Experimento

Em um experimento científico, colocaram cinco macacos em uma jaula. Dentro dela, penduraram um cacho de banana numa corda e colocaram uma escada debaixo dele. Pouco depois, um macaco foi até a escada e começou a subir em direção às bananas. Assim que ele tocou na escada, todos os outros macacos foram pulverizados com água gelada. Após um tempo, outro macaco fez uma tentativa com o mesmo resultado, e todos os outros macacos foram pulverizados com água gelada. Em pouco tempo os macacos tentaram impedir que isso aconteça.

Macacos experimentais.

Macacos experimentais.

Aí deixaram a água gelada de lado. Removeram um macaco da jaula e substituíram por um outro. O novo macaco viu a banana e tentou subir na escada. Para sua surpresa, todos os outros macacos o atacaram. Após outra tentativa e ataque, ele descobriu que, se tentasse subir na escada, seria atacado.

Em seguida, removeram outro dos cinco macacos originais e colocaram um novo. O recém-chegado foi à escada e foi atacado. O novato anterior participou da punição com entusiasmo! Da mesma forma, trocaram o terceiro macaco, e o quarto, e o quinto – sempre com os ataques. Ao fim, mesmo com nenhum dos macacos originais na jaula, ninguém tentava pegar a banana.

Moral da história: ser macaco é uma merda.

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Bonde do Braço

Tem protesto previsto para este sábado em São Paulo. Até aí, nenhuma novidade bombástica. De novo mesmo, só temos black blocs intimados para estarem na delegacia na hora do protesto e a Tropa do Braço, certo? Errado. Tropa do Braço é o nome formal. Na verdade, o nome interno na corporação é Bonde do Braço, e os caras vêm com trilha sonora própria para motivar a galera. É claro que você vê aqui, antes, com exclusividade, a letra do que vai bombar nas caixas de som de todos os blindados paulistas neste sábado. E se você é um alienígena que não frequentou a Internet nas últimas semanas e por isso não reconhece a melodia, aqui a música pra cantar junto.

Bonde do Braço

Flagrante de treinamento da Tropa do Braço

“Mais um protesto vai fazer minha tarde longa
Tá demorando pra que percebam nossa vitória
Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba
Se black bloc chegar perto vai virar história

Pego dois deles, faço eles de escudo
Chora mais alto que daqui eu não escuto
Do camarote o secretário nem vai ver
Tá virando a cara, tá falando pra TV

Sou meio covarde, mas tô pronto pro combate
Olha minha farda e segura o seu recalque
O meu sensor de fefeleche explodiu
Pega seus direitos e vai pra (rala aí, ô seus mandado)

Eu dou no ombro pro protesto ficar longe
Eu dou de ombro pra imprensa que tá de plantão
Eu dou no ombro se não há arrego pro bonde
Eu dou no ombro pra mostrar disposição…”

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Meu caro amigo

 

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe mando carta escrita
Mas inventaram um tal de computador
E a internet facilita

Aqui na terra todo mundo está alerta
Todo dia tem uma nova carta aberta
E a plateia vai ficando boquiaberta

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muito artista confuso na situação
É gente censurada defendendo a censura
É gente que foi perseguida pela ditadura
Com argumento rés-de-chão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar na Paula a fúria
Mas acontece que não posso me furtar
A fazer troça da lamúria

Aqui na terra atinge até o futebol
Censuram fatos de astro do rock’n’roll
Querem que histórias nunca cheguem à luz do sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita gente que depende de livre expressão
Que sempre tirou grana da fama de que desfruta
Agora diz “privado é coisa absoluta”
E se apega à negação

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas sei que és meio arredio
Que jornalista precisa muito esperar
Por uma fala de esguio

Aqui na terra estão gritando pela rede
Tão colocando toda a turma na parede
Dá pra sentir no povo do seu sangue a sede

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Vai ser preciso o supremo tribunal
Julgar o meu direito de contar a sua história
E o seu de alegar que é versão difamatória
E cobrar de mim o real

Meu caro amigo eu bem queria escrever
Também o que penso em um artigo
Mas um espaço aberto desse disponível
Só tem quem tem jornal amigo

Aqui na terra ainda é coisa de escória
Negar gravado e ter de dar a mão à palmatória
Talvez o caso de remédios pra memória?

