Delenda Marina!

Normalmente não voto por causa do trabalho, que me impede de estar na minha terra na eleição (e me recuso a mudar meu voto para Brasília. Aqui sou só eu, é pouca gente demais para meu voto interferir. Em Goiás, meu voto pode ajudar a dar uma condição melhor para minha família, e é o que importa), mas este ano não foi nenhum sofrimento. Isto porque sigo uma regra muito própria, de voto por convicção no primeiro turno, voto útil no segundo. E este ano não tinha um candidato sequer, em qualquer dos cinco cargos disponíveis, que tivesse me feito achar que eu deveria atuar ativamente pela eleição

Tomaz Silva/Agência Brasil)

Tomaz Silva/Agência Brasil)

Já pro segundo turno, já tinha me decidido. Acreditava que teríamos Dilma e Marina, e estava disposto a votar na Marina, apesar de todas as minhas ressalvas a ela – e acreditem, não eram poucas. Por que? Porque o petismo que conheci quando garoto, que defendi na adolescência e no começo da juventude, desapareceu. As bandeiras progressistas foram abandonadas, as alianças espúrias elogiadas, e a política econômica virou algo lovecraftiano, que tornaria uma mente insana só de tentar entender para explicar.

Mas até aí eu aguentava, até aí eu defendia pontos dos 12 anos de governo. Só que a campanha jogou a pá de cal. O partido que me fez ouvir muito terrorismo quando garoto se entregou ao terrorismo de campanha. O partido que passou medo na Regina Duarte só faltou contratá-la para dizer que ela tinha medo da Marina. Foi como se o PT tivesse sido tomado pelo espírito de Catão, o Velho. “Delenda Marina!”. Marina deve ser destruída. Era a última frase, implícita ou não, em todo discurso petista. Se consideram “do jogo” ou “coisa de campanha”, como insistem alguns amigos, me é indiferente. A mim imediatamente lembrou uma frase do Ayres Britto no julgamento do caso Arruda: “Há quem chegue às maiores altura, só para cometer as maiores baixezas”. Delenda Marina! Atacar um quadro histórico do partido desta forma, alguém que teve de deixar o partido por perder espaço ao defender as bandeiras clássicas da legenda, da forma como se atacou… Minha tolerância acabou.

Mas aí… veio o Aécio. E o PSDB. E toda a memória do período entre 1995 e 2002: tudo pelo que minha família passou, as dificuldades de uma família de classe média baixa no interior do país, numa daquelas grandes cidades pequenas. As medidas fundamentais para recuperar a economia e combater a inflação – e que bagunçaram completamente nossas finanças pessoais. Depois, tudo a que o partido se opôs no governo seguinte enquanto não percebia que estava indo contra a população – e que passou a apoiar quando viu que dava voto. E tudo que eu vi e ouvi dos tucanos desde que comecei a trabalhar com política. E aí as coisa começaram a se confundir: eu vejo tucanos como petistas, eu vejo petistas como tucanos. Tão diferentes, tão iguais.

Não sei em quem votar no segundo turno. Nada que eu faça vai ajudar a combater o mal maior, porque eu não consigo mais dizer se o mal maior realmente é o que eu penso. É como se eu estivesse com a arma na mão em um daqueles filmes em que um gêmeo bom e um gêmeo mal se engalfinham até eu não saber quem é quem. E eu tenho minhas dúvidas de que perguntas resolvam, porque as respostas serão sempre destinadas a me fazer atirar no outro. Meu voto útil se tornou inútil na minha mão antes mesmo de tocar as teclas da urna eletrônica. Aos berros de “Delenda Marina”, o PT destruiu não só a ex-companheira. Destruiu meu resto de crença em algumas bandeiras do partido, minha esperança de que a política estivesse evoluindo no país, e um pouco da minha fé na humanidade. Parabéns a todos os envolvidos.

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Um conto eleitoral

A mãe de Ebenezer acreditava em numerologia, e era essa a explicação que o rapaz repetia, num suspiro de lamentação, quando perguntavam o motivo do nome exótico. Já Ovelha não era sobrenome, mas sacanagem mesmo: Ebenezer ganhou a alcunha de um desafeto na faculdade, que ria do garoto distraído que vivia seguindo os amigos onde quer que fossem. No começo foi um problema, mas quando o apelido pegou, ele desistiu de brigar – se todo mundo usava, alguma razão havia de ter.

