10/10/2009

Marcelinho, o Opinioso, comenta: Por uma economia mais laica

Li em um editorial recente uma crítica aos ataques do presidente Lula e de membros do seu governo ao neoliberalismo. Segundo o jornal, seria um discurso oportunista, de criar um falso inimigo para se contrapor. Não existiriam hoje neoliberais no país, quiçá no mundo, segundo o semanário (ou hebdomadário, como ensinou-me Fernando Collor). Portanto, as críticas do presidente e seus subordinados seriam vãs, mera atividade do jogo político.

De fato não existe mais espaço para o “deus mercado”, a despeito de todas as preces a ele emitidas. Assim como não há também para o “deus Estado”. Governos do mundo todo são cada vez mais centristas, adequando suas políticas e ideologias ao que mais lhes convier dentro das duas linhas. E é adequado que se siga esse caminho de composição de políticas públicas. Ambas as ideologias têm aspectos vantajosos para o país, provocando mais problemas apenas nas utilizações mais radicais.

O problema, em geral, está na execução. Por exemplo, não é possível negar os benefícios da privatização para o desenvolvimento da economia. Mas isso deve ser feito com preocupações maiores do que espantar o Estado do mercado. Para funcionar o modelo privatizado, é necessário um modelo regulatório eficiente e forte, alheio a interesses políticos do governante em vigor. E isso deve ser um pré-requisito das privatizações, não reação. No Brasil, por exemplo, a deficiência crônica desse modelo ainda afeta profundamente setores como telefonia e energia.

Já a concepção de Estado mínimo tornou-se praticamente indefensável, principalmente após a recente crise. Pode-se desejar efetivamente um Estado menos inchado e mais eficiente, mas isso deve passar primeiro por mudanças na legislação. Ideias como a aplicação da CLT e a preocupação com a meritocracia no funcionalismo público (assim como o incessante combate à burocracia) devem ser estimuladas em contraposição a um inchaço desmedido, mas sem desaparelhar a estrutura estatal de forma prévia.

Por outro lado, a preocupação social que falta à teoria neoliberal e sobra na lógica socialista precisa ser relativizada. Preocupação com desigualdade social e de renda não justifica assistencialismo eleitoreiro, como muitas das medidas do atual governo. É legítima inclusive a utilização de medidas paliativas no combate à miséria, mas essa opção não pode se sobrepor a um projeto de longo prazo que abarque outros aspectos que não só a renda como educação, saúde, entre outros.

O que é necessário, em última escala, é uma economia laica. Um modelo que, sem fanatismo religios0 pelos deuses mercado ou Estado, aceite realizações e conceitos de ambos os lados. E isso depende de vontade política, alheia à realidade dos interesses eleitorais do atual chefe do Executivo ou do impacto do lobby no Legislativo.

Talvez a política ande precisando mais de uma certa moral religiosa e pelo menos um pouquinho de medo da danação eterna.

06/10/2009

Troféu Tristan Tzara de Composição – Um Uh! (ou um Blergh!, talvez)

Muito tempo depois retomo o Troféu Tristan Tzara de Composição. Mas não vou comentar música nenhuma dessa vez, e sim fazer um mea culpa. Porque recentemente eu concedi a José Ramalho o título hors concours da categoria, mas me precipitei. Existe um compositor brasileiro com uma quantidade muito maior de bizarrices compostas. Também é definido como poeta mor, porque em terras tupiniquins qualquer um que sabe o significado de “metáfora” é artista. Se souber usar então… é gênio! O que dá espaço para muitos picaretas, como é sabido. Isto posto, deixo para que vocês próprios tomem suas conclusões a letra profunda de “Um Oh! e um Ah!”, do trapo humano Tom Zé.

“Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh
Oh, Ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh

Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragat… oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh

Oh, Ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh

Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun….. oh!”

02/10/2009

Marcelinho, o Opinioso, comenta: A maravilhosa cidade de Meirelles

Antes de mais nada, desejo os meus parabéns ao Rio de Janeiro. Sério. A escolha da cidade para ser a sede dos Jogos Olímpicos de 2016 foi justa. Talvez não fosse a melhor opção, talvez não tivesse o melhor planejamento, talvez não tivesse metade da estrutura que outras candidatas tinham, mas nada disso significa que não podemos, em sete anos, fazer um belo espetáculo esportivo.