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Pêra (do Collor) agora anda entre os seus
Beijo no Gil, no Caê e nas crianças
E no Robertão, que também nega as lembranças
A todo o pessoal
Adeus

 

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Mídia fascista sensacionalista

Fui a três manifestações populares em Brasília desde o começo da semana. E foi a partir delas, e expressando tão somente minha opinião como pessoa física, que escrevo estas palavras.

Me impressiona o desapego das pessoas pela imprensa livre. Nas manifestações, poucos gritos eram tão ecoados quanto “mídia fascista, sensacionalista”. Sempre sem reprimenda ou contestação. Isso me incomodava tanto que acredito que as únicas coisas a me impedir de gritar algo em resposta eram o bom senso e o instinto de autopreservação.

Manifestante protesta contra veículos de comunicação. (Fonte: Uol)

Manifestante protesta contra veículos de comunicação. (Fonte: Uol)

A mídia erra, como todo mundo. Jornalistas são humanos, e as empresas são formadas por jornalistas. Temos convicções, ideologias e idiossincrasias que adoraríamos deixar em casa ao ir para o trabalho, mas isso não é possível. Então tentamos reduzir seu efeito, diuturnamente, para que a informação que transmitimos seja a mais completa possível, para que nossa missão social final se realize: dar condições ao eleitor para decidir. Levar a ele o máximo de informação possível, da melhor forma possível. É isso que fazemos, é para isso que existimos. Os erros, se acontecem, são com a intenção do acerto. Acreditem, eu já errei, e nunca foi proposital.

E quando acertamos? Os que gritam contra a corrupção, de quantas denúncias publicadas pela mídia se lembram? Quantos casos históricos de ladrões do erário foram desmascarados por nossas canetas? Quantos políticos ruins sumiram após nossas imagens? Aos que defendem mais educação, quanto esforço não fazemos por mais recursos para a área? Quantas pesquisas publicamos, quantas cobranças fizemos? Quantos hospitais em petição de miséria denunciamos em prol de uma saúde melhor? Por mais transporte, mais segurança, mais respeito aos direitos humanos?

Ninguém sofreu mais com o fascismo do que a mídia. Quantas áreas tem profissionais tolhidos de seu trabalho por regimes autoritários? Não confundam: a mídia favorável ao regime autoritário não é imprensa, mas propaganda, seja por sua vontade ou não. Chamar nossa imprensa livre de fascista é tão sem sentido quanto chamar um médico de carrasco.

Ninguém sofre mais com o sensacionalismo do que a boa imprensa. Nosso trabalho diário passa por dilemas entre sobreviver no mercado competitivo e alimentar o círculo vicioso dos que preferem a imagem sangrenta ao noticiário político relevante. Quando o público critica a informação política ao optar pelo relato puro e simples de mais um crime, faz mais do que uma só opção: opta também pela ignorância e por abrir mão de preciosos recursos para tentar controlar o seu destino e o destino de um país.

Não faço parte da mídia fascista sensacionalista. Faço parte de uma imprensa livre que precisa esconder o orgulho do que faz, fingir que não é para o que estudou e sonhou ser, para tentar garantir que nenhum abuso ocorra contra quem se manifesta, ou que os que ocorram sejam punidos. Que teme pela própria segurança ao ouvir um turbilhão de gente que a chama de fascista e que estaria disposta a calá-lo à força se discordar de suas ideias – um dos cernes justamente do fascismo. E que faz tudo isso com gosto e não se arrepende um dia sequer, porque está tentando fazer seu papel por uma sociedade mais justa. Mesmo que alguns não queiram que você participe.

