17/01/2010

Marcelinho, o Opinioso, comenta: Amor, estranho amor

É até engraçado que eu pense em criar uma seção específica para resenhas no blog. Em última instância, tudo que eu faço são resenhas, só mudam os assuntos. Por isso, vou incluir todas as minhas opiniões sobre produtos audiovisuais como filmes, músicas e outras coisas na seção “Marcelinho, o Opinioso, comenta”. E torcer para funcionar.

Amor, estranho amor

Se tem um assunto que rende músicas é amor. Faz sentido. Para os Beatles, é tudo o que você precisa. Já para o Nazareth, é o tipo de coisa que machuca. O pessoal do Black Eyed Peas continua procurando o dito cujo e, para o Rammstein, o mais importante é que o amor é para todos.

Pelo menos é o que diz a faixa-título de “Liebe Ist Für Alle Da”, sétimo álbum da banda (incluindo um ao vivo), sucesso nas paradas europeias desde o lançamento em outubro. Depois de quatro anos sem gravar nada novo, os alemães voltaram com um tema que não é exatamente uma constante nas músicas do grupo, mas bem que poderia ter sido.

As melhores músicas são as que falam de amor, principalmente de maneiras não-convencionais. Para quem se acostumou com o ritmo e a melodia pesadas de músicas anteriores como “Feuer Frei” e “Du Hast”, “Frühling in Paris” assusta. Cheguei a procurar por ambiguidades na letra que permitissem associar a violência, morte ou algo do gênero, mas é isso mesmo – se não fosse cantada em alemão, podia ser uma música da Carla Bruni. Já “Roter Sand” é um hino ao romantismo antigo, do tipo pelo qual se morre, um pouco em falta hoje em dia.

Só que estamos falando de Rammstein, a banda que já compôs em “homenagem” a um canibal e tem o nome de uma cidade destruída por um incêndio. Ou seja, paixão pela polêmica. “Ich Tu Dir Weh” é uma ode ao sadomasoquismo, explícita e quase escatológica. A faixa-tema, junto com a capa do disco, podem ser facilmente associados a um estupro (o que não é exatamente novo na história do grupo).

Já o clipe de “Pussy” vazou antes na internet, para deleite dos nerds de plantão, em uma versão não censurada (a censurada você pode ver aqui – http://tinyurl.com/yau42vx). Crítica à sociedade alemã e seu conservadorismo sexual, a música certamente acabou ajudando a provocar a censura do álbum para menores em todo o país por induzir o sexo casual absoluto.

De resto, a típica violência sangrenta da banda explode em “Waidmanns Heil”, o gosto pela escuridão volta em “Wiener Blut” e a auto-adoração dá o tom em “Rammlied”. O resto é mais do mesmo, o que, no caso do Rammstein, já significa muito.

Nota: 9,5 (porque perfeito, só eu)

Links:

Letras (com traduções voluntárias) – http://letras.terra.com.br/rammstein/

Frühling in Paris (minha preferida), em uma fanversionhttp://www.youtube.com/watch?v=0N5Av2FY914

06/01/2010

Marcelinho, o Opinioso, comenta: Drops

Descobri várias coisas no último mês. Entre elas:

Lady GaGa é um exemplo. Não é todo mundo que transforma um problema em alcunha e motivo de orgulho. “My Popopopo Poker Face…”, “Papa paparazzi”, “Rarara… Rarararomance…”.

Nossa capital chama Brasília e não Brasílio porque é como uma mulher com TPM: ou está muito quente ou muito frio. Não tem meio termo.

Arruda foi expulso da maçonaria. A assessoria de imprensa deles não foi encontrada para comentar o assunto.

Aliás, também descobri que maçonaria ainda existe. Achei que era coisa do “Código da Vinci”.