Ironicamente, parte do mérito da escolha coube ao homem que mostrou ao mundo o Rio violento e caótico: Fernando Meirelles, diretor de “Cidade de Deus”. Responsável pelos vídeos da campanha, o cineasta mostrou o Rio de Janeiro mais bonito que eu já vi. Aliás, imagino que eu e muita gente. Inclusive cariocas. Praia, samba, futebol, carnaval, tudo o que atrai os turistas para a cidade maravilhosa estava nas telas. Não tinha como o Comitê Olímpico Internacional não se emocionar.

Não esperava, é claro, sinceridade na campanha. Acima de tudo, era marketing, propaganda. Nem tão enganosa, mas ninguém ali esperava a verdade. Assim como ninguém esperava Chicago e Madri mostrando estrangeiros barrados nos aeroportos, ou Tóquio mostrando turistas em seus hóteis que, no lugar de quartos, tem camas em formato de gavetas.

O que me incomoda um pouco é o ufanismo desmedido, como se a decisão tivesse transformado magicamente a capital carioca no paraíso dos vídeos da campanha. São sete anos de trabalho, muito trabalho, para transformar a cidade inteira em algo próximo daquilo. Com grandes chances dos nossos vícios políticos – corrupção, burocracia, preferência pelo jogo eleitoral ao interesse público – emperrarem as obras necessárias e tornarem os jogos um sucesso publicitário, mas um fracasso social.

Espero, sinceramente, que isso não ocorra, e os jogos possam deixar um verdadeiro legado ao Rio e seu povo. Isso sim, mereceria uma explosão eufórica na praia de Copacabana.

28/09/2009

Bad, bad server

Fiquei muito tempo sem pensar na comédia stand-up. Tenho consciência de que não tenho a desenvoltura natural necessária para esse tipo de coisa, não tenho vocação para palco, mas ainda assim gosto de pensar em textos que pudessem ser utilizados. Por isso, coloco abaixo uma idéia, devidamente adaptada de um texto escrito para ser falado para algo para ser lido. Critiquem à vontade!

“O Obama fez um mal ao mundo: mostrou aos políticos a internet. Pelas notícias que recebi, virou mania, só que nem todo mundo se deu bem nessa. O Berlusconi, por exemplo, descobriu o maravilhoso mundo dos sites de acompanhantes. O Fidel resolveu sair do pijama Adidas e entrar no mundo online, mas não está conseguindo se adequar aos 140 caracteres do Twitter. E o Orkut apagou o perfil do Ahmadinejad depois do tópico sobre o holocausto na comunidade “Teorias da Conspiração”.

Aqui no Brasil, nossos políticos resolveram seguir o Obama e arrecadar para a campanha pela Internet. Não é à toa que eu vi uma pesquisa recente falando que aumentou o roubo de senhas bancárias pela web. Mas tem mais: o Serra chegou aos 100 mil seguidores no Twitter. E é isso, a piada é essa. Brincadeira, eu também sigo o Serra. Mesmo porque acho melhor seguí-lo do que ser seguido por ele. Imagine que você chega em casa à noite, olha para trás e vê o Serra te vigiando, com aquelas olheiras…

O Lula é que não se deu muito bem. Me falaram que o pessoal que escrevia no tal Blog do Planalto se demitiu. Ninguém aguentava mais ele revisando os textos e salpicando efes. “Não fse escreve Marisa, companheiro, é Marifsa!”. Parece que até o corretor ortográfico do Word se demitiu, mas foi por excesso de trabalho.

Agora, a internet também tem seus problemas. Resolveram, por exemplo, elogiar a masculinidade do José Mayer. Como se ele estar pegando a Taís Araújo depois de ter mandado ver com a Deborah Secco e a Vera Fischer (na época boa) não fosse elogio suficiente.

