numa bad trip e teve alguém que mandou um “deu, não deu? Agora cria!” perto de uma moça com óculos modernosos que lia num banco. Achamos que ia rolar denúncia, mas ela só bufou e olhou pro lado, como quem dissesse “onde o mundo vai parar?”. O preconceito é foda, irmão.

Eu gostava de curtir com a galera, mas comecei a achar que era pouco. Sei lá, eu ficava sozinho em casa, papai dava aula na faculdade o dia inteiro sobre aquelas porcarias de índios, mamãe ensinava artes numa escola infantil, e eu não tinha nada pra fazer a tarde inteira. Um dia, criei coragem e liguei pra Marcinha, pedi para ela me dar umas dicas sobre onde conseguir um material de primeira. Ela riu e disse que apareceria na minha casa em meia hora.

Ela já chegou com umas quatro ou cinco revistas embaixo do braço e um livro que eu tinha até medo de perguntar do que se tratava, parecia coisa da pesada. Fomos pro quarto e ela me explicou como tudo funcionava: porque eu tinha mais direito que os outros, porque o governo não devia se meter na minha vida (a menos que eu fosse assaltado) e porque só quem paga seus impostos merece respeito. Cara, eu eu ouvia “cidadão de bem” e minha mente viajava. A Marcinha percebeu que eu tava na dela, e resolveu me introduzir no livro: era do Olavo, coisa fina. Fiquei tão empolgado que acabamos nos pegando ali mesmo, enquanto ela gemia baixinho no meu ouvido “Tradição, Família e Propriedade”.

Daquele dia em diante, nada mais importava. Concluí o Ensino Médio sem vontade e tomei pau no vestibular (a gente sabe por culpa de quem, né?). Acabei convencendo papai a pagar meu curso de Relações Internacionais na mesma faculdade da Marcinha, e sem Prouni! Hoje me pergunto se esse não foi um dos grandes erros que cometi na vida (a faculdade, não ter ficado fora do Prouni). Meu namoro com a Marcinha ia de vento em popa, e a gente passava o dia na faculdade filosofando. Não demorou para acharmos uma galera da nossa, né? Tinha até um guri de juventude partidária, mas eu sempre achei que era pesado demais até mesmo pra mim. A Marcinha curtia.

Enquanto isso, eu continuava me afundando cada vez mais em casa. Fiz assinatura de revista, meti um poster do Reagan na parede e comecei a bater boca com meu pai por conta de meia dúzia de selvagens atrapalhando a agricultura no Mato Grosso. Minha mãe reclamava dos meus olhos vermelhos de madrugadas lendo blogs apócrifos e eu jogava na cara dela que ela não tinha sido contra um aborto da minha tia na adolescência. Meu pai cortou minha mesada quando descobriu que eu tinha comprado toda a bibliografia do Olavo pela internet, e eu tive de vender meu iPod para comprar os dois do Reinaldo. Acabei saindo de casa e fui acolhido pela Marcinha e pelo pai dela, coronel Ferraz, que entenderam minha situação – o coronel só deixou claro que sexo, só depois do casamento (com a Marcinha, no caso).

Eu tentava me reconciliar com meus pais, mas ficava cada vez mais difícil. Meu pai viu minha foto na Internet na Marcha do Orgulho Hetero, Branco, Cristão e Ocidental e parou até de atender minhas ligações. Meu único canal era minha mãe, que meio que me aceitava do jeito que eu sou. Ela dizia que ia conversar com meu pai, que éramos dois cabeças-duras, e que faria o possível, mas que eu precisava pegar leve. Aceitar que às vezes as pessoas pensam diferente, e que o consenso é possível, e que os dois lados podem ter razão. Mamãe tinha um coração bom, e me amoleceu. Voltei a conversar com meu pai sobre outras coisas – futebol, principalmente – e aos poucos voltamos a nos falar. Retornei pra casa um ano depois.