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Hakuna matata*

- Olha, Simba. Tudo que o sol toca é o seu reino.
- Uau!
- Um dia, Simba, o sol vai se pôr no meu tempo aqui, e você será o novo rei.
- E tudo isso vai ser meu?
- Tudo.
- Tudo, até onde o sol bate?
- É.
- Então, pai, sobre isso…
- Que foi?
- O que o senhor diz por “meu”?
- Como assim?
- Quando você fala que vai ser meu…
- Isso, vai ser seu.
- Mas é muita terra.
- Sim.
- Inclusive muda o tamanho, porque o sol vai andando, né?
- Sim, Simba, mas é mais ou menos até onde o sol está batendo agora.
- Hum… Mesmo assim, é muita terra, né? E eu nem sei plantar.
- Mas é seu reino.
- Pois é, sobre isso que eu queria falar com o senhor. Eu não curto muito essa história de reino, sabe?
- Que isso, garoto?
- É, pai. Sei lá, essa coisa de monarquia está meio ultrapassada, não? Ninguém mais tem rei hoje em dia. Só os europeus, mas eles ouvem a mesma música desde o século XIV…
- Mas, Simba, é o seu direito natural.
- É mesmo, pai? Por que o rei não pode ser, sei lá, um gnu?
- Gnu, Simba?
- É, pai, um gnu. São animais majestosos, ágeis, atléticos, que cuidam do próprio rebanho.
- Que porra de gnu, Simba? Você quer um rei gnu?
- Não, pai. Estava pensando mais em algo como, sei lá, um primeiro-ministro gnu. Um presidente gnu!
- Porra de presidente gnu, Simba! Você quer uma eleição agora?
- É justo, não?
- Claro que não, garoto. Nós somos leões, temos o direito natural de reinar na selva.
- Mas essa é uma tradição opressora, pai.
- Tradições são tradições, filho.
- É por isso que você não aposenta o Rafuko?
- Como é?
- O senhor acha que as pessoas não notam, mas o Rafuko já está velho, beirando os 30 anos. Devia estar aposentado há pelo menos uns seis, mas o senhor não deixa. Inclusive colocou ele para me segurar no dia em que eu nasci, na beira do precipício. Meio Michael Jackson, não?
- Era a tradição, moleque.
- É tradição tentar matar o próprio filho?
(rosnando)- Simba!
- Aí, o rosnado. Nunca vou entender isso. Precisa amedrontar as pessoas? Não me surpreende que tenha tido toda aquela ceninha no dia em que eu nasci. Todo mundo ajoelhando lá em baixo do morro, o senhor achando que era reverência. É medo!
- Que tenham medo, eu sou o rei Leão! E você um dia será também!
- Tá vendo? O senhor nunca me ouve!
- Desculpa, eu esqueci dessa história. Mas eu nunca te vi reclamar disso antes, garoto. Que que te deu?
- Nada, ué, eu andei pensando.
- Foi o Deivid?
- Você sabe do Deivid?
- É claro que eu sei do Deivid, todo mundo fala sobre isso o dia inteiro na minha cabeça. “O princípe Simba é amigo de um veado”.
- Puro preconceito, pai.
- Preconceito nenhum, garoto, já te falei que não gosto de te ver andando com os veados. Essa coisa de flores na cabeça me irrita desde o Bambi.
- Credo, pai.
- Credo o que, moleque? Você tem que entender que você é um leão! Os leões comem os veados!
- O QUÊ?
- Sim, os leões comem os veados!
- Como assim, pai? Você me disse que a carne que a gente come é importada, de uma fazenda japonesa!
- Eu menti, garoto, você era muito novo para saber a verdade. Mas se eu soubesse que você ficaria andaria com veados, teria dito a verdade!
(chorando)- Quer dizer que eu como animais mortos? Meu Deus! Eu… eu… eu te odeio! (sai correndo)
- Simba!
(ao longe, ainda chorando, o filhote grita)
- É por isso que o tio Scar é muito mais legal que você! (e foge)
(*inspirado em ideia de Vitor Matos, autor do parcamente atualizado, mas muito qualificado, O Furor.)

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Somos cúmplices

Em abril de 2012, o Supremo Tribunal Federal considerou que aborto de anencéfalos não é aborto, portanto não é crime.Por um mecanismo jurídico, a decisão do Supremo vale para qualquer processo judicial semelhante ao originalmente analisado, em qualquer instância. Na prática, reduz o número de processos que chegam ao Supremo e que ficam tramitando por aí. É um recurso útil.

O problema é que isso nunca foi bem visto pelo Congresso. Para muitos parlamentares, o que o Supremo faz quando cria uma súmula vinculante é legislar, invadindo a seara do Parlamento. E quando trata-se de um assunto polêmico assim, como o aborto, o ódio só aumenta. Isso porque as bancadas religiosas têm força para barrar o tema no Congresso, mas não têm como impedir o STF de se decidir sobre o assunto de forma contrária às crenças que defendem.