E o engraçado é que nessa novela que ele está atuando voltaram com a história dos depoimentos no final. Da primeira vez que colocaram isso, escandalizaram o país com aquela senhora masoquista, que só começou a sentir prazer ouvindo Roberto Carlos. Agora estão com histórias de superação. Eu fico até imaginando alguns depoimentos.

- Eu era soberano. Mandei em muita gente, decidi o futuro do país. Aí tive todo tipo de problema familiar, financeiro. Quase caí mas, graças aos meus bons amigos, me segurei e continuo firme na presidência do Senado!

Ou então:

- Eu sempre fui o segundo. O vice. O que estava atrás. Mas aí… BAM! Uma mola na cara do Massa e eu voltei à briga!

Ou ainda:

- Eu era desacreditado. Sempre fui. Falavam que eu tinha um futebolzinho anão. Mas demos a volta por cima e, apesar da minha insistência no Robinho e no Elano, estamos na Copa. Na Copa, estão me ouvindo? NA COPA! AAAAAAAAAAAAAHHHH!

26/09/2009

Laranja-entristecido

Do nada, começou a observar as luzes. Nunca tinha notado como elas brotavam, às vezes rápido, às vezes devagar, na janela do ônibus. Primeiro foi um letreiro com as horas e a temperatura. Depois semáforos, um letreito luminoso, vitrines de uma loja. Por fim, percebeu as luzes dos postes que se postavam ao longo da avenida. Nunca prestara atenção à cor em particular. Era um laranja pálido, como um vermelho que tivesse perdido a força depois de muitos anos.

Foram as luzes que começaram. Quase nunca pensava na volta para casa, no ônibus praticamente vazio. Os outros passageiros estavam sempre em silêncio, mas mesmo que falassem nada mudaria. Ficava isolado do mundo externo pelos fones de ouvido, e do mundo interno pela música que entrava pelo ouvido e expulsava qualquer pensamento teimoso. Aquele dia, entretanto, pensou. Viu as luzes, os postes, o laranja entristecido. E pensou.

Lembrou da família, mas não com saudade. Lembrou dos amigos – sempre os mesmos, com as mesmas conversas de sempre, as mesmas piadas. Lembrou do trabalho, todo dia igual, todo dia diferente. Lembrou do passado, das aulas que teve, dos filmes que leu, dos filmes que viu. Sentiu algo no peito, mas não saberia como explicar mesmo que tivesse ajuda.

Arrependimento? Difícil, já que não se via em nenhuma outra possibilidade. Tristeza? Não chorava, apesar de sentir um pouco de vontade. Mas era aquelas vontades bestas, que não demandavam praticamente nenhum esforço para resistir. Resignação, talvez? Quis chorar porque se sentia resignado, mas as lágrimas não saíam, resignadas.

Tentou puxar da memória alguém famoso que já tivesse passado por aquela situação. Lembrou de Woody Allen, mas não era nem tão engraçado nem tão neurótico. Não conseguiu pensar em mais ninguém, mas não se sentiu inferior. Sentiu-se mediano. Mais – sentiu-se medíocre, a palavra cujo significado real mais gostara de aprender depois de “ridículo”. E continuou medíocre até descer na parada e seguir para casa sob as luzes laranja-entristecido dos postes.

25/09/2009

Marcelinho, o Opinioso, comenta: Advogado do advogado

Só para variar, vou ser o advogado do diabo. Vou exercer o contraditório, porque essa porcaria é importante. Se não fosse, não teríamos democracia, oposição e outras coisas relacionadas. É o contraditório que permite o debate, e o debate permite a evolução das idéias. Ou isso ou só estou arrumando desculpas para ser do contra.

De qualquer forma, acho necessário ir contra a corrente e defender o candidato a ministro do STF, José Antônio Toffoli. Desde sua indicação pelo presidente da República, só não ofenderam a mãe do atual advogado-geral da União. Os motivos para criticar o nome dele para o cargo são os mais diversos, e seguem abaixo. Vou tentar contrariá-los.