Só que foi tudo por água abaixo quando eu peguei a Marcinha com o carinha da juventude partidária discutindo a refundação da legenda da ditadura. Aquilo era demais. Ela tinha me prometido que pegaria leve, tinha me dado apoio quando eu parei de falar para as pessoas que não era racista porque até tinha um amigo preto (era mentira, não tenho amigos pretos), disse que me aceitava se eu ficasse careta. Todo aquele papo… para isso? Não, eu precisava mostrar que continuava o mesmo, que podia ser hardcore. Acabava ali a época da conversa suave, era hora do grande porrete.

Saímos com a galera para um rolê no centro da cidade e eu resolvi mostrar que palavras são bonitas, mas são as ações que demonstram coragem. Vimos um casal de bichas de mãos dadas saindo de um prédio e começamos a xingar, como sempre, mas eu fui além: peguei uma lâmpada que estava num saco de lixo e dei na cara de um dos dois. Fez um talho fundo, o sangue jorrou e o namorado dele começou a gritar. Olhei pra trás e minha galera tinha fugido, quando olhei pra frente já não tinha como fugir da polícia. Acabei sendo levado pra delegacia, mas mamãe implorou, negociou, chorou muito e não fui preso. Pior: tive de pedir desculpas e aceitar participar de seminários sobre diversidade. O que só prova que essa lei só serve para proteger vagabundo mesmo.

Quando eu voltei pra casa, tinha um recado da Marcinha terminando tudo – ela não podia sair mais com um bandido (que, afinal de contas, só é bom morto). Papai tinha ficado tão envergonhado de mim que aceitara um convite para uma excursão a Belo Monte (espero que não cancele a obra por causa dos xingus, o país não pode parar). Só mamãe continua me amando, incondicionalmente.

Hoje, sou apenas uma sombra do que fui no passado. Encaminho piadas do Lula por e-mail, correntes sobre o Bolsa-Presídio, mas não tenho ânimo para espalhar a foto do “Cotas? Não, obrigado. Eu estudei”. Desanimei, acho. Fico pelos cantos, como esse povo beneficiado pelo assistencialismo do governo, sem fazer nada e sendo sustentado por alguém que trabalha duro. Xingo blogueiros sujos na Internet sem perceber que somos iguais, um bando de malucos pegando pesado e se matando todo dia na Internet por pessoas que não ligam pra gente. A verdade é essa, e o pôster do Reagan na parede me diz isso com todas as letras, mesmo sem ter nada escrito: eles não ligam pra gente.

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Corrente

ATENÇÃO, NOVO GOLPE NA PRAÇA! Galera, só repasso porque chequei! ESPALHE PARA AJUDAR NOSSA SOCIEDADE

Se você tem carro e para frequentemente em semáforos, MUITO CUIDADO! Um novo golpe está sendo dado em todas as capitais do Brasil!

Começa como se fosse mais um malabarista desses de semáforo normais. Pouco depois no entanto, chega um cuspidor de fogo! (Sim, como nos circos!) Os dois começam a fazer o show juntos, e é tudo muito divertido, até que um dos malabares é atingido pelo fogo e cai sobre o capô do seu carro! Você fica assustado e vai ver o estrago, enquanto os dois pedem desculpas.

É AÍ QUE MORA O PERIGO! Neste exato momento, um macaco vestido com roupa de balé, treinado pelos golpistas e que até então estava fora do seu campo de visão, entra no seu carro pelo teto solar (ou pela janela, se seu carro for mais simples e não tiver teto solar) e pega TODOS OS SEUS PERTENCES. Em algumas cidades, vítimas relataram não ser um macaco, mas um anão vestido como se fosse ser atirado de um canhão, mas não há confirmação pela polícia. Quando você volta ao carro, os golpistas fogem e você descobre que foi roubado. POR ISSO, ATENÇÃO!

Renato Ramalho, de Fredonha (MG), caiu no golpe. Ele conta que “parecia um circo. Inclusive era uma moça que soprava o fogo, muito bonita, como essas artistas da Globo, mas meio sujinha. Parecia aquela Juliana Paz”, disse. Além do som do carro, o macaco levou sua carteira e seu Hiphone 6 novo, que ele havia parcelado em 10 vezes sem juros.