Era nisso que o entediado Ovelha pensava na noite de 4 de outubro. Mentira, ele não pensava nisso. Sequer sabia se pensava. Distraído por algum vídeo de gatos no computador, evitava há três dias qualquer uma das infinitas páginas carregadas de debates políticos que dominavam a internet. Ebenezer odiava o período eleitoral: quanto mais perto do dia da votação, mais os ânimos se acirravam, mais debates surgiam e o pior, mais pediam sua opinião. Ebenezer odiava dar sua opinião. Ebenezer odiava ter uma opinião. Se pudesse, o jovem abriria mão do livre-arbítrio, mas quando foi questionado sobre um professor acerca do que pensava do livre-arbítrio, fingiu uma diarreia e saiu de sala.

Era sobre isso, portanto, que não pensava Ebenezer quando a luz de seu quarto se apagou. Maldizendo mais uma vez a empresa de energia, começou a procurar por uma lanterna nas gavetas quando ouviu um assobio gelado vindo da janela. Enquanto os cabelos da nunca do rapaz se eriçavam, um festival de luzes pipocou por todo o quarto, até se juntarem em uma única imagem. Era seu tio, Roberto.

 

- Porra, tio, susto do cacete. Que que tu tá fazendo aqui?
– Te visitando, garoto. Mas você não está esquecendo de nada?
– Tipo o que?
– Que eu estou morto, por exemplo?

 

Era verdade. Ebenezer deu um pulo pra trás, com o susto de ver o tio morto há pouco menos de um ano, ali, na frente. Depois de improvisar um esconderijo medíocre atrás da cômoda, voltou a criar coragem de olhar em direção às luzes. Seu tio ainda estava lá, com cara de entediado.

 

- Acelera, garoto, não tenho todo o tempo do mundo. Vim aqui só pra te dar um aviso. Tu ainda é chamado de Ovelha pela molecada do teu colégio?
– Faculdade agora, tio. E sou.
– Pois isso muda hoje. Mexi uns pauzinhos lá em cima e consegui autorização para te darem uns toques. Chega dessa vida de seguidor. Se prepara que hoje a noite vai ser animada.

 

Ebenezer preferia não ter ouvido aquilo. O conceito de animação de Roberto sempre fora diferente do seu: o tio adorava desfiar um repertório de manifestações da qual tinha feito parte ao longo da vida. Diretas Já, caras pintadas, basicamente qualquer protesto que envolvesse gritaria e bate-boca. Até nos jantares de família, Roberto era conhecido por manifestar opiniões até contrariar alguém. Morrera justamente por conta de um infarto ao saber que uma manifestação no Rio havia levado 1 milhão de pessoas às ruas.

 

- Então, tio, não vai rolar. Tenho uns trabalhos de faculdade e…

 

As luzes ficaram mais fortes e a voz do tio se tornou um trovão.

 

- Não tente fugir, Ebenezer! Saiba que nenhum arrependimento está à altura de uma oportunidade perdida. E é disso que se trata tudo isso: oportunidades! Amanhã você terá uma oportunidade, e uma oportunidade à qual você tem renunciado há muito tempo. Não mais!

 

E sumiu como havia chegado, com a luz voltando a ocupar o quarto aos poucos e um assobio gelado saindo dos pêlos de Ebenezer em direção à janela entreaberta. O garoto esfregou os olhos, viu os gatinhos na tela do computador e concluiu que estava delirando. E tudo isso sem fumar nada! (ele não consumia nada ilegal, mas preferia evitar uma opinião sobre a legalização das coisas)

Ovelha lamentaria ter tirado uma conclusão sobre o delírio pouco depois. Quando mudava dos gatinhos para uma pornografia básica, sentu novo arrepio. A luz de seu quarto mudou aos poucos, assumindo um tom azul. Ouviu um farfalhar de asas, e por baixo da porta entrou um pó branco, que aos poucos assumiu uma forma éterea. Ebenezer tossiu, nervoso, ao ver diante de si uma criatura meio homem, meio pássaro, com um longo bico.