O primeiro é o fato de Toffoli ter advogado para o PT, Lula e ter sido assessor de José Dirceu. Em síntese, sua proximidade com o partido. Curiosamente, Carlos Ayres Britto, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral e elogiado como ministro do Supremo, já foi filiado ao PT, e até concorreu pelo partido. Isso nunca afetou sua atuação como juiz. O atual presidente do tribunal, Gilmar Mendes, também foi advogado-geral da União, durante pouco mais de dois anos, no governo FHC. Por mais que surjam críticas e boatos velados sobre a relação entre Mendes e os tucanos, a atuação de Gilmar tem sido exemplar.

Outro argumento é a questão da idade. Toffoli tem 41 anos. O mínimo exigido pelo cargo para a Constituição é 35, mas a maioria dos críticos ignora isso, e afirma que o indicado é muito jovem. Só esquecem que Marco Aurélio Mello, um dos ministros que está há mais tempo na Suprema Corte, foi empossado aos 42 anos. Gilmar Mendes (de novo), aos 47. Não sei como em 2 anos, no primeiro caso, podem ter garantido tanta sabedoria assim para alguém.

Outra crítica: Toffoli foi reprovado em dois concursos para juiz, em 1994 e 1995. O mais recente foi há 14 anos. Não dá para adquirir notório saber jurídico, como pede o cargo, nesse período? E notório saber jurídico não se obtém apenas sendo juiz. Gilmar Mendes (depois explico o motivo de lembrá-lo tantas vezes) foi juiz por dois anos apenas, sendo aprovado depois – em primeiro lugar, diga-se de passagem – para procurador da República.

Toffoli não é perfeito, é claro. Concordo com a visão negativa que se tem do fato dele não ter nada além da graduação em Direito, quando a maioria dos ministros tem doutorado. Não acredito, no entanto, que isso seja definitivo como justificativa para impedí-lo de ser ministro. Nesse mesmo período, ele atuou em vários casos importantes, como advogado privado e público, e poderia trazer à corte um pouco das visões hoje em vigor do outro lado.

O que me irrita na história toda é o excesso da lógica dos dois pesos. A maioria dos problemas apontados no currículo de Toffoli estão presentes também na história de outros ministros da Corte, mas não impediram a indicação e a posse. Por isso, aliás, citei tantas vezes Gilmar Mendes, que como presidente do STF tem agido de forma polêmica em certos pontos, com críticas ao Ministério Público e aos demais poderes.

Mesmo o acúmulo de dúvidas não justifica considerar o advogado inapto para o cargo. Existem outros nomes que também poderiam responder à altura no cargo? Certamente, mas o argumento é falacioso, já que isso também vale para praticamente qualquer espaço no Judiciário. A impressão que se passa é que estão refilmando as cenas da indicação de Mendes ao tribunal, lembradas com arrependimento pelo líder do PT. No fundo, são apenas críticas político-partidárias, que tumultuam o ambiente e podem acabar gerando uma insegurança institucional desnecessária.

22/09/2009

Marcelinho, o Opinioso, comenta: Sarney estava certo

Com todos os problemas, polêmicas e escândalos, o presidente do Senado José Sarney até conseguiu trazer à baila um assunto importante – o que não o habilita a continuar no cargo. Em discurso sobre a democracia (na semana passada, eu sei, mas fiquei matutando o texto esse tempo todo), questionou em certo momento quem, afinal de contas, são os representantes do povo: eles, os parlamentares, ou a mídia. Concluiu que ambos clamam pelo título, tornando-se, em última instância, inimigos. Pressionado nos dias após o discurso, recuou e disse que foi tudo exercício teórico, ciência política aplicada. Bobagem, é claro, já que ele não ia perder a chance de bater nos críticos.

Não concordo com Sarney em relação à questão da inimizade, mas acho válida a pergunta. Não são poucos os jornalistas que se vêem como arautos da opinião pública, exercendo papel fundamental de representar o povo, em oposição principalmente aos governos constituídos. Só tem um problema: essa função já é exercida por outros grupos. O ministério público, por exemplo. Imprensa não é representante do povo porque lhe falta legitimidade. Jornalistas não são eleitos democraticamente, são escolhidos em um processo de seleção privada que melhor atenda às expectativas do grupo contratante. Imprensa, em uma frase já famosa sobre esse setor, não é opinião pública, mas opinião publicada, derivada diretamente dos grupos controladores e sujeita a esses interesses. E deveria agir como tal.