Já Lu Ferraz, que mora em Piá Mole (RS), diz que até viu o macaco, mas que achou que era parte do número. “E ele tava tão bonitinho no colantezinho rosa”, disse. Ela perdeu a bolsa e um batom novo que sua tia trouxe de Nova York. “Foi tão caro, e eu perdi porque não dão segurança pra gente! E o Sarney lá, no Congresso!”

Recebi este alerta por e-mail de um delegado da Polícia Civil de Cambraia do Sul (RR), dr. Fonseca, que também deu algumas dicas sobre como evitar o golpe:

- Não pare em semáforos, mesmo que estejam vermelhos!
- Se encontrar um malabarista de rua, ataque-o com o que estiver à mão. A polícia não pode te prender se for um ataque preventivo!
- Se encontrar um cuspidor de fogo, use um extintor e apague-o imediatamente. A polícia NÃO PODE te prender se for um ataque preventivo!
- Sempre ande com bananas no carro! (O macaco vai preferir as bananas a seus pertences)
- Não repasse falsas correntes de alertas por e-mail ou redes sociais!

COMPARTILHE SE VOCÊ SE PREOCUPA COM SEUS AMIGOS, FILHOS E COLEGAS DE TRABALHO DOS QUAIS VOCÊ NEM GOSTA TANTO ASSIM, MAS FICARIA ENVERGONHADO SE ELES FOSSEM VÍTIMA SENDO QUE PODERIAM TER SIDO ALERTADOS POR VOCÊ ACERCA DA POSSIBILIDADE. E O PIOR: ELES FICARIAM RELATANDO A HISTÓRIA REPETIDAS VEZES NA SUA FRENTE, ATRAPALHANDO O SEU TRABALHO E ATRAINDO A SIMPATIA E COMPAIXÃO DA NOVA FUNCIONÁRIA BONITINHA E AÍ JÁ VIU, NÉ?

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Encanado

Shakespeare não escreveu sobre encanamentos. Não sei até onde isto foi causado pela ausência de encanamentos propriamente ditos no século XVI ou se por um descuido do bardo, mas, até onde eu conheço da obra do inglês – não é muito, admito a falha de caráter -, não me lembro de referências a encanamentos nas obras dele.

Uma mancha na biografia do homem, digo eu. Quem passa por dificuldades nessa área no cotidiano acaba se deparando com material riquíssimo, matéria-prima de primeira grandeza para produção literária, posto que são praticamente metáforas fechadas para a vida – e era para um grande autor como William (posso chamá-lo de Bill? Melhor não, né?) ter notado isso. Espero que o problema seja mesmo o fato de que “encanamento” à época dele  fossem basicamente buracos no chão, que ainda assim talvez merecessem pelo menos um papel secundário em Sonhos de Uma Noite de Verão.

Voltando aos canos e aos problemas: não é difícil reconhecer a relação dos mesmos com a vida – se bem que, com algum esforço, não é difícil associar qualquer objeto a algum aspecto da vida, todo o ramo de auto-ajuda aparentemente vive disso – e tirar dos problemas lições ou pelo menos constatações. Foi o que aconteceu comigo hoje, quando precisei trocar o chuveiro.

Primeira constatação: o processo não é tão complexo que o responsável precise de um diploma nem tão simples que só se precise de um diploma em jornalismo. Desliga o disjuntor (muito importante para não morrer queimado, etc, etc), abre o cano, solta os fios, desatarraxa a bagaça, se molha todo porque esqueceu que tinha água dentro, tira a camisa, atarraxa a bagaça nova, liga os fios, fecha o cano e faz “tcharã”! Parece simples, não é? Não é. Igual à vida.

Tinha um motivo para eu trocar o chuveiro. De uns tempos pra cá, eu comecei a notar que caía água gelada junto com a quente, o que não é nada legal quando você toma banhos às 3h32. Fora a fumacinha e o cheiro de queimado que surgiam às vezes. Aliás, se tem algo que não tem nenhum lado positivo é o tal cheiro de queimado. O que prova que, quando algo está errado, os sintomas surgem, mesmo que pequenos e quase imperceptíveis. Igual à vida.