Pessoas de bigode são exemplos de perseverância. Sarney não saiu e nem vai sair da cadeira do Senado, e ainda vai acompanhar a gravação de um documentário sobre a própria vida. Já o Zelaya passou Natal e Ano Novo na embaixada brasileira em Tegucigalpa e, dizem, só deve sair se o Brasil eliminar Honduras na Copa, em julho.

Internet faz mal à reputação das pessoas. Desde que a historinha sobre o apetite sexual do José Mayer estourou no Twitter, o personagem dele não come ninguém na novela. E ainda está prestes a experimentar o outro lado com a Receita Federal. Coisa de novela mesmo.

Gente rica também faz casa ilegal no morro, e também morre por isso. O que não chega a atrapalhar o feriado de nenhuma autoridade.

Dá para ganhar bilhões de dólares contando a história da Guerra do Iraque. Basta colocar pessoas azuis, efeitos especiais de computador e mudar o final.

Marina Silva não será mais a única com cabelo a disputar a eleição em outubro. Parabéns à ministra Dilma, que soube se recuperar com dignidade e sem se abater diante do câncer ou da possibilidade de ficar com aquele penteado de garoto.

Aliás, parabéns também ao Serra, que conseguiu me assustar às 3 da manhã com um vídeo no Twitter em que ele sorri.

O presidente resolveu tirar o povo da merda. Não dava para não ter colocado?

O Suriname existe. Mas não por muito tempo, se continuar mexendo com a gente.

Aviões suecos são mais baratos que americanos e franceses. Mas eu ainda prefiro a Carla Bruni.

Aliás, também descobri que ela canta. Não que precisasse.

Pensando bem, quero ser igual ao Sarkozy quando crescer. Ou melhor, quando ficar mais velho.

10/12/2009

Descruze os braços

Descruze os braços.

Nada de bom vem de alguém de braços cruzados. Ninguém conta uma piada nessa posição, poucas pessoas riem enquanto permanecem com um braço sobre o outro. Não é à toa que braços cruzados são o símbolo universal dos leões-de-chácara e seguranças em geral. Pessoas que agem como portas humanas precisam disso, você não.

Descruze os braços. Pássaros não voam de braços cruzados, não existe nenhuma dança com braços sobrepostos. Tudo bem, talvez na Rússia, mas lá faz frio. Nos trópicos, as pessoas se entrelaçam os braços, aproximam os corpos. Quem cruza os braços fica no canto bebendo e ouvindo a música. Braços soltos são sinônimo de liberdade, de alegria, de criatividade. São vermelhos ou amarelos. Braços cruzados são grafite ou cinza.

Descruze os braços.Enquanto você está assim, suas mãos também ficam ocupadas. Elas se mantem apertando o corpo inteiro contra si mesmo, e perdem a chance de apertar outras coisas. Mãos alheias, por exemplo. Uma pessoa de braços cruzados não se dispõe a fazer um favor e pegar algo, ou receber um presente. Mesmo porque poucos se arriscam a tentar presentear alguém de braços cruzados.

Descruze os braços. Seus cotovelos não foram criados somente para ser uma espécie de joelhos de cima. Eles também servem para te proteger. Pense em um show agitado, ou em um ônibus lotado. São os seus cotovelos que impedem outras pessoas de invadir seu espaço, a sua privacidade ou coisa pior. Mas enquanto você está de braços cruzados, eles estão presos à frente do corpo, apontando para alguém que não vai mesmo querer se meter com você. Por outro lado, você fica vulnerável a todo tipo de agressões, como socos nas costelas e chutes no rim. Talvez até punhaladas nas costas.

Descruze os braços. Uma posição dessas cria uma barreira diante de outras pessoas.  Se as bandeiras piratas fossem pintadas em uma outro plano, você veria que aqueles ossos na verdade estão cruzados em frente à caveira simbólica. Eles dizem “afaste-se” com vemência, até para quem você não vê problema em se aproximar. Cruzar os braços é como fechar uma porta pública, diante de qualquer outro que chegar à sua frente. E você sabe como é horrível alguém bater a porta na sua cara.