O que fazer? Infernizar a vida do Supremo. Horas após o julgamento do Supremo, ouvi da boca de um deputado federal que eles atuariam para aprovar uma PEC que permitisse ao Parlamento suspender decisões do STF que invadissem a competência legislativa. “O que me indigna é o Supremo agir com ativismo judicial e ao mesmo tempo das principais lideranças do Parlamento não terem essa percepção. Eu acho que a nossa reação não é contra o Supremo, é a favor da democracia e do Estado de Direito. [Sobre a PEC] Achamos que ela é extremamente fundamental dentro deste princípio do equilíbrio entre os poderes.”

João Campos

Deputado João Campos (PSDB-GO), líder da Frente Parlamentar Evangélica, relator da PEC 33/11 e cavalgadura mor já exportada por Goiás para o Congresso. (foto por Luis Macedo/Câmara dos Deputados)

O deputado era João Campos (PSDB-GO), líder da Frente Parlamentar Evangélica. E ele não estava brincando: no fim daquele mês mesmo, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou a PEC 3/2011, de Nazareno Fonteles (PT-PI), que dava ao Congresso Nacional a possibilidade de sustar “atos normativos  de outros poderes que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de delegação legislativa”. Para o deputado, isso significaria que um decreto legislativo aprovado pelo Congresso poderia barrar o efeito, por exemplo, da decisão do Supremo que autorizou a união civil estável entre homossexuais. Talvez ele estivesse errado sobre o alcance, mas era algo a se acompanhar: que outras medidas estes senhores querem aprovar? Isso não ocorreu, sabe-se lá porque.

Os nomes lhe soaram familiares? É porque são. Fonteles é autor também da PEC 33/2011, recentemente aprovada na mesma CCJ. O texto cria dificuldades para declarações de inconstitucionalidade pela Suprema Corte de emendas à Constituição e submete súmulas vinculantes a apreciação do Congresso, que poderia derrubá-las. O relator da dita cuja? João Campos. A aprovação causou furor e uma crise institucional entre os Poderes Legislativo e Judiciário, com troca de farpas e reuniões secretas para acalmar os ânimos, num daqueles espetáculos que só Brasília sabe proporcionar.

Nazareno é um homem irritado com o Supremo. Na justifica da PEC, diz que “as decisões proferidas [em súmulas vinculantes] carecerão de legitimidade democrática porque não passaram pelo exame do Congresso Nacional. Estamos, de fato, diante de um risco para legitimidade democrática em nosso país. Há muito o STF deixou de ser um legislador negativo, e passou a ser um legislador positivo. E diga-se, sem legitimidade eleitoral. O certo é que o Supremo vem se tornando um superlegislativo”. Volta e meia ele aparece com um projeto ou discurso nesse sentido, de que a Suprema Corte é poderosa demais. (spoiler para o deputado: tem que ser, é a Suprema Corte) Mas Nazareno é insignificante. Em geral, fica nos subterrâneos com projetos sobre uma maluquice como Limite Máximo de Consumo, Poupança Fraterna ou a criação do Dia do Vaqueiro. É um suplente sem expressão no partido ou no Parlamento. Um nada político.

Nazareno Fonteles

Nazareno Fonteles (PT-PI), suplente de deputado e mal-intencionado de ocasião. (Foto de Luis Macedo/Câmara dos Deputados)

João Campos, não. O PSDB pode até não colocá-lo em sua vitrine, mas ele é nome forte no Parlamento pela frente evangélica que lidera, com um sétimo dos parlamentares e uma base eleitoral leal e ativa. E ele está tão irritado quanto Fonteles com o Supremo. Diz seu relatório sobre a iniciativa: “previne-se [...] a hipertrofia dos poderes do Supremo Tribunal Federal, evitando que atingissem, desmesuradamente, as instâncias que lhe são inferiores e, no limite, o cidadão e as pessoas jurídicas, haja vista o alcance da súmula e o seu efeito vinculante sobre as decisões administrativas e judiciárias”. Junte isso ao discurso lá em cima e você terá alguém que quer dar um sossega-leão no STF.

E é por isso que escrevo sobre o tema. Me incomoda a situação atual, de atirarmos no que estamos vendo e sermos baleados pelo que não vemos. Desde que a PEC 33 foi aprovada pela CCJ, todos que trataram do assunto transformaram o ato numa suposta vingança de mensaleiros contra o Supremo que os condenou, pela presença (que me parece ilegítima) de dois deles na comissão, tendo votado a favor do projeto. Besteira. O assunto tramita desde antes da condenação dos envolvidos no mensalão pelo Supremo, é bandeira de gente de governo e oposição há anos e teve o apoio de partidos de todas as esferas. Como pode ser algo novo, aprovado em resposta? E a PEC 3/11, era uma retaliação prévia? Ataque preventivo?