 

- Ebeneeeezer! – a criatura ecoou bem o meio do nome, para parecer mais profético- Eu sou o espírito do governo passado!
– Mas hein?
– Sim, o espírito do governo passado!
– E o que eu tenho com isso?
– Tuuuudo, Ebenezer! Pois eu estou querendo voltar! E dependo de você para isso!
– Mas pra que você quer voltar?
– Para desfazer os males do presente, Oveeeelha! Para retomar os Fundamentos da economia, defender a Honestidade e os valores do Capitalismo de mercado!
– Isso parece bom. Mas o Luizinho vive dizendo que vocês acabaram numa crise econômica, que seu partido tem pelo menos três escândalos recentes e a desigualdade de renda está caindo agora em comparação à sua época?
– Não se susteeeeenta, Ebenezer! É preciso mudar o que está aí! Lembre-se diiiiisso!

 

Enquanto ainda ecoava a última frase, o espírito voltou a se desfazer em pó e se dissipou pelo quarto num vento que sibilava baixinho “Armíiiiniiiio”. Ovelha sentiu um frio na espinha, mas já estava sentindo frio na espinha desde o começo de toda aquela palhaçada. Nem se incomodou.
Após todo o espetáculo, as coisas nem chegaram a voltar ao normal. No quarto escuro, ainda atordoado pelo que acontecia, o rapaz ouviu batidas na porta. Uma. Duas. Ebenezer não queria abrir. Quatro. Sete. Na décima terceira, Ovelha não aguentou e abriu.

A figura que entrou era, por falta de definição melhor, exótica. Meio curvada, coberta por um manto escarlate, se arrastou lentamente para dentro do quarto. Arrastava pesadas correntes, na qual o garoto leria “Material genuinamente brasileiro” se não estivesse num breu completo, como se faltasse energia. Ao fim das mesmas, um poste impedia a criatura de se mover mais rapidamente. Até que ela desistiu. Sem levantar a cabeça, começou a falar. A voz soava hesitante e levemente irritada.

 

- Ebenezer, você sabe quem sou eu?
– O fantasma do governo presente?
– Como é que você sabe?
– Eu li Dickens na escola. O que você quer?
– O que todo mundo quer. Seu voto.
– Mas por que eu votaria em você?
– Olha, no que se refere a governo, o meu foi o melhor. Bom, juntando o meu e o do meu antecessor. Eu segurei a economia na crise. Bem, eu e meu antecessor. Cuidei do social. Bem, eu e meu antecessor. Tirei milhões da miséria, botei médico nos hospitais do país todo. Esses fui só eu!
– Mas se você cuidou da economia, porque todo dia meu pai reclama que a comida está mais cara? E olha que meu pai votou em você e no seu antecessor! Fora que o Zé me contou que vocês tiraram da miséria mudando o critério de miséria. Pô, aí, até eu. Posso passar de ano reduzindo a nota mínima?
– Meu filho, olha aqui. O IPCZB-2 de junho caiu zero vírgula dezoito pontos percentuais. Isso prova que a economia está se recuperando da crise internacional causada pela seca de gols na Copa. Agora larga de ser pessimista e vota na gente, tá bem?
– Sei não, sabe? O Fernando estava mó revoltado ontem, falando que vocês estão aí há muito tempo, abraçados com todo mundo das antigas, que talvez seja hora de mudança…

 

A aparição soltou um grito medonho. O vizinho da direita diria no seguinte ter sido “João”, mas o da esquerda garantia ser “Santana”. Enfim, para que servem os vizinhos?

 

- Não diga isso, meu querido! Você não sabe o risco de aparecer alguém sem experiên…

 

E antes que acabasse a frase, um fio entrou pela janela e começou a rodear a aparição. Depois outro, e mais um. Parecia algo reciclado, meio orgânico, mas estava escuro e nem a aparição nem Ebenezer quiseram arriscar o que era exatamente aquilo. Por fim, os fios começaram a chegar às centenas, lentamente enredando o fantasma do governo presente. Que resolveu ir embora antes que começassem a surgir perguntas.

Aos poucos, a rede começou a tomar forma. Era uma figura humanóide fininha, com voz de balão hélio. Sua coloração oscilava entre o vermelho e o azul, dependendo da luz que batesse. Às vezes amarelava. Ovelha achou que tivesse ouvido música gospel enquanto tudo acontecia, mas poderia ser o vizinho da esquerda. O que tinha ouvido Santana.