Sou, de certa forma, radical nesse aspecto. Tendo a acreditar que a imprensa é para o país como quaisquer outras áreas da economia: indústria, comércio, serviços – o que arrogantemente nomeei como teoria industrial. Mídia é um setor econômico, especializado no fornecimento de informação. Poderíamos vender carros, mas vendemos informação. E criamos critério para determinar o que torna esse produto melhor. Em geral, convencionou-se dizer que a principal qualidade é ser de interesse público, mas a subjetividade do conceito dificulta sua utilização classificatória. De resto, sobram as características padronizadas – ineditismo, proximidade e, mais recentemente, velocidade. E essa classificação, assim como em qualquer outro setor econômico, é elaborada pela própria imprensa, numa espécie de esforço auto-regulatório.

O marketing defende que os jornalistas revistam-se da capa da objetividade e do interesse público ou social, mas é tudo propaganda. Em última instância, a imprensa não tem mais isenção do que um sindicato como a Fiesp ou a CUT. São profissionais de um setor, atuando da forma que acham mais correta para o bem daquele setor e das empresas que o compoem. E esse bem vem revelado nas vendas, na audiência, que podem demonstrar a qualidade da informação produzida. Tanto que, fato notório, quando a atuação fica mais “sindicalizada” do que o adequado, a preocupação com o produto final diminui, e o impacto nas vendas é óbvio.

Isto posto, fica mais fácil entender a dificuldade, por exemplo, dos jornalistas lidarem com a chamada web 2.0, marcada prioritariamente pela interatividade e produção descentralizada de informação. É como se fosse uma quebra do monopólio, da reserva de mercado. Não são somente os jornalistas que definem o que é notícia, mas qualquer um. Todos podem criar blogs, dar opiniões e adquirir credibilidade baseados nos mesmos critérios adotados pela mídia tradicional. Ou não, podem criar um novo modelo de jornalismo, mais adaptado à revolução tecnológica contínua pela qual passamos, e elaborar novos critérios. Continuam, no entanto, sem representar o povo.

O que, no final das contas, nos deixa sem representantes dignos. E a mim, com a sensação de que vou precisar voltar a esse assunto.

09/09/2009

Marcelinho, o Opinioso, comenta: Era tudo mentira?

Tenho sérias dúvidas sobre como a maioria dos brasileiros chega em casa. Ou como lembram que ônibus pegar para ir ao trabalho. Ou mesmo o nome do cônjuge e dos filhos. Porque nosso povo não tem memória, e mais: tem déficit de atenção.

O presidente do Senado, José Sarney, tem mais acusações nas costas do que eu tenho de anos de vida. Coisa leve, de pedido de emprego público para namorado de neta, a coisa mais pesada, como mentiras deslavadas sobre apartamentos, auxílios-moradias e outras cositas más. Mesmo assim, depois de mais ou menos uns cinco meses de pressão pesada da imprensa e da opinião pública, ele continua no cargo. E não há motivo para se espantar com isso.

A imprensa, uma das responsáveis por fazer essa pressão e investigar, vive de onda. Esqueceu os escândalos da casa para se preocupar com a porcaria dos nomes dos presidentes das comissões especiais da Câmara que vão discutir os projetos do pré-sal. Como se isso (os nomes)  fosse importante ou decisivo para o país. Nossa mídia não quer se dar ao trabalho de continuar em um assunto impopular, enquanto o enterro do Michael Jackson sei lá quanto tempo após sua morte atrai uma mega audiência.

No Congresso, vale a regra do meu pirão primeiro. O PT vendeu a alma ao diabo, sob o comando de Lula, para não deixarem tirar o Sarney. O PMDB ridicularizou o Senado, o Conselho de Ética, o Congresso e a classe política (um pouco mais do que já era) para continuar liderando. E o resultado foi um recado para Lula de que nada está garantido, e vão querer mais para, quem sabe, embarcar na candidatura de Dilma. Ou seja, podemos esperar mais revogações do irrevogável no PT até 2010.