Pode a aprovação da excrescência ter contado com uma ajuda vingativa do PT, que quer o couro da moçada da toga? Pode. Mas não seria suficiente, se fosse bandeira particular de meia dúzia de safados. É uma retaliação, sim, planejada, sim, mas de quem se organiza para ter força no Congresso e acaba se sentindo atropelado pelo Supremo. Com ênfase notória na bancada evangélica, que espertamente se aproveitou do palhaço-suplente à disposição. Isso está claro, transparente a quem quiser ver. Não parece óbvio?

Quando nos dispomos a transformar tudo em mais um episódio do vale-tudo mensaleiros x mundo civilizado, jogamos a luz no que queremos ver e ignoramos o que acontece no subterrâneo. É assim que projetos como esse são aprovados: na maciota, no subterfúgio, com a culpa sendo jogada em quem convém. E se não buscamos os verdadeiros responsáveis, não somos vítimas – somos cúmplices.

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Mártires

Jair Bolsonaro é eleito e reeleito deputado federal desde 1990. Começou como um militar defendendo os direitos dos militares e a “Revolução” de 64. Representava uma bandeira minoritária, mas com força para eleger um representante. Tinha lá suas polêmicas, mas pouca força, apesar de muitos votos. Tanto que foi perdendo votos: de mais de 110 mil em 94, caiu para cerca de 100 mil em 98 e menos de 90 mil em 2002.

Daí em diante, voltou às vitrines do sucesso. Sucessivas guinadas à direita o colocaram na mira dos defensores dos direitos humanos: qualquer declaração mais agressiva respaldada na imunidade parlamentar lhe rendia semanas de exposição gratuita. Se a “classe média instruída” o condenava como um troglodita racista e homófobo, as pessoas que concordavam mesmo que parcialmente com suas ideias e não o conheciam tinham acesso ao que ele defendia. Em 2006, ele voltou à casa dos 100 mil votos, até bater recorde em 2010, com 120 mil votos.

Bolsonaro é suplente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Já foi titular em outras legislaturas. Já criticou e ajudou a embarreirar muitos projetos considerados importantes por defensores dos direitos humanos. Faz isso porque defende uma bandeira que lhe rende apoio popular e votos. É um representante democraticamente eleito de uma parcela da população que concorda com seus valores e que tem tanto direito a voz e voto quanto todo o resto. Democracia é pra todo mundo.

Marco Feliciano foi eleito deputado federal em 2010 com mais de 220 mil votos. Representa principalmente os evangélicos, que compõem uma parcela pequena da população brasileira, em termos proporcionais, mas com um lobby muito organizado. Tanto que elegeram 1 em cada 7 dos atuais deputados federais, que se distribuem nas comissões com mais influência nos assuntos por que se interessam: políticas para drogas, aborto, minorias. Eles são praticamente maioria na Comissão de Direitos Humanos, tanto que elegeram o presidente. Estão também na Comissão de Seguridade Social e Família e na CCJ, onde podem no mínimo atrasar e no máximo barrar basicamente qualquer projeto aos qual sejam contrários.

A pressão pela saída do deputado da presidência da CDH é legítima? É. É catártica? É. Mas é ineficaz, por um lado, e perigosa, do outro. Ineficaz porque, mesmo que ele saia, o grupo que o elegeu já tem força suficiente para barrar o que quiser na comissão. Fora que, obrigatoriamente, o novo presidente viria do mesmo grupo: talvez alguém que fale menos, mas que pensa igual. Fica bonito na foto, mas o resultado é mesmo. E perigosa porque transforma o pastor numa vítima. Observe as imagens recentes envolvendo o caso. São sempre de um homem sereno, que tem a palavra cassada por manifestantes que gritam e empunham faixas. É essa a imagem que ficará na cabeça de quem o apoia, e que ele soube usar muito bem em um vídeo: a de que estão perseguindo o defensor da família e dos bons costumes. Isso cola, amigos, e cola bonito.

Se Feliciano sair, não teremos ganhado uma guerra. Não teremos ganhado sequer uma batalha. Só teremos criado um mártir. E, Deus, nós sabemos como as pessoas gostam de um bom mártir. Eu esperaria no mínimo 300 mil votos em 2014. Talvez um senador?

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