Aí veio a primeira descoberta: a fiação estava toda zoada e enferrujada. Isso porque o cano rachou, a água foi vazando (o que explica as gotas de morte líquida que se infiltravam na água quente) e enferrujou os filetes de cobre. O resultado é um monte de fios que praticamente desintegravam na minha mão e marcas de queimado ao longo do cano. Ou seja, só um milagre impediu a coisa toda de criar um curto-circuito que transformasse um apartamento repleto de objetos de plástico e papéis em uma bola incandescente de derrota. Deus existe e mora no meu banheiro. Essa última frase ficou ruim, né? Mas é isso, um descuido e uma desatenção e a coisa toda ficou destruída e condenada. Igual a quê mesmo?

O jeito é trocar o cano também, então toca para o supermercado para comprar o dito cujo. Tudo bem que você não está com pressa, porque é feriadão e tal, mas é realmente necessário que todos os velhos da cidade estejam à sua frente na fila?  (Parênteses: resisto a fazer a piadoca de que “entrei pelo cano”. Mentira, nem resisto tanto assim. Gastei parênteses à toa.) Cano comprado, toca de volta para o banheiro que, a essa altura, parece um cenário de Apocalypse Now, com água, fios e morte para todo lado. A morte, no caso, é da minha tarde de sábado. Aí encaixa o cano, hora de atarraxar a bagaça e… o cano quebra. O motivo é simples: você forçou demais a situação, com medo de que algo vazasse, e tudo o que você precisava era de suavidade e jeito. Há semelhanças com a vida, procede?

Toca para o supermercado, nova fila de anciãos, e o vazamento se espalha do banheiro para meu bolso. A essa altura, você começa a pensar se os franceses do estereótipo não estão certos e o banho não é tão importante assim, e é preciso economizar água porque o Amazonas está secando e todos esses canos de plástico vão demorar uns quatro milhões de ano para se decompor ou algo do tipo. Volta, encaixa o cano, atarraxa o chuveiro seguindo os ensinamentos de Mr Catra – “o processo é lento, o barato é louco e o bagulho é sério” – e agora vai.

Não, não vai. A água sai pouca, e fraca, e você se questiona se não seria sabotagem. Sei lá, você colecionou alguns inimigos ao longo da vida, nada garante que nenhum deles tenha feito um curso da Universia Brasil a partir de uma revista da Turma da Mônica e aprendido a mexer nesse tipo de coisa. Mas não é nada disso, é só o redutor que você mesmo tinha colocado antes achando que o vazamento estava associado à quantidade de água e seria necessário colocar o negócio, mas não precisa de redutor, então você tem de tirar tudo de novo para poder arrancar o redutor quase no tapa, e as coisas seriam mais fáceis se a gente identificasse o problema direito para dar a solução adequada e não resolvesse um problema que não existia, gerando um novo problema. Isso não acontece na vida de vocês?

Agora a água sai bonita e na quantidade esperada, mas o problema é que a próxima etapa é religar a fiação, e o revestimento externo colorido já está todo prejudicado pela ferrugem e pelo tempo, então não dá para utilizá-lo como base. São três fios, nada grave, mas você entende como o pessoal do departamento anti-bomba se sente. Com a diferença que eles provavelmente conseguem tomar um banho, se necessário. Você reza um pouco para o Deus que mora no banheiro e liga os fios, porque quem não arrisca não petisca, quem não deve não teme, etc, etc, e você não tem nada a perder, a não ser o chuveiro novo, dinheiro e o final da tarde de sábado em mais uma viagem ao que aparenta ser o supermercado com a maior concentração per capita de velhos da região. Essa é a minha vida, eu não sei a de vocês.