Fora isso, nossas manifestações populares de revolta ficam limitadas a movimentação na internet, onde convenientemente todo mundo fica sentado em casa, reclamando para uma tela. De vez em quando, saem às ruas para gritar uma meia dúzia de pessoas, geralmente envolvidas com partidos ou com interesses políticos futuros (como cabeças de agremiações estudantis). E fica por isso mesmo.

O pior é que a nossa tendência é se incluir nos acordos políticos que dão fim a essas crises. Não canso de reclamar e lembrar: principal aliado de Sarney, Renan Calheiros foi acusado de ter usado dinheiro de empreiteiras para pagar a pensão de uma filha de fora do casamento. Foi considerado culpado pelo Conselho de Ética, mas absolvido pelos colegas em plenário. Como parte do acordo, renunciou ao cargo de presidente. Mas o processo não era para tirá-lo da presidência, era para cassar o mandato! Foi quebra de decoro parlamentar! Se os senadores, corporativistas como sempre, acharam uma solução de meio-termo, nós não temos que aceitar. Porque a impressão que resta é que foi tudo mentira, perseguição da imprensa ou algo do gênero.

Os senadores sempre falam que essas crises não podem durar pelo bem da instituição. O que não pode durar, pelo bem da instituição, é mandato de gente safada. E não é com grandes acordos, esquecidos pela imprensa e pela população, que esses péssimos exemplos deixaram de mamar nas tetas do dinheiro público.

01/09/2009

Fausto em tempos de Madoff

Ele não aguentava mais a crise: vivia de bicos, volta e meia acabava despejado, e já tinha mais credores do que dentes. Por isso, tomou uma medida desesperada. Gastou os últimos trocados que tinha para comprar uma galinha preta, algumas velas e a passagem de ônibus para a encruzilhada mais próxima. Improvisou alguns rituais que achou que funcionariam, até ouvir a voz atrás.

- Chamou?

Nada de fumaça, cheiro de enxofre, homem-bode, tridente. Só um rapaz com calças jeans e uma camiseta branca. Sem estampa.

- Você é o…

- Sou eu mesmo. O capeta, o tinhoso, o cão. Não era o que você queria?

- Era, mas… Sei lá, pensei que quando você aparecesse eu sentiria o calor do inferno, veria abrir um buraco no chão, essas coisas. E você parece tão… normal!

- Corte de gastos, chefe. Primeira coisa que some são as verbas para os efeitos especiais. Mesmo porque , depois que esses mágicos de rua entraram na moda, dá trabalho impressionar as pessoas. Não compensa. Mesma coisa vale para roupa: não dá mais para ficar usando aqueles chifres, rabos e pés de grife. Só compro na C&A agora.

- Sei.

- Mas acelera o assunto que foi chamada interurbana a cobrar.

- Então… Eu decidi que quero vender minha alma.

- Imaginei. Ninguém nunca me chama para uma partida de damas, é sempre assim. Solidão dos infernos lá embaixo, mas tudo o que vocês querem é negócios. Que seja, estou aqui para isso. Qual o preço?

- Bom, primeiro eu quero ser o homem mais rico do planeta.

- Ih… Vai dar não.

- Como não dá?

- Não dá, ué. Primeiro que esquece esse negócio de vários desejos realizados. É um e olhe lá. Segundo que eu só poderia te atender de dois jeitos. Ou eu deixo todo mundo mais pobre do que você – o que, convenhamos, está difícil – ou eu teria que te dar dinheiro demais para meus humildes cofres esvaziados.

- Como assim? Você está quebrado?

- Eu não diria quebrado… É mais um prejuízo passageiro. Andei investindo meio errado – deixa o Madoff chegar lá embaixo para ele ver – e está difícil conseguir mais gente para investir em mim. Nessa época de ateísmo, pouca gente acredita no diabo…

- Sei. Então me dá um cargo de chefia em alguma mega empresa aí.

- Sem chance. Todo mundo demitindo, quadros encolhendo, ações em baixa. Não sei como eu me mantive no meu cargo!

- Ok, esquece o mundo dos negócios. Me deixa o mais bonito e charmoso do mundo que eu caso com uma viúva rica.