 

- Ebenezer! Você me chamou?
– Eu não chamei ninguém, vocês que insistem em vir aqui. Por mim, nem votava. Você é…
– O fantasma do governo futuro!
– Eu ia chutar o fantasma das manifestações passadas.
– Quase! Eu fui invocada pelo desejo de mudança geral! Foi providência divina!
– Acuma?
– E então, tenho seu voto?
– Não sei. O que você defende pra economia?
– Um pouco de liberalismo, um pouco de intervencionismo. Onde for preciso.
– O Giba disse que essa conta não fecha, os dois são muito diferentes. E nas alianças?
– Governar com os melhores de ambos os lados.
– Credo, mas é tudo nessas ideia de opostos?
– Não é polarização. Eu só acho que precisamos esquecer a velha política.
– Mas aí quem vai governar com você?
– Os melhores dos partidos.
– Dos partidos da velha política?
– Sim.
– Dos mesmos caciques?
– Isso.
– Hum.
– E então, tenho o seu voto?
– Quase. Só me diz mais uma coisa, e eu vou formar minha opinião sozinho, pela primeira vez na vida. O Timóteo, que trabalhava pro meu tio, é um gato. Estou pensando em dar uma ligada pra ele e tal. Se rolar, no futuro, eu e ele poderemos nos casar e ter dois filhos e um cachorro?
– Errr…
– Poderemos?
– Peraí, deixa eu puxar minha Bíblia aqui. Vamos ver… (folheando ao acaso). Aqui, Levítico, 20:13. Hum. Hummm. Então. Acho que tô com um problema de revisão aqui no meu exemplar. Posso te retornar em janeiro?

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Experimento

Em um experimento científico, colocaram cinco macacos em uma jaula. Dentro dela, penduraram um cacho de banana numa corda e colocaram uma escada debaixo dele. Pouco depois, um macaco foi até a escada e começou a subir em direção às bananas. Assim que ele tocou na escada, todos os outros macacos foram pulverizados com água gelada. Após um tempo, outro macaco fez uma tentativa com o mesmo resultado, e todos os outros macacos foram pulverizados com água gelada. Em pouco tempo os macacos tentaram impedir que isso aconteça.

Macacos experimentais.

Macacos experimentais.

Aí deixaram a água gelada de lado. Removeram um macaco da jaula e substituíram por um outro. O novo macaco viu a banana e tentou subir na escada. Para sua surpresa, todos os outros macacos o atacaram. Após outra tentativa e ataque, ele descobriu que, se tentasse subir na escada, seria atacado.

Em seguida, removeram outro dos cinco macacos originais e colocaram um novo. O recém-chegado foi à escada e foi atacado. O novato anterior participou da punição com entusiasmo! Da mesma forma, trocaram o terceiro macaco, e o quarto, e o quinto – sempre com os ataques. Ao fim, mesmo com nenhum dos macacos originais na jaula, ninguém tentava pegar a banana.

Moral da história: ser macaco é uma merda.

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Bonde do Braço

Tem protesto previsto para este sábado em São Paulo. Até aí, nenhuma novidade bombástica. De novo mesmo, só temos black blocs intimados para estarem na delegacia na hora do protesto e a Tropa do Braço, certo? Errado. Tropa do Braço é o nome formal. Na verdade, o nome interno na corporação é Bonde do Braço, e os caras vêm com trilha sonora própria para motivar a galera. É claro que você vê aqui, antes, com exclusividade, a letra do que vai bombar nas caixas de som de todos os blindados paulistas neste sábado. E se você é um alienígena que não frequentou a Internet nas últimas semanas e por isso não reconhece a melodia, aqui a música pra cantar junto.

Bonde do Braço

Flagrante de treinamento da Tropa do Braço

“Mais um protesto vai fazer minha tarde longa
Tá demorando pra que percebam nossa vitória
Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba
Se black bloc chegar perto vai virar história

Pego dois deles, faço eles de escudo
Chora mais alto que daqui eu não escuto
Do camarote o secretário nem vai ver
Tá virando a cara, tá falando pra TV

Sou meio covarde, mas tô pronto pro combate
Olha minha farda e segura o seu recalque
O meu sensor de fefeleche explodiu
Pega seus direitos e vai pra (rala aí, ô seus mandado)

Eu dou no ombro pro protesto ficar longe
Eu dou de ombro pra imprensa que tá de plantão
Eu dou no ombro se não há arrego pro bonde
Eu dou no ombro pra mostrar disposição…”

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Meu caro amigo

 

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe mando carta escrita
Mas inventaram um tal de computador
E a internet facilita

Aqui na terra todo mundo está alerta
Todo dia tem uma nova carta aberta
E a plateia vai ficando boquiaberta