Descruze os braços. Símbolo de atitude defensiva, essa posição só faz aumentar o sentimento interno de proteção, independente de não existir um inimigo. É uma espécie de retroalimentação, em que sua emoção faz o gesto, e o gesto fortalece a emoção. Ao cruzar os braços, você constrói a guarita necessária para se proteger enquanto completa uma muralha intransponível.

Veja, você não precisa acreditar em mim. Não faço questão nenhuma, porque é irrelevante no final das contas. A maior parte de tudo escrito aqui é ciência, ela não depende da sua fé para ser verdade. O resto… O resto é puro palpite meu, mas você provavelmente acreditaria se não estivesse de braços cruzados.

06/12/2009

Marcelinho, o Opinioso, comenta: 1968

Estava prestes a completar dois meses de férias daqui. Precisei desse tempo. Este blog era o meu espaço para descarregar o excesso de pensamentos, mas tinha se transformado quase em uma obrigação. Não dava para continuar.

Era para ser só um mês longe, mas sabe como é. O trabalho, imprevisível, resolveu tomar muito mais do meu tempo. De forma que, quando eu não estava por aqui, estava dormindo. Ou fazendo algo mais tranquilo. Em síntese, mea culpa, mea maxima culpa. E peço perdão.

Só que não dava para continuar calado. A situação no Brasil é feia, muito feia, e desde o começo do ano. Para quem acompanha as notícias, até parece que não foi tudo nesse ano, mas foi. Abrimos com a volta de Renan e os escândalos de Sarney, que não caiu. Continuamos com Agaciel, que sumiu no espaço da aposentadoria remunerada (ou algo que o valha). E a reforma administrativa do Senado, onde foi parar?

A CPI da Petrobras, só para variar, não deu em nada. E não tinha porque dar mesmo não, já que a estatal é uma bela caixa-preta que ninguém quer ver aberta. A tão famosa CPI do MST também não deu em nada, porque a véspera da eleição certamente atrai mais atenções. Ou seja, o Legislativo vai fazendo bonito mais uma vez, com pouquíssima aprovação de projetos relevantes e muito marketing e mesquinharia política.

Na economia, passamos de ano, mas raspando. O governo tomou as medidas corretas (talvez até com algum exagero), mas tivemos também uma dose de sorte para que os erros passados tenham se transformado em uma espécie de preparação. Com tudo isso, nossoPIB provavelmente não vai crescer nada esse ano, ou muito pouco. E ainda precisamos torcer para que nossos excessos no gasto público e despreocupação fiscal não pesem na inflação, e consigamos entrar em alta no ano que vem.

E como se não bastasse, para completar nossa falência moral e ética, o Flamengo foi campeão brasileiro. Para garantir o título número 5 e 1/2, o rubro-negro carioca fez a pior campanha entre os campeões dos anos de pontos corridos, foi obviamente favorecido pelos inúmeros erros de arbitragem e ganhou a ajuda pouco cívica do Grêmio no último jogo. Nada disso impede, no entanto, que uma massa de flamenguistas saia pela rua eufórica, ignorando os problemas éticos diante da vitória. O Flamengo é o PMDB do futebol.

Mas para encerrar o ano de forma coerente, precisávamos de um belo escândalo de corrupção. E conseguimos. José Roberto Arruda coloca a cara na câmera escondida e embolsa uma grana. Muita grana. Diz que era tudo para comprar panetone, como se Brasília fosse movida a uma mistura de pão com bolo. Arruda fica pendurado, prestes a arrastar consigo secretários, deputados distritais e o próprio partido, o Democratas, para o ralo dos corruptos, raramente frequentado no país.