No fim tudo dá certo, e você se espanta, porque Fernando Sabino estava errado, e tudo dá errado no fim, se não deu é porque ainda não chegou ao fim. A água sai quente e agradável, o box continua te fazendo saber como o garoto de Platoon se sentia mas você não liga, porque tem água quente e a casa não pegou fogo. Você tem água quente, e não liga se há pessoas morando nas ruas e os políticos são corruptos e ela não está tão afim de você. Você tem água quente, e é tudo que importa no fim do dia, e é por isso que encanamentos mereciam a atenção de escritores melhores que roteiristas de filmes pornôs, autores de fan fictions do Super Mario e eu.

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Um dia

Um dia você acorda e se pergunta se errou em algum momento na vida. Olha para o teto escuro, para as quinas do quarto, e tenta entender se fez alguma escolha errada, se falou com quem devia, se falhou com quem não devia. Tenta ligar os pontos de toda uma história de vida que você nunca lembra como lembram as pessoas nos filmes e no quadro do programa de auditório, mas não consegue. E se pergunta se não seria este o erro.

Um dia você acorda e se pergunta quando errou na vida. Foi na escola, na faculdade? Foi depois, na escolha profissional, ou foi antes, nas brincadeiras de infância? Um livro lido na hora errada, um filme visto antes do tempo? Ou a falta disso? Foi ontem? Foi há um ano, há uma década? Há 4.859 dias? O teto continua escuro, mas a pupila se dilata e você começa a ver as parcas sombras trazidas pela luz da janela. Elas não se mexem, e você começa a se perguntar se elas não deveriam estar se mexendo. Aí você se pergunta se você não deveria estar se mexendo.

Um dia você acorda e se pergunta com quem errou na vida. E parece plausível, porque as pessoas não fazem sentido 90% do tempo – e fingem ter lógica nos outros 10%. E você lembra, mas não como devia, de todas as vezes que ouviu que você entendeu errado, que não era bem assim, que não foi isso que havia sido dito – e quantas vezes você mesmo disse isso. E se a intenção era sim a que você havia entendido, mas você acreditou no desmentido? E se as sombras de fato não devessem se mexer, e é bom que não estejam se mexendo ou haveria algo de muito errado acontecendo lá fora?

Um dia você acorda e se pergunta se errou, mas não nessa vida. Sei lá, numa vida passada você mandou matar pessoas, ou matou pessoas, ou foi morto num surto de ódio alheio. Aí você lembra que não acredita nessas coisas, e que não é bom pensar nesse tipo de assunto uma horas dessas, ainda mais com as sombras paradas no teto. Por que diabos tanta obsessão com as sombras?

Um dia você acorda e se pergunta se o erro pode ser consertado. Afinal, admitir que existe um erro é o primeiro passo para resolvê-lo, pregam os alcóolatras, anônimos e conhecidos. E você já passou por essa fase de admissão – tem uma medalha pra isso, não tem? – então agora é só resolver. Ou é preciso identificar antes? Não foi por isso que você acordou? Ou você acordou sem motivo aparente e depois se perguntou, e na verdade devia era para ter virado na cama e voltado a dormir, não pensar em besteiras. Não era para ter um barulho de vento?

Um dia você acorda e se pergunta se está errando agora. Não em acordar a essa hora, quando você precisaria estar dormindo para errar logo cedo no trabalho, mas num sentido mais amplo, num daqueles erros que começam como coisas pequenas e derrubam um avião ao final da cadeia. E você percebe que acordou com medo da Teoria do Caos, e de que ela seja verdadeira (provavelmente é), e que em algum lugar da Mongólia uma borboleta esteja batendo asas só para te fazer bater o carro ou contar uma piada absolutamente inadequada na hora errada ou dizer o que não devia para a mulher que acabou de conhecer e era a mulher da sua vida, mas que agora te acha um babaca. E você fica feliz que as borboletas estejam em extinção na Mongólia, porque elas batem asas o tempo inteiro, mesmo sabendo o que estão causando do outro lado, na sua vida. E você se lembra de como são as borboletas de perto, como pequenos alienígenas esquisitos, e se pergunta se a sombra da parede não seria de borboletas gigantes, batendo asas na sua janela, rindo baixinho das suas dúvidas. E fica feliz de que as sombras estejam paradas, porque esta ideia é perturbadora demais para te deixar novamente. Talvez pelo resto da vida.