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muito artista confuso na situação
É gente censurada defendendo a censura
É gente que foi perseguida pela ditadura
Com argumento rés-de-chão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar na Paula a fúria
Mas acontece que não posso me furtar
A fazer troça da lamúria

Aqui na terra atinge até o futebol
Censuram fatos de astro do rock’n’roll
Querem que histórias nunca cheguem à luz do sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita gente que depende de livre expressão
Que sempre tirou grana da fama de que desfruta
Agora diz “privado é coisa absoluta”
E se apega à negação

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas sei que és meio arredio
Que jornalista precisa muito esperar
Por uma fala de esguio

Aqui na terra estão gritando pela rede
Tão colocando toda a turma na parede
Dá pra sentir no povo do seu sangue a sede

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Vai ser preciso o supremo tribunal
Julgar o meu direito de contar a sua história
E o seu de alegar que é versão difamatória
E cobrar de mim o real

Meu caro amigo eu bem queria escrever
Também o que penso em um artigo
Mas um espaço aberto desse disponível
Só tem quem tem jornal amigo

Aqui na terra ainda é coisa de escória
Negar gravado e ter de dar a mão à palmatória
Talvez o caso de remédios pra memória?

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Pêra (do Collor) agora anda entre os seus
Beijo no Gil, no Caê e nas crianças
E no Robertão, que também nega as lembranças
A todo o pessoal
Adeus

 

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Mídia fascista sensacionalista

Fui a três manifestações populares em Brasília desde o começo da semana. E foi a partir delas, e expressando tão somente minha opinião como pessoa física, que escrevo estas palavras.

Me impressiona o desapego das pessoas pela imprensa livre. Nas manifestações, poucos gritos eram tão ecoados quanto “mídia fascista, sensacionalista”. Sempre sem reprimenda ou contestação. Isso me incomodava tanto que acredito que as únicas coisas a me impedir de gritar algo em resposta eram o bom senso e o instinto de autopreservação.

Manifestante protesta contra veículos de comunicação. (Fonte: Uol)

Manifestante protesta contra veículos de comunicação. (Fonte: Uol)

A mídia erra, como todo mundo. Jornalistas são humanos, e as empresas são formadas por jornalistas. Temos convicções, ideologias e idiossincrasias que adoraríamos deixar em casa ao ir para o trabalho, mas isso não é possível. Então tentamos reduzir seu efeito, diuturnamente, para que a informação que transmitimos seja a mais completa possível, para que nossa missão social final se realize: dar condições ao eleitor para decidir. Levar a ele o máximo de informação possível, da melhor forma possível. É isso que fazemos, é para isso que existimos. Os erros, se acontecem, são com a intenção do acerto. Acreditem, eu já errei, e nunca foi proposital.

E quando acertamos? Os que gritam contra a corrupção, de quantas denúncias publicadas pela mídia se lembram? Quantos casos históricos de ladrões do erário foram desmascarados por nossas canetas? Quantos políticos ruins sumiram após nossas imagens? Aos que defendem mais educação, quanto esforço não fazemos por mais recursos para a área? Quantas pesquisas publicamos, quantas cobranças fizemos? Quantos hospitais em petição de miséria denunciamos em prol de uma saúde melhor? Por mais transporte, mais segurança, mais respeito aos direitos humanos?

Ninguém sofreu mais com o fascismo do que a mídia. Quantas áreas tem profissionais tolhidos de seu trabalho por regimes autoritários? Não confundam: a mídia favorável ao regime autoritário não é imprensa, mas propaganda, seja por sua vontade ou não. Chamar nossa imprensa livre de fascista é tão sem sentido quanto chamar um médico de carrasco.

Ninguém sofre mais com o sensacionalismo do que a boa imprensa. Nosso trabalho diário passa por dilemas entre sobreviver no mercado competitivo e alimentar o círculo vicioso dos que preferem a imagem sangrenta ao noticiário político relevante. Quando o público critica a informação política ao optar pelo relato puro e simples de mais um crime, faz mais do que uma só opção: opta também pela ignorância e por abrir mão de preciosos recursos para tentar controlar o seu destino e o destino de um país.

Não faço parte da mídia fascista sensacionalista. Faço parte de uma imprensa livre que precisa esconder o orgulho do que faz, fingir que não é para o que estudou e sonhou ser, para tentar garantir que nenhum abuso ocorra contra quem se manifesta, ou que os que ocorram sejam punidos. Que teme pela própria segurança ao ouvir um turbilhão de gente que a chama de fascista e que estaria disposta a calá-lo à força se discordar de suas ideias – um dos cernes justamente do fascismo. E que faz tudo isso com gosto e não se arrepende um dia sequer, porque está tentando fazer seu papel por uma sociedade mais justa. Mesmo que alguns não queiram que você participe.