É por isso que, pelo menos para mim, 2009 virou uma espécie de “novo 1968″, o ano que nunca terminou. É claro que, literalmente, isso também ocorre (já que faltam algumas semanas para 2010), mas a sensação que o ano me deixou até agora é a pior possível. Foram 12 meses de escândalos públicos, demonstrações claras de uma falência moral que mesmo assim não revoltou o povo o suficiente para criar novos caras-pintadas. O máximo que tivemos foi uma invasão chinfrim e partidarizada da Câmara Distrital do DF, que dificilmente vai conseguir alguma coisa.

Se a perspectiva for parecida para 2010, com Copa e eleições, preciso começar a me preparar agora para outro ano perdido e sem previsão para acabar.

10/10/2009

Marcelinho, o Opinioso, comenta: Por uma economia mais laica

Li em um editorial recente uma crítica aos ataques do presidente Lula e de membros do seu governo ao neoliberalismo. Segundo o jornal, seria um discurso oportunista, de criar um falso inimigo para se contrapor. Não existiriam hoje neoliberais no país, quiçá no mundo, segundo o semanário (ou hebdomadário, como ensinou-me Fernando Collor). Portanto, as críticas do presidente e seus subordinados seriam vãs, mera atividade do jogo político.

De fato não existe mais espaço para o “deus mercado”, a despeito de todas as preces a ele emitidas. Assim como não há também para o “deus Estado”. Governos do mundo todo são cada vez mais centristas, adequando suas políticas e ideologias ao que mais lhes convier dentro das duas linhas. E é adequado que se siga esse caminho de composição de políticas públicas. Ambas as ideologias têm aspectos vantajosos para o país, provocando mais problemas apenas nas utilizações mais radicais.

O problema, em geral, está na execução. Por exemplo, não é possível negar os benefícios da privatização para o desenvolvimento da economia. Mas isso deve ser feito com preocupações maiores do que espantar o Estado do mercado. Para funcionar o modelo privatizado, é necessário um modelo regulatório eficiente e forte, alheio a interesses políticos do governante em vigor. E isso deve ser um pré-requisito das privatizações, não reação. No Brasil, por exemplo, a deficiência crônica desse modelo ainda afeta profundamente setores como telefonia e energia.

Já a concepção de Estado mínimo tornou-se praticamente indefensável, principalmente após a recente crise. Pode-se desejar efetivamente um Estado menos inchado e mais eficiente, mas isso deve passar primeiro por mudanças na legislação. Ideias como a aplicação da CLT e a preocupação com a meritocracia no funcionalismo público (assim como o incessante combate à burocracia) devem ser estimuladas em contraposição a um inchaço desmedido, mas sem desaparelhar a estrutura estatal de forma prévia.

Por outro lado, a preocupação social que falta à teoria neoliberal e sobra na lógica socialista precisa ser relativizada. Preocupação com desigualdade social e de renda não justifica assistencialismo eleitoreiro, como muitas das medidas do atual governo. É legítima inclusive a utilização de medidas paliativas no combate à miséria, mas essa opção não pode se sobrepor a um projeto de longo prazo que abarque outros aspectos que não só a renda como educação, saúde, entre outros.

O que é necessário, em última escala, é uma economia laica. Um modelo que, sem fanatismo religios0 pelos deuses mercado ou Estado, aceite realizações e conceitos de ambos os lados. E isso depende de vontade política, alheia à realidade dos interesses eleitorais do atual chefe do Executivo ou do impacto do lobby no Legislativo.

Talvez a política ande precisando mais de uma certa moral religiosa e pelo menos um pouquinho de medo da danação eterna.

06/10/2009

Troféu Tristan Tzara de Composição – Um Uh! (ou um Blergh!, talvez)

Muito tempo depois retomo o Troféu Tristan Tzara de Composição. Mas não vou comentar música nenhuma dessa vez, e sim fazer um mea culpa. Porque recentemente eu concedi a José Ramalho o título hors concours da categoria, mas me precipitei. Existe um compositor brasileiro com uma quantidade muito maior de bizarrices compostas. Também é definido como poeta mor, porque em terras tupiniquins qualquer um que sabe o significado de “metáfora” é artista. Se souber usar então… é gênio! O que dá espaço para muitos picaretas, como é sabido. Isto posto, deixo para que vocês próprios tomem suas conclusões a letra profunda de “Um Oh! e um Ah!”, do trapo humano Tom Zé.

“Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh
Oh, Ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh

Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragatzun, e, e, e
Paragat… oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh

Oh, Ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh, ah, oh

Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun, hip hi-hip
Paragatzun….. oh!”

02/10/2009

Marcelinho, o Opinioso, comenta: A maravilhosa cidade de Meirelles

Antes de mais nada, desejo os meus parabéns ao Rio de Janeiro. Sério. A escolha da cidade para ser a sede dos Jogos Olímpicos de 2016 foi justa. Talvez não fosse a melhor opção, talvez não tivesse o melhor planejamento, talvez não tivesse metade da estrutura que outras candidatas tinham, mas nada disso significa que não podemos, em sete anos, fazer um belo espetáculo esportivo.

Ironicamente, parte do mérito da escolha coube ao homem que mostrou ao mundo o Rio violento e caótico: Fernando Meirelles, diretor de “Cidade de Deus”. Responsável pelos vídeos da campanha, o cineasta mostrou o Rio de Janeiro mais bonito que eu já vi. Aliás, imagino que eu e muita gente. Inclusive cariocas. Praia, samba, futebol, carnaval, tudo o que atrai os turistas para a cidade maravilhosa estava nas telas. Não tinha como o Comitê Olímpico Internacional não se emocionar.

Não esperava, é claro, sinceridade na campanha. Acima de tudo, era marketing, propaganda. Nem tão enganosa, mas ninguém ali esperava a verdade. Assim como ninguém esperava Chicago e Madri mostrando estrangeiros barrados nos aeroportos, ou Tóquio mostrando turistas em seus hóteis que, no lugar de quartos, tem camas em formato de gavetas.

O que me incomoda um pouco é o ufanismo desmedido, como se a decisão tivesse transformado magicamente a capital carioca no paraíso dos vídeos da campanha. São sete anos de trabalho, muito trabalho, para transformar a cidade inteira em algo próximo daquilo. Com grandes chances dos nossos vícios políticos – corrupção, burocracia, preferência pelo jogo eleitoral ao interesse público – emperrarem as obras necessárias e tornarem os jogos um sucesso publicitário, mas um fracasso social.

Espero, sinceramente, que isso não ocorra, e os jogos possam deixar um verdadeiro legado ao Rio e seu povo. Isso sim, mereceria uma explosão eufórica na praia de Copacabana.

28/09/2009

Bad, bad server

Fiquei muito tempo sem pensar na comédia stand-up. Tenho consciência de que não tenho a desenvoltura natural necessária para esse tipo de coisa, não tenho vocação para palco, mas ainda assim gosto de pensar em textos que pudessem ser utilizados. Por isso, coloco abaixo uma idéia, devidamente adaptada de um texto escrito para ser falado para algo para ser lido. Critiquem à vontade!

“O Obama fez um mal ao mundo: mostrou aos políticos a internet. Pelas notícias que recebi, virou mania, só que nem todo mundo se deu bem nessa. O Berlusconi, por exemplo, descobriu o maravilhoso mundo dos sites de acompanhantes. O Fidel resolveu sair do pijama Adidas e entrar no mundo online, mas não está conseguindo se adequar aos 140 caracteres do Twitter. E o Orkut apagou o perfil do Ahmadinejad depois do tópico sobre o holocausto na comunidade “Teorias da Conspiração”.