- Também não vai dar. Aumentou muito a demanda desse tipo de coisa de mexer na cara, mas a gente manteve os pagamentos. Não deu outra: os cirurgiões plásticos do nosso convênio entraram em greve. E esse povo você sabe como é, né?

- Credo… Tá bom então, me faz o mais inteligente então que eu trabalho e consigo a grana.

- Assim… Na boa? Não quero ser chato, mas olha essa crise. Ela é culpa dos “inteligentes”. Essa galera nunca esteve tão em baixa. Na verdade, a maioria andou indo lá para as minhas terras por causa de algumas “sacadas financeiras”, se é que você me entende.

- Mas assim fica difícil, né? Te chamei aqui à toa?

- Não, não, claro que não. Será que não dava para gente fechar um meio-termo? Te dou um bilhete premiado da quina e um cargo de assessor do Sarney, pode ser?

- Pode, mas aí minha alma fica contigo só por uns 100 anos, e não pela eternidade. Fechado?

- Fechado.

Foi só aí que os dois perceberam que não tinham nem como comprar uma caneta para assinar o contrato.

12/08/2009

Marcelinho, o Opinioso, comenta: Jagodes

Lá se vão algumas semanas sem escrever por aqui. Tenho várias desculpas para isso: trabalho demais, rotina alterada, recuperação de sono perdido. Mas já chegamos ao consenso, caro leitor, de que eu não preciso ficar me explicando. Não é como se eu estivesse decepcionando alguém por vontade própria, já que nunca tentei criar expectativas.

Também não me sinto culpado porque vejo que quase nada mudou desde o último texto. Na economia, a recuperação continua devagar, com sinais contraditórios que fazem a bolsa subir e cair, como sempre. A gripe suína também é a mesma do começo. A população é que esta histérica, como se de repente tivessem descoberto o Ebola circulando por aqui. Só na política algumas coisas mudaram. Como de praxe, para pior. O que não quer dizer que não eu não tenha tido algumas surpresas.

O vocabulário do Collor, por exemplo. Não tive o desprazer de acompanhar seu governo em uma idade racional, por isso não tinha a menor idéia que ele usasse palavras como “hebdomadário”. Se o caro leitor não sabe o que é, faça como eu e procure no dicionário. “Hebdomadário” estava presente naquele discurso do olhar assassino, em que ele mandou o Pedro Simon engolir, o que em outras situações dava até divórcio.

Tasso Jereissati e Renan Calheiros também fizeram bonito no plenário. Deu gosto ver eles se chamarem de “cangaceiro” e “coronel”. Hipocrisia pura, é claro, ou pelo menos falta de espelho em casa. Espelho, não vidro, porque isso está sobrando nos telhados dos senadores. Tanto que o tão esperado acordo do “deixa-disso” está em processo de consolidação, após ameaças e chantagens da tropa de choque de Sarney. Cadê os corajosos de outrora? Cadê o Arthur Virgílio, réu confesso que disse que não cairia sozinho? Cadê o DEM? E o PT, que vai manter Sarney mas insiste em jogos de cena? Todo mundo junto agora, amigos desde criancinhas?

A cruel realidade é que sempre acaba nisso. Renan foi absolvido da cassação duas vezes no plenário, para depois renunciar à presidência. Isso significa que ele então não recebeu dinheiro de empreiteiras? Todos os jornais mentiram esse tempo todo? Quando liberarem o Sarney, ele volta a ficar com a ficha limpa, sem nunca ter se beneficiado de atos secretos e loteado cargos no Senado com o dinheiro público?

Dizem no Congresso que os acordos estão acima de qualquer coisa, até mesmo os regimentos internos. Mas isso não é só no Congresso, é no Brasil. São os acordos que dão fim às crises sem punir os corruptos e sem corrigir os erros, mas ninguém liga. A imprensa vai para o próximo escândalo, as pessoas vão para a próxima partuda de futebol. Pego mais um vocábulo de Collor, o intelectual: somos um país de jagodes, homens ordinários, joões-ninguém que desistem de gritar antes mesmo de chegarem perto da rouquidão.