Um dia você acorda e se pergunta se errou na vida. E, sem chegar a conclusão nenhuma, volta a dormir. Um erro.

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Marcelinho, o Opinioso, comenta: Meio tomate

Sabe o que é que tem cara de tomate, jeito de tomate, gosto de tomate, cheiro de tomate e cor de tomate, mas não é um tomate? Meio tomate.

O que é que envolve uma conspiração secreta pregressa, alteração direcionada de bases legais e jurídicas e criação de evidências, além da supressão do direito de defesa, mas não é um golpe de Estado? Meio golpe de Estado?

Meio tomate existe, meio golpe, não – ou pelo menos não como querem fazer parecer que tenha ocorrido no Paraguai. Meio golpe de Estado é aquele que se inicia, mas fracassa, não um golpe disfarçado. Golpe é golpe, não interessa a cobertura que se proponha, o visual que lhe seja dado.

Não sou especialista em Constituição paraguaia: francamente, não acredito que exista alguém fora do Paraguai que se enquadre nesta categoria. Seria como um especialista brasileiro na legislação boliviana para o combate ao crime organizado. Mas, pelo que li recentemente, a lei paraguaia foi alterada pouco antes do impeachment de Fernando Lugo justamente para regulamentar o tema deixado em aberto por uma Constituição bastante frágil. E o regulamento desrespeita qualquer valor democrático e justo que se conheça. Encampar este casuísmo como algo natural e constitucional é no mínimo ingenuidade e, no máximo, má-fé.

Pense o caro leitor: Lugo teve apenas um voto de apoio na votação do impeachment. Um único voto. Isso significa que o Congresso já havia se definido por punir o presidente. O que os impediria de alterar a lei (e mesmo a Constituição) para tornar crime os fatos que imputavam ao governante? Lugo poderia não só ter sido impedido, como condenado à prisão. Seríamos tão complacentes se isso ocorresse? Qual é a diferença?

Outra coisa: nos diz o Wikileaks que já circulava nos bastidores a intenção de grupos específicos do país em dar um “golpe parlamentar” em Lugo, exatamente como ocorreu. Aliás, rejeito as aspas – um golpe parlamentar é algo plausível, ainda mais em democracias representativas que estão em processo de amadurecimento, como as da América Latina. A sujeição das eleições a interesses e forças econômicas têm colocado os modelos da região em discussão: inclusive no Brasil, como indica a reforma política. Situações como a do Paraguai são exemplos de porque é válido realizar esta discussão.

Abro parênteses para um aspecto relevante. Se a Constituição não prevê o tempo adequado para o direito de defesa, a Constituição está errada, do ponto de vista moral, legal e jurídico, em qualquer país. O resto é sambarilove. Fecho parênteses.

Federico Franco, o meio tomate paraguaio

Federico Franco, o meio tomate paraguaio

Em síntese: é fácil dizer que o impeachment de Lugo não foi golpe porque foi dentro da Constituição e garantido por uma maioria praticamente unânime no Congresso. Difícil é falar isso a sério, e ainda mais comparando com outros casos da região. E, por favor, não usem a passividade da grande parte do povo guarani como argumento para a validade do que houve. O golpe militar brasileiro também contou com o apoio popular, e nenhum escândalo político nacional grave dos últimos 20 anos provocou passeatas consistentes. Isso os torna legítimos?

Um último detalhe: a diplomacia brasileira se meteu em uma senhora presepada nesta história. Fez certo em suspender o Paraguai, e errado em aceitar a adesão da Venezuela no Mercosul. Não dá para escolher a cláusula do contrato do grupo que está em vigor, e a da democracia vale para todo mundo. A Venezuela está longe de ser democrática, pelo menos não sobre os nossos valores para este tema. Não há razão lógica para conceder o mérito da dúvida do meio tomate ao venezuelano.

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