Aqui no Brasil, nossos políticos resolveram seguir o Obama e arrecadar para a campanha pela Internet. Não é à toa que eu vi uma pesquisa recente falando que aumentou o roubo de senhas bancárias pela web. Mas tem mais: o Serra chegou aos 100 mil seguidores no Twitter. E é isso, a piada é essa. Brincadeira, eu também sigo o Serra. Mesmo porque acho melhor seguí-lo do que ser seguido por ele. Imagine que você chega em casa à noite, olha para trás e vê o Serra te vigiando, com aquelas olheiras…

O Lula é que não se deu muito bem. Me falaram que o pessoal que escrevia no tal Blog do Planalto se demitiu. Ninguém aguentava mais ele revisando os textos e salpicando efes. “Não fse escreve Marisa, companheiro, é Marifsa!”. Parece que até o corretor ortográfico do Word se demitiu, mas foi por excesso de trabalho.

Agora, a internet também tem seus problemas. Resolveram, por exemplo, elogiar a masculinidade do José Mayer. Como se ele estar pegando a Taís Araújo depois de ter mandado ver com a Deborah Secco e a Vera Fischer (na época boa) não fosse elogio suficiente.

E o engraçado é que nessa novela que ele está atuando voltaram com a história dos depoimentos no final. Da primeira vez que colocaram isso, escandalizaram o país com aquela senhora masoquista, que só começou a sentir prazer ouvindo Roberto Carlos. Agora estão com histórias de superação. Eu fico até imaginando alguns depoimentos.

- Eu era soberano. Mandei em muita gente, decidi o futuro do país. Aí tive todo tipo de problema familiar, financeiro. Quase caí mas, graças aos meus bons amigos, me segurei e continuo firme na presidência do Senado!

Ou então:

- Eu sempre fui o segundo. O vice. O que estava atrás. Mas aí… BAM! Uma mola na cara do Massa e eu voltei à briga!

Ou ainda:

- Eu era desacreditado. Sempre fui. Falavam que eu tinha um futebolzinho anão. Mas demos a volta por cima e, apesar da minha insistência no Robinho e no Elano, estamos na Copa. Na Copa, estão me ouvindo? NA COPA! AAAAAAAAAAAAAHHHH!

26/09/2009

Laranja-entristecido

Do nada, começou a observar as luzes. Nunca tinha notado como elas brotavam, às vezes rápido, às vezes devagar, na janela do ônibus. Primeiro foi um letreiro com as horas e a temperatura. Depois semáforos, um letreito luminoso, vitrines de uma loja. Por fim, percebeu as luzes dos postes que se postavam ao longo da avenida. Nunca prestara atenção à cor em particular. Era um laranja pálido, como um vermelho que tivesse perdido a força depois de muitos anos.

Foram as luzes que começaram. Quase nunca pensava na volta para casa, no ônibus praticamente vazio. Os outros passageiros estavam sempre em silêncio, mas mesmo que falassem nada mudaria. Ficava isolado do mundo externo pelos fones de ouvido, e do mundo interno pela música que entrava pelo ouvido e expulsava qualquer pensamento teimoso. Aquele dia, entretanto, pensou. Viu as luzes, os postes, o laranja entristecido. E pensou.

Lembrou da família, mas não com saudade. Lembrou dos amigos – sempre os mesmos, com as mesmas conversas de sempre, as mesmas piadas. Lembrou do trabalho, todo dia igual, todo dia diferente. Lembrou do passado, das aulas que teve, dos filmes que leu, dos filmes que viu. Sentiu algo no peito, mas não saberia como explicar mesmo que tivesse ajuda.

Arrependimento? Difícil, já que não se via em nenhuma outra possibilidade. Tristeza? Não chorava, apesar de sentir um pouco de vontade. Mas era aquelas vontades bestas, que não demandavam praticamente nenhum esforço para resistir. Resignação, talvez? Quis chorar porque se sentia resignado, mas as lágrimas não saíam, resignadas.

Tentou puxar da memória alguém famoso que já tivesse passado por aquela situação. Lembrou de Woody Allen, mas não era nem tão engraçado nem tão neurótico. Não conseguiu pensar em mais ninguém, mas não se sentiu inferior. Sentiu-se mediano. Mais – sentiu-se medíocre, a palavra cujo significado real mais gostara de aprender depois de “ridículo”. E continuou medíocre até descer na parada e seguir para casa sob as luzes laranja-entristecido dos postes.