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Hakuna matata*

- Olha, Simba. Tudo que o sol toca é o seu reino.
- Uau!
- Um dia, Simba, o sol vai se pôr no meu tempo aqui, e você será o novo rei.
- E tudo isso vai ser meu?
- Tudo.
- Tudo, até onde o sol bate?
- É.
- Então, pai, sobre isso…
- Que foi?
- O que o senhor diz por “meu”?
- Como assim?
- Quando você fala que vai ser meu…
- Isso, vai ser seu.
- Mas é muita terra.
- Sim.
- Inclusive muda o tamanho, porque o sol vai andando, né?
- Sim, Simba, mas é mais ou menos até onde o sol está batendo agora.
- Hum… Mesmo assim, é muita terra, né? E eu nem sei plantar.
- Mas é seu reino.
- Pois é, sobre isso que eu queria falar com o senhor. Eu não curto muito essa história de reino, sabe?
- Que isso, garoto?
- É, pai. Sei lá, essa coisa de monarquia está meio ultrapassada, não? Ninguém mais tem rei hoje em dia. Só os europeus, mas eles ouvem a mesma música desde o século XIV…
- Mas, Simba, é o seu direito natural.
- É mesmo, pai? Por que o rei não pode ser, sei lá, um gnu?
- Gnu, Simba?
- É, pai, um gnu. São animais majestosos, ágeis, atléticos, que cuidam do próprio rebanho.
- Que porra de gnu, Simba? Você quer um rei gnu?
- Não, pai. Estava pensando mais em algo como, sei lá, um primeiro-ministro gnu. Um presidente gnu!
- Porra de presidente gnu, Simba! Você quer uma eleição agora?
- É justo, não?
- Claro que não, garoto. Nós somos leões, temos o direito natural de reinar na selva.
- Mas essa é uma tradição opressora, pai.
- Tradições são tradições, filho.
- É por isso que você não aposenta o Rafuko?
- Como é?
- O senhor acha que as pessoas não notam, mas o Rafuko já está velho, beirando os 30 anos. Devia estar aposentado há pelo menos uns seis, mas o senhor não deixa. Inclusive colocou ele para me segurar no dia em que eu nasci, na beira do precipício. Meio Michael Jackson, não?
- Era a tradição, moleque.
- É tradição tentar matar o próprio filho?
(rosnando)- Simba!
- Aí, o rosnado. Nunca vou entender isso. Precisa amedrontar as pessoas? Não me surpreende que tenha tido toda aquela ceninha no dia em que eu nasci. Todo mundo ajoelhando lá em baixo do morro, o senhor achando que era reverência. É medo!
- Que tenham medo, eu sou o rei Leão! E você um dia será também!
- Tá vendo? O senhor nunca me ouve!
- Desculpa, eu esqueci dessa história. Mas eu nunca te vi reclamar disso antes, garoto. Que que te deu?
- Nada, ué, eu andei pensando.
- Foi o Deivid?
- Você sabe do Deivid?
- É claro que eu sei do Deivid, todo mundo fala sobre isso o dia inteiro na minha cabeça. “O princípe Simba é amigo de um veado”.
- Puro preconceito, pai.
- Preconceito nenhum, garoto, já te falei que não gosto de te ver andando com os veados. Essa coisa de flores na cabeça me irrita desde o Bambi.
- Credo, pai.
- Credo o que, moleque? Você tem que entender que você é um leão! Os leões comem os veados!
- O QUÊ?
- Sim, os leões comem os veados!
- Como assim, pai? Você me disse que a carne que a gente come é importada, de uma fazenda japonesa!
- Eu menti, garoto, você era muito novo para saber a verdade. Mas se eu soubesse que você ficaria andaria com veados, teria dito a verdade!
(chorando)- Quer dizer que eu como animais mortos? Meu Deus! Eu… eu… eu te odeio! (sai correndo)
- Simba!
(ao longe, ainda chorando, o filhote grita)
- É por isso que o tio Scar é muito mais legal que você! (e foge)
(*inspirado em ideia de Vitor Matos, autor do parcamente atualizado, mas muito qualificado, O Furor.)

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