25/09/2009

Marcelinho, o Opinioso, comenta: Advogado do advogado

Só para variar, vou ser o advogado do diabo. Vou exercer o contraditório, porque essa porcaria é importante. Se não fosse, não teríamos democracia, oposição e outras coisas relacionadas. É o contraditório que permite o debate, e o debate permite a evolução das idéias. Ou isso ou só estou arrumando desculpas para ser do contra.

De qualquer forma, acho necessário ir contra a corrente e defender o candidato a ministro do STF, José Antônio Toffoli. Desde sua indicação pelo presidente da República, só não ofenderam a mãe do atual advogado-geral da União. Os motivos para criticar o nome dele para o cargo são os mais diversos, e seguem abaixo. Vou tentar contrariá-los.

O primeiro é o fato de Toffoli ter advogado para o PT, Lula e ter sido assessor de José Dirceu. Em síntese, sua proximidade com o partido. Curiosamente, Carlos Ayres Britto, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral e elogiado como ministro do Supremo, já foi filiado ao PT, e até concorreu pelo partido. Isso nunca afetou sua atuação como juiz. O atual presidente do tribunal, Gilmar Mendes, também foi advogado-geral da União, durante pouco mais de dois anos, no governo FHC. Por mais que surjam críticas e boatos velados sobre a relação entre Mendes e os tucanos, a atuação de Gilmar tem sido exemplar.

Outro argumento é a questão da idade. Toffoli tem 41 anos. O mínimo exigido pelo cargo para a Constituição é 35, mas a maioria dos críticos ignora isso, e afirma que o indicado é muito jovem. Só esquecem que Marco Aurélio Mello, um dos ministros que está há mais tempo na Suprema Corte, foi empossado aos 42 anos. Gilmar Mendes (de novo), aos 47. Não sei como em 2 anos, no primeiro caso, podem ter garantido tanta sabedoria assim para alguém.

Outra crítica: Toffoli foi reprovado em dois concursos para juiz, em 1994 e 1995. O mais recente foi há 14 anos. Não dá para adquirir notório saber jurídico, como pede o cargo, nesse período? E notório saber jurídico não se obtém apenas sendo juiz. Gilmar Mendes (depois explico o motivo de lembrá-lo tantas vezes) foi juiz por dois anos apenas, sendo aprovado depois – em primeiro lugar, diga-se de passagem – para procurador da República.

Toffoli não é perfeito, é claro. Concordo com a visão negativa que se tem do fato dele não ter nada além da graduação em Direito, quando a maioria dos ministros tem doutorado. Não acredito, no entanto, que isso seja definitivo como justificativa para impedí-lo de ser ministro. Nesse mesmo período, ele atuou em vários casos importantes, como advogado privado e público, e poderia trazer à corte um pouco das visões hoje em vigor do outro lado.

O que me irrita na história toda é o excesso da lógica dos dois pesos. A maioria dos problemas apontados no currículo de Toffoli estão presentes também na história de outros ministros da Corte, mas não impediram a indicação e a posse. Por isso, aliás, citei tantas vezes Gilmar Mendes, que como presidente do STF tem agido de forma polêmica em certos pontos, com críticas ao Ministério Público e aos demais poderes.

Mesmo o acúmulo de dúvidas não justifica considerar o advogado inapto para o cargo. Existem outros nomes que também poderiam responder à altura no cargo? Certamente, mas o argumento é falacioso, já que isso também vale para praticamente qualquer espaço no Judiciário. A impressão que se passa é que estão refilmando as cenas da indicação de Mendes ao tribunal, lembradas com arrependimento pelo líder do PT. No fundo, são apenas críticas político-partidárias, que tumultuam o ambiente e podem acabar gerando uma insegurança institucional desnecessária.